sábado, 30 de janeiro de 2010
MARISQUEIRAS DE ITAPAGIPE
Sábado, 30/01/2010, dia de Lua Cheia. Consequentemente, maré totalmente vazia às 10 hóras de manhã. Marisqueiras nas imediações de Lobato e Plataforma, é o flagrante. São mais de mil. Nossa máquina focalizou apenas uma parte. Não tem a amplitude necessária. Amanhã, depois, todos os dias, de acordo com a hóra da maré vazante, elas estarão catando o papa-fumo de sempre. Nunca acaba, apesar da intensidade da pesca. Milagre da natureza! Dádiva de Deus. Tomara que seja sempre assim.
ALAGADOS
ALAGADOS DE ITAPAGIPE - Terceira e última série desse acontecimento. Bel e Firmino fizeram a denúncia à polícia. Era o que Carlos queria.
3
A sesta feira amanheceu ensolarada. Desde as 7 horas a Avenida do Porto dos Mastros apresentava um movimento estranho de viaturas policiais. E estava aumentando. Caminhões despejavam levas de soldados fortemente armados. Outros veículos traziam grandes blocos de cimento armado que estavam sendo colocados em todas as transversais. Dois caminhões foram atravessados no começo da avenida do lado do Largo do Papagaio e outro na saída na Avenida dos Tainheiros. Um serviço de som instalado em uma Kombi avisava aos moradores que evitassem sair à rua naquele dia e, se não fosse possível, que carregasse consigo algum documento que provasse residir no local. Pedia que não mandassem as crianças para a escola nem as deixassem sair à rua. Explicavam que estava para acontecer atos de terrorismo no local por parte de facções criminosas. Aos líderes do bairro seriam dadas maiores explicações. E continuava chegando soldados. Já eram mais de trezentos homens.
Enquanto isto, Carlos e mais quatro homens acompanhavam toda a movimentação do alto de São Caetano. Todos portavam potentes binóculos e máquinas fotográficas. Tinham alugado uma casa cujo fundo dava para a Enseada dos Tainheiros. Durante todo o dia foi um entrar e sair de gente, principalmente marisqueiras e desempregados. Aquelas deveriam estar às 9 horas da noite nas margens de Lobato e Santa Luzia e deveriam portar um fifó, cujo dinheiro para compra fora adiantado. Dez reais, cinco pelo fifó e cinco para o querosene. Eram mais de 50 mulheres. No local estaria uma pessoa para orientá-las no que fazer. Já os rapazes, deveriam se concentrar em frente ao marco do descobrimento do petróleo, também às 9 horas. Deveriam estar de calção e camisa regata. Porque no Marco do Descobrimento do Petróleo? Porque logo abaixo, foram escondidos entre os galhos de mangue, tábuas e varetas de diversos tamanhos. Pedaços de cordas. Caixas de pregos. Serrotes, Machados. Pás. Pés de cabra, facões. Sacos de areia, uma infinidade de materiais. Foram contratados dois marceneiros experientes. Somente eles sabiam dos materiais.
As marisqueiras foram dispostas 50 metros uma da outra. A fila alcançava um quilômetro de distância. Num determinado momento, a primeira à esquerda da fila acendeu seu fifó que acendeu o da segunda até alcançar a última à direita. Uma seqüência até bonita. Meio olímpica, se não tivesse outra finalidade. Quando todos os fifós estavam acessos, elas foram ordenadas a entrar na lama e ficar circulando por todo o espaço até o meio da Enseada, até aonde desse pé. Os fifós deviam ficar levantados acima da cabeça. A um sinal que seria dado por um coordenador, os fifós deveriam ser apagados na água e cada marisqueira desapareceria em direção às suas casas. No dia seguinte receberiam R$10.00 pela “brincadeira”.
Quanto aos rapazes, cerca de vinte, foram comunicados que logo ali em baixo, entre as folhas de mangue, encontrariam materiais para demarcar a área em frente em quadrados de 8 metros de cada lado. Terminado o estoque de paus e madeiras, também deveriam desaparecer. Igualmente, receberiam R$10.00 pelo serviço.
Eram 20 horas quando começou a movimentação dos dois grupos.
Entrementes, centenas de pessoas se concentravam no Adro do Bonfim a partir das 19 horas. A maioria vestia branco de Oxalá. Parecia o ritual de uma seita de candomblé. A praça começava a ficar cheia. Os coordenadores do movimento acharam por bem distribuir as pessoas para outros espaços, nas proximidades. Uns subiram para o Alto do Monte Serrat; outros desceram para os Portos da Lenha e do Bonfim.
