sexta-feira, 30 de outubro de 2009

AINDA AS PRAIAS DE ITAPAGIPE - RECUO DO MAR

Na postagem anterior, falávamos das praias perenes existentes em Itapagipe, duas delas naturais digamos assim, e uma terceira provocada ocasionalmente em razão da dragagem de areia executada na Ponta da Penha para aterro dos Alagados do Porto dos Mastros.

Praia do Bonfim

Não se acredita que tenha havido a intenção do feito, como aconteceu em diversas partes do mundo como, por exemplo, na Praia de Copacabana no Rio de Janeiro, na década de 1960.

O fato é que o fenômeno aconteceu surpreendentemente entre os anos de 1970 e 1980. À medida que se retirava areia da Ponta da Penha, o mar recuava na altura da Praia do Bonfim, onde a pequena baia começa a afunilar, justamente nesse ponto.

Quem conheceu o local antes do feito, (moramos na casa amarela ), realmente impressiona-se com o que aconteceu. Onde hoje está o meio fio do passeio, havia um cais de mais de 3 metros de altura. Nas marés altas, o mar chegava até ele e em dias de ressaca, os respingos das ondas molhavam a fachada das casas. Pescava-se siri de cima do cais. Dava-se caídas à partir dele. A profundidade assim permitia.

A pequena "Baia do Bonfim"


Uma grande praia há de se reconhecer! Maravilhas do Google!



Praia do Bugari ou Bulgari

Uns falam Bugari, outros Bulgari. Em tupi-guarani é “bulgari” e significa água grande. Estamos mais pela segunda opção.


A belíssima Praia da Boa Viagem




quinta-feira, 29 de outubro de 2009

PRAIAS DE ITAPAGIPE - PONTE DO LORÊTE

Ponte do Lorête - Ex-Ponte da Crush

Itapagipe só possuía duas praias perenes até os idos de 1960: as praias do Bugari e da Boa Viagem.

Praia do Bugari

Praia da Boa Viagem


Com a dragagem efetuada na Ponta da Penha para aterragem dos Alagados do Porto dos Mastros, surgiu uma terceira praia: a Praia do Bonfim, desde que nas proximidades do próprio Bonfim. Alguns a chamam de Praia da Beira Mar em razão de estar situada em frente à Avenida Beira Mar. Ainda outros a designam como Praia da Crush, por ter funcionado nas proximidades a fábrica desse refrigerante. A ponte ali existente também leva o nome da fábrica (Ponte da Crush).








Praia do Bonfim em duas fotos -Ao fundo a Ponte da Crush

Dos diversos nomes inventados pelo povo ou por historiadores, discordamos frontalmente de “Praia da Crush”, bem como da ponte do mesmo nome.


Ao longo de nossas pesquisas sobre Itapagipe, temos descoberto coisas incríveis. Os caras vão inventando as coisas e as coisas terminam pegando. A impressão que temos é que essas pessoas não moraram em Itapagipe! Poucos foram a Itapagipe ou nunca foram! Não gostavam de Itapagipe e quando pesquisaram, pesquisaram errado. De leve, superficialmente, coisa de somenos importância, teriam achado.


Não queremos ser a “palmatória do mundo”, mas não podemos seguir o mesmo caminho. Temos obrigação de fazer a coisa direita, tanto de relação às nossas pesquisas quanto à fidelidade de nossas lembranças. Moramos no bairro por cerca de 40 anos. Crescemos no bairro. Hoje escrevemos sobre o bairro.

As denominações Praia da Crush e Ponte da Crush não deveriam nem ser citadas. Uma provocou a outra. No caso, a ponte provocou o nome da praia.


Vamos esclarecer de uma vez por todas a questão. Não foi a Crush quem construiu a referida ponte. Quem a construiu foi a Fábrica de Chocolate Kaufmann. As instalações ali existentes foram construídas por essa indústria antes de 1950. Quando a Kaufmann fechou, a Crush se instalou em suas dependências por volta de 1960. No Rio de Janeiro, o refrigerante foi lançado em 1954. Abaixo uma propaganda da época:


Me for Crush

Aliás, a história dessa ponte é intrigante. Nunca se soube de sua real finalidade. Ela tem exatos 130.69 m de comprimento. Nas marés vazias, fica sobre a areia. Se havia alguma função, esta só existia nas marés cheias. A grande verdade é que nunca se viu um saveiro ou qualquer outro tipo de embarcação descarregando ou recebendo mercadorias na referida ponte.