No princípio da Avenida Beira Mar, as casas de material de construção ali existentes mantiveram as portas abertas. De alguma forma seus proprietários desconfiavam de alguma coisa. Nas paredes, anunciavam promoções de diversos tipos de madeira, serrotes e facões.
De relação à polícia parecia que tudo decorria bem. Toda Avenida do Porto dos Mastros estava protegida. Não havia sequer uma pessoa na rua, a não ser policiais.
- Tenente, o senhor já reparou aquelas luzes do lado do Lobato e Santa Luzia? Era um dos soldados se dirigindo ao comandante da operação.
- Meu Deus! Fomos enganados! Eles estão invadindo do outro lado. Em pouco tempo, chegarão ao meio da enseada. Fizeram-nos vir para aqui, enquanto ficaram totalmente livres para agirem do lado de lá. Vamos atrás deles. Peça à Vila, caminhões para transporte de todo o pessoal. Suspendam a operação.
De imediato, foram retiradas todas as barreiras e em pouco tempo os soldados estavam embarcados em caminhões que, em alta velocidade, se dirigiam para o Lobato. Pegaram a Avenida dos Mares e viraram à esquerda. Ao final da rua encontraram uma barreira de pneus em chamas. Grandes nuvens de fumaça escureciam a noite com intervalos de lampejos.
- Chamem o Corpo dos Bombeiros. Não temos condições de remover esses pneus. São muitos.
Minutos depois, o sargento encarregado das comunicações dizia que os bombeiros estavam combatendo outra barreira de pneus em chama no princípio da mesma rua onde se encontravam os policiais.
- Ficamos ilhados. Não podemos nem ir, nem voltar. Estão querendo nos retardar.
Efetivamente, quando os quatros caminhões e os dois ônibus da Polícia entraram na avenida que dá no Lobato, decorridos poucos minutos, dois homens começaram a fazer uma barreira de pneus velhos que se encontravam dentro de um caminhão estacionado há cem metros do princípio da avenida. Tocaram fogo na mesma. Entre as duas barreiras não existia nenhuma transversal que permitisse a saída dos veículos da polícia. Nem mesmo a pé.
E, exatamente, às 10 horas da noite, em dia de Lua Cheia, conforme a denuncia, uma multidão de mais de 1000 pessoas tomava posse do mar do Porto dos Mastros. Era a invasão dos Alagados de Itapagipe. Fato consumado e irreversível.
3
A sesta feira amanheceu ensolarada. Desde as 7 horas a Avenida do Porto dos Mastros apresentava um movimento estranho de viaturas policiais. E estava aumentando. Caminhões despejavam levas de soldados fortemente armados. Outros veículos traziam grandes blocos de cimento armado que estavam sendo colocados em todas as transversais. Dois caminhões foram atravessados no começo da avenida do lado do Largo do Papagaio e outro na saída na Avenida dos Tainheiros. Um serviço de som instalado em uma Kombi avisava aos moradores que evitassem sair à rua naquele dia e, se não fosse possível, que carregasse consigo algum documento que provasse residir no local. Pedia que não mandassem as crianças para a escola nem as deixassem sair à rua. Explicavam que estava para acontecer atos de terrorismo no local por parte de facções criminosas. Aos líderes do bairro seriam dadas maiores explicações. E continuava chegando soldados. Já eram mais de trezentos homens.
Enquanto isto, Carlos e mais quatro homens acompanhavam toda a movimentação do alto de São Caetano. Todos portavam potentes binóculos e máquinas fotográficas. Tinham alugado uma casa cujo fundo dava para a Enseada dos Tainheiros. Durante todo o dia foi um entrar e sair de gente, principalmente marisqueiras e desempregados. Aquelas deveriam estar às 9 horas da noite nas margens de Lobato e Santa Luzia e deveriam portar um fifó, cujo dinheiro para compra fora adiantado. Dez reais, cinco pelo fifó e cinco para o querosene. Eram mais de 50 mulheres. No local estaria uma pessoa para orientá-las no que fazer. Já os rapazes, deveriam se concentrar em frente ao marco do descobrimento do petróleo, também às 9 horas. Deveriam estar de calção e camisa regata. Porque no Marco do Descobrimento do Petróleo? Porque logo abaixo, foram escondidos entre os galhos de mangue, tábuas e varetas de diversos tamanhos. Pedaços de cordas. Caixas de pregos. Serrotes, Machados. Pás. Pés de cabra, facões. Sacos de areia, uma infinidade de materiais. Foram contratados dois marceneiros experientes. Somente eles sabiam dos materiais.
As marisqueiras foram dispostas 50 metros uma da outra. A fila alcançava um quilômetro de distância. Num determinado momento, a primeira à esquerda da fila acendeu seu fifó que acendeu o da segunda até alcançar a última à direita. Uma seqüência até bonita. Meio olímpica, se não tivesse outra finalidade. Quando todos os fifós estavam acessos, elas foram ordenadas a entrar na lama e ficar circulando por todo o espaço até o meio da Enseada, até aonde desse pé. Os fifós deviam ficar levantados acima da cabeça. A um sinal que seria dado por um coordenador, os fifós deveriam ser apagados na água e cada marisqueira desapareceria em direção às suas casas. No dia seguinte receberiam R$10.00 pela “brincadeira”.
Quanto aos rapazes, cerca de vinte, foram comunicados que logo ali em baixo, entre as folhas de mangue, encontrariam materiais para demarcar a área em frente em quadrados de 8 metros de cada lado. Terminado o estoque de paus e madeiras, também deveriam desaparecer. Igualmente, receberiam R$10.00 pelo serviço.
Eram 20 horas quando começou a movimentação dos dois grupos.
Entrementes, centenas de pessoas se concentravam no Adro do Bonfim a partir das 19 horas. A maioria vestia branco de Oxalá. Parecia o ritual de uma seita de candomblé. A praça começava a ficar cheia. Os coordenadores do movimento acharam por bem distribuir as pessoas para outros espaços, nas proximidades. Uns subiram para o Alto do Monte Serrat; outros desceram para os Portos da Lenha e do Bonfim.
No princípio da Avenida Beira Mar, as casas de material de construção ali existentes mantiveram as portas abertas. De alguma forma seus proprietários desconfiavam de alguma coisa. Nas paredes, anunciavam promoções de diversos tipos de madeira, serrotes e facões.
De relação à polícia parecia que tudo decorria bem. Toda Avenida do Porto dos Mastros estava protegida. Não havia sequer uma pessoa na rua, a não ser policiais.
- Tenente, o senhor já reparou aquelas luzes do lado do Lobato e Santa Luzia? Era um dos soldados se dirigindo ao comandante da operação.
- Meu Deus! Fomos enganados! Eles estão invadindo do outro lado. Em pouco tempo, chegarão ao meio da enseada. Fizeram-nos vir para aqui, enquanto ficaram totalmente livres para agirem do lado de lá. Vamos atrás deles. Peça à Vila, caminhões para transporte de todo o pessoal. Suspendam a operação.
De imediato, foram retiradas todas as barreiras e em pouco tempo os soldados estavam embarcados em caminhões que, em alta velocidade, se dirigiam para o Lobato. Pegaram a Avenida dos Mares e viraram à esquerda. Ao final da rua encontraram uma barreira de pneus em chamas. Grandes nuvens de fumaça escureciam a noite com intervalos de lampejos.
- Chamem o Corpo dos Bombeiros. Não temos condições de remover esses pneus. São muitos.
Minutos depois, o sargento encarregado das comunicações dizia que os bombeiros estavam combatendo outra barreira de pneus em chama no princípio da mesma rua onde se encontravam os policiais.
- Ficamos ilhados. Não podemos nem ir, nem voltar. Estão querendo nos retardar.
Efetivamente, quando os quatros caminhões e os dois ônibus da Polícia entraram na avenida que dá no Lobato, decorridos poucos minutos, dois homens começaram a fazer uma barreira de pneus velhos que se encontravam dentro de um caminhão estacionado há cem metros do princípio da avenida. Tocaram fogo na mesma. Entre as duas barreiras não existia nenhuma transversal que permitisse a saída dos veículos da polícia. Nem mesmo a pé.
E, exatamente, às 10 horas da noite, em dia de Lua Cheia, conforme a denuncia, uma multidão de mais de 1000 pessoas tomava posse do mar do Porto dos Mastros. Era a invasão dos Alagados de Itapagipe. Fato consumado e irreversível.