Feitas as devidas correções, não podemos continuar chamando-a Ponte da Crush. O certo seria chamá-la de “Ponte da Kaufmann” e ainda mais correto seria chamá-la “Ponte do Lorête” conforme destacamos na primeira foto dessa postagem.
Porque Lorête? Kaufmann é um nome alemão. É complicado! Já Lorête. Vem de Zé Lorête, menino de Itapagipe, grande centro avante de futebol de praia, apesar de sua baixa estatura, mas na praia não precisava de altura para ser centro avante. Bastava agilidade! E Lorête se imiscuía por entre as pernas de seus marcadores e fazia grandes gols. Também Lorête mergulhava em baixo da ponte, atravessando-a de um lado para outro. Ainda estava em construção. Nós o seguíamos. Outros meninos também!



Os galpões da fábrica e a Ponte do Lorête





quarta-feira, 28 de outubro de 2009

HUMAITÁ - CÉU DE ESTRELAS

Fizemos um longo trabalho sobre a Ponta do Humaitá. Anexamos fotos da Igreja, do Farol e do casarão construído em 1619. Esquecemos de mencionar que entre os anos de 1950 a 1960 funcionou no local o Clube de Iates de Itapagipe, uma agremiação voltada para as atividades náuticas.
Tinha uma Comodoria então exercida pelo Dr.Heimar Barata e o autor desse blog era o vice-comodoro. Carlos Carneiro, diretor da Revista Náutica era um grande colaborador. Hider Teixeira que era Presidente da Bahia Pesca, veiculada à Secretaria da Agricultura, também colaborava. Sua freqüência era das melhores. A juventude da classe média o freqüentava com assiduidade, inclusive os filhos de oficiais que moravam em Monte Serrat.

Não era um clube “brega” como acabamos de ver num determinado site e “que se ia lá para dançar”. Realmente o clube fazia suas festas custeadas com a venda de mesas a famílias da localidade. Eram disputadíssimas! As principais orquestras da época tocaram nessas festividades. Foram noites memoráveis!
No dia 1º de cada ano, o clube promovia um Grito de Carnaval, como era chamado naquela época, integrando-se às festividades ao Senhor dos Navegantes. Esclareça-se que os “gritos de Carnaval” eram promovidos em todos os clubes da cidade, inclusive nos mais sofisticados como Associação Atlética da Bahia e Clube Baiano de Tênis. Todos eles memoráveis! Era moda naquela época. E como eram sensacionais!


O clube tinha um quadro de associados que pagavam suas mensalidades. Cada qual tinha sua carteira e só tinha acesso ao clube as pessoas portadoras do documento ou a convite de um associado, como é praxe até hoje em dia. Havia um estatuto. Procurava-se obedecê-lo!
Clube de Iates Itapagipe

Feitos os devidos esclarecimentos sobre o clube em si, precisamos também “consertar” uma informação dada no mesmo site de relação ao nome Humaitá. Foi dito que “a palavra Humaitá não é uma palavra antiga e que não significa nada”.
Pelo amor de Deus! A palavra Humaitá tem um significado e um significado bem interessante e sugestivo. Quer dizer “céu de estrelas” em tupi-guarani. Por coincidência ou não, a principal rua da hoje chamada Pedra Furada, chama-se Rua da Constelação, do céu de estrelas, de Humaitá, portanto.
Aliás, diga-se de passagem, todo esse conjunto entre a Igreja de Nossa Senhora de Monte Serrat e até a última casa da Pedra Furada, chama-se Humaitá. A Ponta do Humaitá é um dos seus destaques. A Pedra Furada é outro. Traçando uma linha reta entre a Ponta do Humaitá e o final da Rua da Constelação temos 790 metros. Com as curvas e reentrâncias passa de 1 km.

Humaitá - Traçado em vermelho

O nome Pedra Furada se originou de um minadouro de água doce potável, existente na localidade. Sua água vem de um aqüífero localizado pouco acima. Diz-se que esse minadouro teria sido beneficiado pelo pecuarista Amado Bahia que tinha uma unidade de abate de carne na Pedra Furada. Havia necessidade de muita água. O abatedouro não existe mais, mas o aqüífero ainda está lá bem como o famoso e inusitado minadouro. Ainda servem à comunidade.

Aquífero de Pedra Furada

Pedra Furada minando água
Não se pode conter os pensamentos!
Esse minadouro fica há cerca de 70 metros abaixo do aqüífero. Apesar de mal cuidado, tem uma serventia enorme para a comunidade. A água brota sem cessar!
“Ela corre de uma pedra furada”, diz a população, daí o nome de Pedra Furada dado ao local. Não podia ser outro! A segunda principal rua da localidade é a mesma onde se encontra o aqüífero Amado Bahia, pode ser assim denominado. A principal rua não podia deixar de ser a Rua da Constelação, a nossa Rua das Estrelas, com frente para o mar que se vê ao fundo. É uma rua cercada por construções de baixa qualidade e nenhum ordenamento.




Pedra Furada em hora de máre cheia




Pedra Furada em hora de maré vazia.




Rua da Constelação!

Devidamente esclarecidas as dúvidas a respeito de Humaitá, seu antigo clube e sua denominação, não podemos deixar passar a oportunidade de rever os casos de agressão ao patrimônio público por parte de alguns moradores. O assunto é importante, por isso estamos a repetí-lo, acrescentado mais alguns detalhes.
Primeiramente, o caso ou a casa desse proprietário.



Um andar superior sobre a antiga casa - Uma cobertura!
Agrediu seriamente a harmonia e a estética da fileira de casas existente na Ponta do Humaitá. Aliás, em Itapagipe isto está se tornando uma praga. Vejamos outro caso seriíssimo nas imediações do Largo do Bonfim, uma área também tombada.



O pombal à direita e o “Espaço Cultural” à esquerda

O proprietário desse imóvel fez o tal do pombal. É enorme. Sabem onde fica? Ao lado da Igreja do Bonfim, uma área tombada.
Já o proprietário do imóvel à esquerda, dono do Espaço Cultural do Bonfim, foi mais sugestivo. Deu ao seu bar, cujas mesas se vê atrás do gradeado, um nome que “confunde” a humanidade. Muito bom!
O segundo caso de agressão à Ponta do Humaitá se deu por determinada pessoa que construiu um pequeno apartamento entre a casa de 1629 e as que se enfileiram ao longo da Rua Monte Serrat.



Para tanto, ele aproveitou uma parede que se construiu num dos lados da grande casa para sustentação do referido apartamento.

Na foto acima, vê-se uma coluna embutida na parede. Mais cinco dessas colunas faziam parte desse lado onde se encontra hoje a referida parede. Foram todas demolidas. A casa que tinha quatro lados avarandados, hoje só possui três. Um pequena supressão. Nada mais, nada menos, haverão de dizer.













segunda-feira, 26 de outubro de 2009

PONTA DO HUMAITÁ

A Ponta do Humaitá é um dos locais mais belos de toda Salvador. Fica situada numa das saliências da península. Por esta razão tem um farol, sinalizando área de perigo para a navegação e orientação náutica de um modo geral.
Farol do Humaitá

Foi inaugurado em 1935- Latitude 12º 55 71’ S Longitude 038º 31.18’ W. Seu alcance geográfico e luminoso alcança 11 milhas náuticas, ou seja, um pouco mais de 20 quilômetros. Na balaustrada que protege toda a ponta, existe uma placa onde é indicado que este farol foi inaugurado em 1935, como já dissemos acima. Todavia, junto a essa placa existe um relevo em alvenaria indicando 1926. O farol está bem atrás. Em qual das duas indicações acreditar?


Esclareçamos de uma vez por todas essa dúvida. Devemos acreditar na placa verde. Esta é da Marinha ou do Exército desde que essa área está sob guarda dessa organização militar.
A outra placa, a de alvenaria, indicando o ano de 1926, refere-se à data de inauguração da balaustrada que circunda toda a ponta. Realmente esta proximidade causa dúvidas como esta, agora devidamente esclarecida.

Já que falamos em balaustrada, vamos retratá-la. Ela merece! É a única neste estilo existente em Salvador e talvez no País.



É uma balaustrada conjugada com assento. Isto mesmo! Foi projetada para conter o mar, claro, e também para o povo sentar. São as famosas praticidades das coisas simples. Antigamente se pensava muito nas pessoas que andavam ou moravam em cada local. Hoje só se pensa nas pessoas que passam de carro.

A balaustrada acima fica no lado esquerdo da Ponta. Do lado direito fica a Igreja de Nossa Senhora de Monte Serrat.

Na Rua Monte Serrat que dá acesso à Ponta, tiveram a coragem de tirar a nossa bela balaustrada-assento, a fim de colocar uma outra. Vejam-na:


A nova balaustrada já danificada


Toda em granito e tubos cromados. Foi construída ao tempo da reforma da Ponta para se tornar um das estações da futura Via Náutica.