ALAGADOS
ALAGADOS DE ITAPAGIPE - Este é o segundo capítulo da série com este título. Carlos provocou a denúncia por parte do amigo do seu pai. Era o que ele queria.
2
Bel ficou em pé na varanda vendo Carlos descer as escadas externas de sua residência; abrir o portão, olhar para cima onde ele se encontrava, galgar o píer de atracação e por fim ouvir o barulho do motor do saveiro que desaparecia no meio da neblina.
Estava sem querer acreditar no que acabava de saber. Este molecote, transformado em líder de bairro, comandando uma invasão de mar numa área nobre de Itapagipe. Ali moram centenas de famílias em boas casas. É diferente do Uruguai. Era uma área onde já existiam dezenas de palafitas. Sua casa e a do Calisto eram as poucas exceções. Nas proximidades, contudo, já avançavam várias habitações sobre os mangues.
Mandou chamar mestre Firmino. – Você deve ter visto Carlos por aqui. Está acontecendo coisas terríveis. Vão invadir o mar do Porto dos Mastros. Ele é um dos chefes do movimento. Vai acontecer na noite da próxima sesta-feira. Acho que podemos tentar impedir esta invasão. Como cidadão, não posso ficar impassível diante de um fato de natureza tão grave. Tenho que fazer qualquer coisa para impedir que tal aconteça.
- Mas fazer o que Bel?
- Denunciar à polícia. É o que farei. Não poderemos fazer a denúncia aqui da ilha. Daria muito na pinta. Você vai pegar a lancha. Saltar na Ribeira e num telefone público fará a denuncia sem citar nomes.
- Mas eu patrão? Nunca denunciei ninguém. Não sei nem como se faz.
- Vamos juntos. Ficarei ao seu lado.
- É do “disque-denuncia”? Quero fazer uma denúncia.
- Pois não, do que se trata?
- Um grupo de pessoas vai invadir o mar no Porto dos Mastros e instalar palafitas em toda a área. Vai ser na próxima sesta-feira, à noite, às 10 horas.
- Como o senhor soube disto?
Firmino não soube responder. Tirou o telefone do ouvido e ficou olhando para Bel que também não sabia o que a pessoa do outro lado havia falado.
- Alô, alô, o senhor ainda está na linha, foi o que Bel ouviu quando ele próprio colocou o telefone no ouvido.
- Na próxima sesta-feira, não esqueça foi o máximo que ele conseguiu pronunciar, antes de desligar.
- Nunca pensei que fazer uma denúncia fosse tão difícil, mestre Firmino. A gente fica como que culpado de alguma coisa. Será que não fomos precipitados? Poderíamos ter usado outros meios.
- Mas que outros meios, Bel?
- Procurar o próprio Carlos e tentar convencê-lo em contrário. Falar com o pai dele, com a irmã. Qualquer coisa, menos a denúncia que acabamos de fazer. E se não fosse verdade? Fosse apenas um blefe ou estaria ele apenas nos testando.
No dia seguinte, à noite, o próprio Carlos ligava para o “Disque –Denúncia”. Também comunicava dia e hora da invasão do mar no Porto dos Mastros.
- Ontem, alguém nos ligou para fazer a mesma denúncia que o senhor está fazendo. O que está havendo?
- Não está havendo nada. Vai haver! Anotou tudo direitinho? Sesta-feira, 10 horas da noite. É Lua Cheia. Estará tudo claro. Muito claro! Estou desligando. Chau!
Aquela ligação fora dada por precaução. Tinha quase certeza que o Bel já teria feito a denuncia pelo que conhecia do amigo do seu pai. Ele não poderia ficar sem fazer nada diante do que estava por acontecer. Achava-se um homem digno e correto. Algo teria que ser feito para impedir a consumação e uma denúncia era o melhor meio para impedir. Não voltou a lhe procurar, o que seria normal. Não falou com seu pai nem com a sua irmã. Restou normalmente a denúncia. Era o que Carlos queria. Só fez a sua própria para ter certeza de que a de Bel já tinha sido feita
2
Bel ficou em pé na varanda vendo Carlos descer as escadas externas de sua residência; abrir o portão, olhar para cima onde ele se encontrava, galgar o píer de atracação e por fim ouvir o barulho do motor do saveiro que desaparecia no meio da neblina.