Consideramos que houve uma agressão ao ambiente do local. Por outro lado, como a tal Via Náutica ficou em nada até agora, já estão levando as placas de granito e os tubos cromados já não resistem à maresia. Está tudo se enferrujando. Diz-se que os barracos de uma invasão próxima estão se granificando. Um luxo!

Aqui levaram os granitos e os tubos

Outra agressão sofrida no local aconteceu por parte dos proprietários das casas que, enfileiradas, compõem a Rua Monte Serrat em frente a tal balaustrada cromada. Essas casas são muito antigas, possivelmente do século XVII. Nelas moraram os “senhores”. Em baixo das referidas casas, numa espécie de cafua, tentavam viver os escravos. Ainda hoje se vê as “janelas” gradeadas.



Este fez um andar superior- Uma cobertura




Fileira de casas



Esse outro fez um apartamento(!?)


A grande residência de 1619


Foi construída no ano de 1619 e nela teria morado o Padre Antônio Vieira. Somente morado, desde que o grande sacerdote de nacionalidade portuguesa, só chegou ao Brasil em 1614, ainda menino. Logo ele não patrocinou a construção do imóvel como às vezes é citado. Residia no centro de Salvador com seus pais. Presume-se que a construção tenha sido realizada por quem herdou esse pedaço de terra do Conde Garcia D’Avila ou o próprio, ele que era proprietário de todo esse espaço e tantos outros. O difícil é saber qual dos Dias d’Ávila foi realmente o responsável pelo feito. O primeiro deles chamava-se Garcia de Souza d’Ávila e era filho de Thomé de Souza. Faleceu em 1609, dez anos antes do ano que a placa aponta. Não pode ter sido ele. Em seguida vieram: Francisco Dias d’Ávila, Garcia d’Ávila II, Cel. Francisco Dias d’Ávila, Francisco Dias d’Ávila Pereira e Cel. Garcia d’Ávila Pereira III. Esse último nasceu em 1680 e faleceu em 1734. Está fora de cogitação. Deve ter sido o penúltimo deles, o Francisco Dias d’Ávila Pereira.
Ela foi construida na parte mais bem protegida da ponta. Originalmente, tinha quatro lados avarandados a fim de aproveitar a amplitude do local.
Hoje possui apenas três lados, desde que a parte anterior ao mar foi terrivelmente sacrificada, como já tivemos ocasião de ver.

Igreja Nossa Senhora de Monte Serrat


Como epílogo de um belíssimo espetáculo que é a Ponta do Humaitá, temos a singela e magnífica Igreja de Nossa Senhora de Monte Serrat. Uns dizem Monte Serrate, mas este nome refere-se a um morro na cidade de Santos em São Paulo onde existe uma igreja dedicada à Nossa Senhora de Monte Serrate, padroeira de Santos. Todos os anos no dia 5 de setembro, a imagem sai em procissão até a Catedral daquela cidade onde é rezado um tríduo. No dia 8 de setembro, que é o dia consagrado àquela Santa, a imagem volta ao Monte Serrate. É feriado em Santos nesse dia. Mas mesmo em Santos, hoje em dia, a Santa também já é conhecida como N.Sra. de Monte Serrat, como a de Salvador, que é seu nome verdadeiro. Não importa o detalhe, o importante é que ambas são maravilhosas. A de Salvador é abrigada na Igreja de Monte Serrat na Ponta do Humaitá.

O culto a Nossa Senhora de Mont Serrat surgiu na Espanha na época de lutas entre os cristãos e os mouros que tinham invadido a Península Ibérica. Para escapar aos saques, igrejas e capelas foram desativadas e suas imagens escondidas. Diz-se que teria sido um pastor que encontrou numa caverna na região da Catalunha uma imagem da Virgem Maria com o menino nos braços. Como a região caracteriza-se por um relevo muito especial de rochas pontiagudas que fazem lembrar os dentes de uma gigantesca serra de cortar, originou-se então o nome de Monte Serrat.

Da Catalunha a devoção espalhou-se por quase toda a Europa, inclusive Portugal, daí chegando à Bahia ainda no tempo de Thomé de Souza. Coube a Garcia Dias D’Ávila, Senhor da Torre, a iniciativa de mandar construir a igreja que iria acolher a majestosa santa. Decorria o ano de 1580. Claro que a atual igreja não é a mesma mandada construir pelo Conde Garcia D’Avila e em seguida entregue à guarda da Ordem de São Bento ou Ordem Beneditina que tem em São Bento o seu padroeiro.
Parte do “atual” design data do século XVII e é atribuído ao arquiteto italiano Baccio de Filicaya. Daí para frente vem sofrendo sucessivas modificações e acréscimos. O mosteiro é uma deles e o “avarandado” que se vê em sua frente é outro, bem como foram feitas grandes modificações no seu interior. O altar-mor veio da Igreja do Mosteiro de São Bento, devidamente adaptado às dimensões da pequena igreja. O teto é todo novo, apenas a Santa é a mesma trazida há longos anos.


Fundo das casas e da Igreja


Vendo a força da maré neste lado que é o fundo das casas, bem como o nível que o mar alcança na frente das mesmas na Rua Monte Serrat, podendo chegar, nas marés altas, a cerca de 3 metros do cais, conclui-se definitivamente que a Ponta do Humaitá, era mesmo um braço de areia com um elevado de recifes na sua ponta mais extrema, onde se construiram a grande residência e a igreja.



A foto acima mais do que demonstra o que afirmamos há pouco. Percebe-se a igreja na extremidade, como que implantada num morro e ao seu fundo a residência a que estamos nos referindo, bem como o conjunto de casas. A igreja foi construída primeira, verdade que não no aspecto atual. Era uma pequena ermida edificada em lugar ermo, mas o seu espaço ficou garantido. A residência construída no ano de 1619 aproveitou bem todos os lados. Um deles dava para uma pequena praia. O contíguo à esquerda dava para onde hoje estão as casas. Não existe mais!


Vista de Salvador

Além de sua própria beleza, a Ponta do Humaitá é um dos locais mais estratégicos para se olhar a margeação litorânea de grande parte de Salvador, desde a Calçada até a ponta da Barra onde fica o seu famoso farol.























sexta-feira, 23 de outubro de 2009

ALAGADOS

Há quase 70 anos a natureza sofreu um duro ataque pelos lados da Península de Itapagipe. Tomaram do mar uma faixa de mais de um milhão de metros quadrados. Mas, como assim?

Nomearam a península como aterro sanitário de Salvador. Na mesma época, Itapagipe era designada como Pólo Industrial de Salvador. Duas misérias juntas. Na primeira nomeação, todo o lixo produzido no resto da cidade, principalmente oriundo da Cidade Alta, era jogado às margens da Enseada dos Tainheiros que chegava onde é hoje o bairro do Uruguai. Na época, ainda não existiam os bairros Jardim Cruzeiro, Machado e Maçaranduba. Toda área fazia parte da Enseada dos Tainheiros,

Um milhão de metros quadrados

Avenida do Contorno dos Alagados
Decorrido todo esse tempo, analisemos o que sobrou dessa insânia. Como resultado do aterro, temos hoje três bairros sem nenhum ordenamento urbanístico, sem arborização, sem nada. São áreas degradadas. Horríveis. Infelizmente, essa é a realidade.

De relação ao Pólo Industrial e suas mais de 30 indústrias, não existe sequer uma, hoje em dia. Todas fecharam! Só fizeram atrair gente de todos os lados do recôncavo e das ilhas e desempregá-las anos depois.


Por outro lado, fizeram um trabalho de dispersão gravíssimo. Mandou embora os veranistas que movimentavam Itapagipe social e economicamente. Ninguém suportava mais o mau cheiro e os dejetos industriais jogados ao mar, tanto do lado da Enseada dos Tainheiros, quanto do lado da Avenida Beira Mar.

Não compreendemos como um prefeito teve a coragem de autorizar o aterro do Uruguai e da forma como foi feito, com lixo.


Outro dia, estivemos lendo uma tese sobre os Alagados em que seu autor afirma que, após a colocação do lixo, uma draga posicionada na ponta da Penha canalizou areia para ser colocada sobre este lixo. O cara misturou tudo. Primeiro é necessário separar o Aterro do Uruguai, (assim deve ser chamado) com os Alagados da Avenida Porto dos Mastros. Aquele foi realizado por volta de 1940 e este último em 1953. Treze anos separam os dois acontecimentos, embora este último tenha se “inspirado” no primeiro, isto é, teria sido uma conseqüência daquele.


Segundo, não houve nenhuma colocação de areia sobre o lixo jogado no Uruguai. Na área não tinha areia! Era lama de mangues! O que jogaram em cima foi sulfato de ferro, também conhecido com sulfato férrico. Contêm enxofre e oxigênio e é usado como coagulante para tratamento de resíduos industriais. No caso do Uruguai no tratamento do lixo. Um cheiro insuportável. Depois de feito o “misère”, colocaram uma camada de barro.