Estava sem querer acreditar no que acabava de saber. Este molecote, transformado em líder de bairro, comandando uma invasão de mar numa área nobre de Itapagipe. Ali moram centenas de famílias em boas casas. É diferente do Uruguai. Era uma área onde já existiam dezenas de palafitas. Sua casa e a do Calisto eram as poucas exceções. Nas proximidades, contudo, já avançavam várias habitações sobre os mangues.
Mandou chamar mestre Firmino. – Você deve ter visto Carlos por aqui. Está acontecendo coisas terríveis. Vão invadir o mar do Porto dos Mastros. Ele é um dos chefes do movimento. Vai acontecer na noite da próxima sesta-feira. Acho que podemos tentar impedir esta invasão. Como cidadão, não posso ficar impassível diante de um fato de natureza tão grave. Tenho que fazer qualquer coisa para impedir que tal aconteça.
- Mas fazer o que Bel?
- Denunciar à polícia. É o que farei. Não poderemos fazer a denúncia aqui da ilha. Daria muito na pinta. Você vai pegar a lancha. Saltar na Ribeira e num telefone público fará a denuncia sem citar nomes.
- Mas eu patrão? Nunca denunciei ninguém. Não sei nem como se faz.
- Vamos juntos. Ficarei ao seu lado.
- É do “disque-denuncia”? Quero fazer uma denúncia.
- Pois não, do que se trata?
- Um grupo de pessoas vai invadir o mar no Porto dos Mastros e instalar palafitas em toda a área. Vai ser na próxima sesta-feira, à noite, às 10 horas.
- Como o senhor soube disto?
Firmino não soube responder. Tirou o telefone do ouvido e ficou olhando para Bel que também não sabia o que a pessoa do outro lado havia falado.
- Alô, alô, o senhor ainda está na linha, foi o que Bel ouviu quando ele próprio colocou o telefone no ouvido.
- Na próxima sesta-feira, não esqueça foi o máximo que ele conseguiu pronunciar, antes de desligar.
- Nunca pensei que fazer uma denúncia fosse tão difícil, mestre Firmino. A gente fica como que culpado de alguma coisa. Será que não fomos precipitados? Poderíamos ter usado outros meios.
- Mas que outros meios, Bel?
- Procurar o próprio Carlos e tentar convencê-lo em contrário. Falar com o pai dele, com a irmã. Qualquer coisa, menos a denúncia que acabamos de fazer. E se não fosse verdade? Fosse apenas um blefe ou estaria ele apenas nos testando.
No dia seguinte, à noite, o próprio Carlos ligava para o “Disque –Denúncia”. Também comunicava dia e hora da invasão do mar no Porto dos Mastros.
- Ontem, alguém nos ligou para fazer a mesma denúncia que o senhor está fazendo. O que está havendo?
- Não está havendo nada. Vai haver! Anotou tudo direitinho? Sesta-feira, 10 horas da noite. É Lua Cheia. Estará tudo claro. Muito claro! Estou desligando. Chau!
Aquela ligação fora dada por precaução. Tinha quase certeza que o Bel já teria feito a denuncia pelo que conhecia do amigo do seu pai. Ele não poderia ficar sem fazer nada diante do que estava por acontecer. Achava-se um homem digno e correto. Algo teria que ser feito para impedir a consumação e uma denúncia era o melhor meio para impedir. Não voltou a lhe procurar, o que seria normal. Não falou com seu pai nem com a sua irmã. Restou normalmente a denúncia. Era o que Carlos queria. Só fez a sua própria para ter certeza de que a de Bel já tinha sido feita
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
ALAGADOS
Com certo receio, publicamos um conto de nossa autoria sobre um casal de franceses que viveu determinado tempo nos Alagados de Itapagipe. Preparavam uma tese junto à Universidade de París.
Temiamos que não fosse bem aceito, muito embora o assunto disesse respeito ao modo de vida das marisqueiras dos Alagados. Como elas enfrentavam o dia a dia daquela vida sofrida em cima do mar.
Para nossa surpresa, estamos recebendo comentários elogiosos sobre a "série". Foi bem compreendida!
Estimulados, deveras, partimos para um segundo conto também dentro do que pretende esse blog: o conhecimento da Cidade Baixa. Não é absolutamente verdadeiro como foi a história do casal de franceses, mas é dotado de toda uma realidade.