A canalização de areia da ponta da Penha foi feita exclusivamente para os Alagados do Porto dos Mastros.


Estranhamos muitíssimo a tendência urbanística de nossos antigos dirigentes. Quando pensavam algo de ruim, lembravam-se da Cidade Baixa. É uma tendência que vem desde os tempos de Thomé de Souza. Sabe-se, por exemplo, de um decreto daquela época, que “todo o lixo produzido na Cidade Alta, deveria ser jogado na Cidade Baixa”. Não é brincadeira não! O homem decretou assim!

A idéia se estendeu até o século passado. “Todo o lixo produzido na Cidade Alta deverá ser jogado na Enseada dos Tainheiros”. Foi o que aconteceu por volta do ano de 1940.


Ninguém enxergava Salvador para os lados leste e norte da cidade. Só enxergavam para o sudoeste. Parece que agora começam a pensar na Cidade Baixa. Recentemente, o atual Prefeito desapropriou todos os imóveis existentes na atual Avenida Luiz Tarquínio e parte da Rua Barão de Cotegipe. Vão construir uma avenida e rejuvenescer essa área. Parece ter sido uma medida certa! Se alguém duvidar, vá fazer um “Cooper” entre o Canta Galo e a Boa Viagem pela praia. Se chegar vivo em Monte Serrat é um campeão.


Este blog está baseado em um livro de nossa autoria sobre Itapagipe do Senhor do Bonfim, ainda a ser publicado. Há muitos impedimentos a vencer. Mas isto é outra história. Neste livro, já defendia a idéia da construção dessa avenida, bem como de outras tão importantes quanto.
Ligação Ponta do Humaitá - Porto da Lenha - Avenida Beira-Mar


Uma delas seria ligando a Ponta do Humaitá à Avenida Beira Mar, passando pela Pedra Furada, Estaleiro do Bonfim e Porto da Lenha. Como se sabe, entre essas localidades há diversas interrupções e é um lugar muito bonito. Possivelmente, será a continuação da que a Prefeitura está cogitando fazer na Av. Luiz Tarquínio.


A outra (a segunda foto desse post) publicada acima, é de suma importância. Faria o contorno da hoje Bacia do Uruguai até alcançar a Enseada do Cabrito em Plataforma. Ela evitaria a continuação do avanço das palafitas que ainda continuam tomando o mar em diversas partes da Enseada, principalmente na chamada Bacia do Uruguai e na de Joanes.


Falando em fazer e não fazer, defendemos uma tese de que os Alagados da Avenida do Porto dos Mastros aconteceram por uma falha no projeto de construção do cais que protege grande parte da península desde a Avenida dos Tainheiros até o Porto da Lenha e está lá até hoje.


Este cais deveria ter se estendido pela Avenida do Porto dos Mastros até proximidades do Largo do Papagaio. Omitiram esta avenida. Não consigo localizar as razões dessa omissão. Certa feita nos veio à cabeça o fato de não existir areia no antigo Porto dos Mastros, só lama, contudo, os Tainheiros também não têm areia e o cais o alcançou. A existência de areia no local onde foi construído o cais era importante para aterro das ruas que se formaram ou se alargaram. Em verde área onde foi construído cais (Tainheiros - Porto da Lednha). Em vermelho, a área do antigo Porto dos Mastros (não foi construído cais)

O antigo Porto dos Mastros não era asfaltado nem calçado. Era todo em barro. Do lado do mar, a rua se inclinava em direção ao mar e às plantações de mangue que a contornavam em toda a sua extensão dos Tainheiros até o Largo do Papagaio. Apesar disto, possuia belas residências com frente para esta avenida e fundo para Rua Visconde de Caravelas. Olhe o detalhe! A Visconde de Caravelas que é hoje a principal avenida da área, era fundo das casas do Porto dos Mastros. Contudo, o fato de não existir um espaço bem determinado da rua que um cais proporcionaria, foi um incentivo para a invasão naquela área. Porquê não invadiram os Tainheiros alí de junto? Havia um cais!Um ordenamento urbano!
Rua dos Alagados