ALAGADOS DE ITAPAGIPE
1
Bel havia tomado café fazia pouco tempo. Em seguida, como de costume, sentou-se na varanda de sua residência no Alto da Ilha de Maré. Era uma das poucas casas existentes nessa área do morro. Tinha a frente para o mar. Dalí avistava-se toda Salvador e as ilhas em frente à capital. Naquele dia, entretanto, uma espessa neblina encobria a bela vista. Esse fenômeno era muito comum nesta época do ano. Ao meio da manhã, ela se dissipava e ter-se-ia um dia de muito sol e muito calor. Não no espaço onde se encontrava sua residência. Soprava sempre uma brisa agradável que entrava pela ampla varanda e refrescava toda a casa. Mesmo às tardes, quando o sol descia por trás da ilha, não havia muita diferença. Fora construída de modo a não permitir a incidência direta sobre as suas principais partes, frente e fundo. A luz solar deslizava sobre suas laterais.
De repente, surge em meio à neblina um dos barcos a motor que fazem a travessia de passageiros de São Thomé de Paripe - Ilha de Maré. Trazia somente uma pessoa. Aportou no cais do seu resort conhecido como Espinha de Peixe. Sua projeção sobre o mar e as extensões laterais com base numa estrutura central, lembrava efetivamente uma espinha de peixe.
Mesmo de longe, reconheceu seu afilhado, Carlos, filho de Calisto, seu maior amigo. Caminhava a passos largos e rapidamente alcançou o portão de entrada da residência, localizado na parte baixa do morro. Em pouco tempo já adentrava na varanda onde Bel se encontrava.
- Bom dia padrinho!
- Bom dia Carlos. Que o traz aqui a esta hora da manhã, mesmo com esta neblina?
- Algo muito importante!
- Mas antes me diga como vão as coisas em Salvador? Sua irmã, como vai de faculdade? Você mesmo, como vai o supermercado? Tem estado com meus filhos?
- Não os vejo faz tempo. Minha irmã vai bem e o supermercado eu o vendi. Não suportei as despesas. São muito altas. Muitos funcionários. A concorrência. Se não tiver preço, você não vende bem, e o supermercado para sobreviver têm que vender muito. O meu já não vendia tanto. Os clientes que eram todos meus, passaram a comprar nas pequenas lojas que se abriram nas redondezas. A gente faz a praça, cria o hábito de compra de uma população que antes só comprava em feiras e vem essa gente de mercadinhos e toma nossos clientes. Eles não têm custo! Não tem balcões frigoríficos. Gastam pouca energia. Não usam sacos plásticos para os clientes embalarem o que compram. Cada cliente leva a sua sacola. E eu que pensei que os sacos fossem importantes. Além de embalar as mercadorias, servem também para armazenar lixo.
- E vendeu bem a loja? Deu para sair no lucro?
- Quase! Ainda tenho algumas dívidas a saldar, principalmente com o fisco. Eles levam 50% do que a gente ganha sem trabalhar um minuto sequer. Não consigo entender esse processo. É desumano e irracional. A coisa é sua, você é quem trabalha. Começa no batente às 7 horas da manhã, sai à meia-noite, e eles levam a metade do que você fatura ou até mais.
Bel escutava calado, mas já imaginando a razão daquela visita. Ele veio pedir dinheiro emprestado. Não sei se devo dá-lo. Precisaria primeiro falar com o pai dele.
- Sim, e daí? Qual a razão de sua visita a esta hora da manhã?
- Sei que o senhor está pensando que eu vim aqui pedir-lhe dinheiro emprestado. Mas não é o caso. O senhor não tem nenhuma obrigação com minha pessoa. Talvez tenha com meu pai, mas comigo não. Vim aqui para lhe pedir um conselho, uma orientação. Sei que o senhor, junto com meu pai, foram os precursores da invasão dos Alagados do Uruguai. Hoje é um bairro consolidado. O senhor até construiu um condomínio de casas. Ficou rico com elas. Meu pai também, mas ele na tentativa de me ajudar gastou tudo que tinha. Hoje trabalha para o senhor no resort.
- Nós não fomos precursores de nada! Tínhamos as nossas casas à beira-mar e não precisávamos invadi-lo. Vivíamos dele honestamente. Eu e seu pai. O que fizemos foi uma armadilha pesqueira que em certos lugares é chamada de curral. Quando a maré vazava, os peixes ficavam presos. Só isto! Ai veio a Prefeitura e aterrou o local com lixo proveniente de outras partes da cidade. Nosso curral ficou em baixo desse lixo. Reivindicamos a posse e fizemos um condomínio de casas. Tudo legal. Não fizemos nenhuma invasão!