Hoje os Alagados estão consolidados e é irreversível. Não existe mais veraneio em Itapagipe. É um bairro degradado. Ninguém constrói nada. Só reforma. Uma super-população torna os serviços deficientes. Tinha um cinema e este se acabou. Tinha um belo restaurante no Hidroporto dos Tainheiros e também se acabou. O que existe é muita barraca tanto nas suas ruas, quanto nas praias. As casas que tinham a sua frente o mar, como no Bugari e no Poço, hoje têm a vista empanada por essas barracas. Não se enxerga mais o mar, nem a praia. Viva os Alagados! Seu povo não tem culpa. A culpa é das omissões tidas e das decisões equivocadas de nossos dirigentes.






quarta-feira, 21 de outubro de 2009

HISTÓRIA DE SALVADOR- CIDADE BAIXA - O VERDADEIRO NOME DA IGREJA DO BOMFIM

Quando este blog foi criado, afirmamos que as informações nele contidas seriam fruto de pesquisas em diversas fontes e conhecimento do lugar. Moramos muitos anos na Cidade Baixa, entre infância no Canta Galo e juventude em Itapagipe.
Não fosse a experiência advinda dessa vivência, seria impossível ou pouca produtiva a ação da própria pesquisa. Ou levaríamos anos para realizá-la ou a faríamos de forma pouco convincente.
O fato a seguir é um exemplo do que estamos afirmando acima. Em nossas “andanças” por Itapagipe descobrimos diversas placas indicativas de trânsito com o nome Bomfim com “m”. Abaixo reproduzimos uma delas:

Bomfim com "M"
Um evidente erro de gramática. “Antes de F não se põe M”. Mas aí está a placa da Prefeitura. Bem no Largo de Roma. Têm outras por toda Itapagipe, indicando o caminho do Bonfim. Tem uma na Praia do Bugari. Têm mais duas bem próximas da Colina: uma no final da Avenida Dendezeiros do Bonfim e outra no final da Rua da Imperatriz, quase esquina com a Baixa do Bonfim. Todas indicam Bomfim com “m”.

Resultado: malho na Prefeitura. Como se faz uma coisa desta? Inclusive ela própria se contradiz, quando na placa indicativa do nome da Avenida Dendezeiros está lá escrito Bonfim com “n”. Avenida Dendezeiros do Bonfim.

Mas será que está errado mesmo? Será que o nome do Santo é com M e não com N. Foram feitas pesquisas de todos os lados, consulta e surpresa, o verdadeiro nome do Santo é Senhor Bom Jesus do Bomfim. A imagem foi trazida de Portugal pelo militar Teodósio Rodrigues de Farias. Ela é de Setubal naquele País e lá o santo chama-se Bom Jesus do Bomfim de Setubal.

Como surgiu o nome Bomfim lá em Portugal. Diz-se que a imagem foi encontrada próxima a Setubal (sempre a imagem foi “encontrada” e não “feita”). A partir do seu descobrimento procurou-se dar a mesma um “bom fim”. Ficou sendo Senhor Bom Jesus do Bomfim. Pode ser também o bom fim de todas as coisas, o bom fim da vida ou o bom fim da morte. Que tudo tenha um bom fim, este é o nosso desejo, poderíamos dizer para alguém que persegue um objetivo ou tenta a solução de um problema. (REF: CARVALHO FILHO – 1932).

Não foi por outra razão que o militar Teodósio Rodrigues de Farias que tinha uma patente alta na hierarquia das forças armadas portuguesas, portanto um homem com algum conhecimento das coisas, possivelmente de gramatica, ao registrar a Irmandade dos Devotos do Senhor do Bomfim, o fez acertadamente com M. Ele era de Setubal, meu prezado e bom amigo Sérgio Netto que ventilou o assunto em noite memorável de gamão. Sim, também jogamos gamão! Temos um blog específico. Seu endereço: gamaotecnico.blogspot.com.
REFERÊNCIA: CARVALHO FILHO – 1932

terça-feira, 20 de outubro de 2009

SALVADOR- HISTÓRIA DA CIDADE BAIXA - IGREJA NOSSA SENHORA DOS ALAGADOS

A Igreja de Nossa Senhora dos Alagados fica localizada no alto de uma colina, praticamente ao término da Rua do Uruguai. Uma transversal à esquerda vai sair na Avenida Caminho de Areia. Logo, a igreja está situada dentro do que chamamos Itapagipe do Senhor do Bonfim.

Foi fundada em 07 de julho de 1980 e inaugurada pelo papa João Paulo II por ocasião de sua primeira visita ao Brasil e a Bahia. Antes do papa, esteve nos Alagados Madre Tereza de Calcutá, tendo fundado a creche das Irmãs Missionárias da Caridade, existente até hoje.
Muito antes da Madre, por volta do ano de 1943, Irmã Dulce já atuava na área, realizando um trabalho assistencial e educacional. Fundou a Irmandade “Filhas de Maria Servas dos Pobres” que existe até hoje e construiu o Colégio Santo Antônio.
Igreja Nossa Senhora dos Alagados
Em nossa busca de informações sobre esta Igreja , encontramos esta pérola na internet: “a igreja de estilo contemporâneo e em formato retangular, muito se assemelha às moradias da região”.

Que moradias? Estas da rua principal do bairro? Não acredito! É impressionante a sucessão de citações equivocadas e impressões distorcidas que existe sobre Itapagipe. A acima citada é uma delas. O leitor desprevenido poderá pensar que o bairro é todo certinho e bonitinho. Não é!


Ou esta? A foto de palafitas que continuam a surgir nas beiradas da Enseada dos Tainheiros, beiradas que ainda atingem o bairro do Uruguai pela direita de quem o olha do Largo dos Mares.

Só tem uma solução. A contenção desse avanço com a construção de uma avenida contornando toda esta área até Plataforma ou Lobato, como haveremos de sugerir mais adiante. Primeiramente um cais, depois a avenida.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

SALVADOR- HISTÓRIA DA CIDADE BAIXA- IGREJA NOSSA SENHORA DA BOA VIAGEM

A Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem tinha antigamente somente o mar pela frente. Por volta de 1950 construíram no lado da praia, ao lado direito da igreja, uma grande residência, um palacete em verdade. Enorme! Tomou grande parte da vista, justamente aquela onde se vê o Forte de Monte Serrat. A melhor vista!

Não é que as igrejas precisem de vista para sobressair-se. É que os padres chegaram primeiro. Quando a construíram em 1712 a praia e o mar estavam em frente. Não havia nada entre eles. Aí vem uma determinada pessoa de grande posse e de excepcional prestígio político ( tinha que ser) e levanta uma “barreira residencial” em frente à igreja. Para que? Primeiramente o lugar é aprazível como são todos os locais à beira-mar, mas principalmente, porque desta casa se tem uma visão privilegiada da procissão do Senhor dos Navegantes no primeiro dia de cada ano, além do privilégio de participar do grande réveillon que eram os festejos de fim de ano da festa da Boa Viagem. A casa ficava lotada de políticos e figurinhas da alta sociedade daquela época. Um privilégio! Os convites deviam ser muito disputados! Naquele tempo não havia o réveillon da Barra e seu esplendor multe colorido. A coisa era na Boa Viagem mesmo!

Vejamos na foto que se segue esta agressão urbanística das mais graves que se conhece na Cidade Baixa

Olha o tamanho da casa!

Igreja Nossa Senhora da Boa Viagem


Diz-se que antes de se tornar Igreja e Convento, funcionou no local um hospício pertencente à Ordem dos Franciscanos. Tudo começou em 1710 quando D. Lourença Maria de Negreiros, proprietária de extensa faixa de terra na península, doou uma fazenda à Ordem dos Franciscanos. A única condição colocada pela fazendeira foi que a Ordem construísse no local uma igreja e quando pronta, fosse celebrada cinco missas anuais em seu nome e o de sua filha de nome Ana Pereira de Negreiros. Mãos à obra e já em 1712 os franciscanos deram à Bahia a belíssima Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem. As missas em homenagem a D. Lourença só foram celebradas por pouco tempo. Depois as esqueceram. Se alguém falar uma coisa desta ao pároco de hoje, ele possivelmente diria: “quem é esta mulher?”


Foi construída em estilo barroco português, com boa parte de sua frente revestida de azulejos pérola nacarado de origem portuguesa, brancos e azuis. Também a sua torre em formato piramidal é toda revestida desses azulejos o que dá ao conjunto uma harmonia arquitetônica maravilhosa. Sua porta principal é de jacarandá com almofadas em alto relevo, encimada por três janelas de guilhotina simetricamente dispostas.

No interior o seu piso é de mármore cinza e o teto todo azul com uma pintura evocativa de proteção de Nossa Senhora a veleiros singrando o mar. O Altar-Mor é trabalhado em talha dourada o mesmo ocorrendo com os dois altares laterais, um dedicado a Nossa Senhora das Necessidades e o outro a São Gonçalo. Encimando o Altar-Mor destaca-se a imagem de Nosso Senhor Bom Jesus dos Navegantes e abaixo dele a imagem de Nossa Senhora da Boa Viagem.


Cruzeiro e a Igreja



Frontispicio em azulejos importados