- E o velho Firmino, como entra nessa história?
- Firmino já morava aqui em Maré. Não tem nada a haver. Ele apenas nos orientou como fazer o curral. Mas, afinal de contas, o porquê de toda essa história?
- O mar vai ser de novo invadido! Faço parte do grupo que planeja essa invasão.
- O mar vai ser invadido aonde?
- No Porto dos Mastros!
- No Porto dos Mastros? Naquela área? Vão acabar com a enseada! Não estou acreditando. E que grupo é este que você faz parte?
- Sindicalistas, líderes de diversas comunidades, alguns políticos, desempregados das fábricas que se fecharam, o povo em geral.
- Você se enquadra em qual categoria?
- Sou um dos líderes dos Bairros do Uruguai e do Lobato.
- E quando vai ser a invasão?
- Na próxima Lua Cheia. Às 10 horas da noite.
- É nesta sexta feira. Meu Deus! Seu pai sabe disso?
- Não sabe e espero que o senhor não lhe diga nada. Ele não anda muito bem de saúde. Pode ficar preocupado. Bem padrinho, estou indo. A neblina já melhorou um pouco e estou pagando à hora ao barqueiro. Tenho muito que fazer. De qualquer sorte, obrigado pelas "informações" que o senhor me deu. Pelo menos, saio daqui com a certeza de que meu passado é limpo.
Temiamos que não fosse bem aceito, muito embora o assunto disesse respeito ao modo de vida das marisqueiras dos Alagados. Como elas enfrentavam o dia a dia daquela vida sofrida em cima do mar.
Para nossa surpresa, estamos recebendo comentários elogiosos sobre a "série". Foi bem compreendida!
Estimulados, deveras, partimos para um segundo conto também dentro do que pretende esse blog: o conhecimento da Cidade Baixa. Não é absolutamente verdadeiro como foi a história do casal de franceses, mas é dotado de toda uma realidade.
ALAGADOS DE ITAPAGIPE
1
Bel havia tomado café fazia pouco tempo. Em seguida, como de costume, sentou-se na varanda de sua residência no Alto da Ilha de Maré. Era uma das poucas casas existentes nessa área do morro. Tinha a frente para o mar. Dalí avistava-se toda Salvador e as ilhas em frente à capital. Naquele dia, entretanto, uma espessa neblina encobria a bela vista. Esse fenômeno era muito comum nesta época do ano. Ao meio da manhã, ela se dissipava e ter-se-ia um dia de muito sol e muito calor. Não no espaço onde se encontrava sua residência. Soprava sempre uma brisa agradável que entrava pela ampla varanda e refrescava toda a casa. Mesmo às tardes, quando o sol descia por trás da ilha, não havia muita diferença. Fora construída de modo a não permitir a incidência direta sobre as suas principais partes, frente e fundo. A luz solar deslizava sobre suas laterais.
De repente, surge em meio à neblina um dos barcos a motor que fazem a travessia de passageiros de São Thomé de Paripe - Ilha de Maré. Trazia somente uma pessoa. Aportou no cais do seu resort conhecido como Espinha de Peixe. Sua projeção sobre o mar e as extensões laterais com base numa estrutura central, lembrava efetivamente uma espinha de peixe.
Mesmo de longe, reconheceu seu afilhado, Carlos, filho de Calisto, seu maior amigo. Caminhava a passos largos e rapidamente alcançou o portão de entrada da residência, localizado na parte baixa do morro. Em pouco tempo já adentrava na varanda onde Bel se encontrava.
- Bom dia padrinho!
- Bom dia Carlos. Que o traz aqui a esta hora da manhã, mesmo com esta neblina?
- Algo muito importante!
- Mas antes me diga como vão as coisas em Salvador? Sua irmã, como vai de faculdade? Você mesmo, como vai o supermercado? Tem estado com meus filhos?
- Não os vejo faz tempo. Minha irmã vai bem e o supermercado eu o vendi. Não suportei as despesas. São muito altas. Muitos funcionários. A concorrência. Se não tiver preço, você não vende bem, e o supermercado para sobreviver têm que vender muito. O meu já não vendia tanto. Os clientes que eram todos meus, passaram a comprar nas pequenas lojas que se abriram nas redondezas. A gente faz a praça, cria o hábito de compra de uma população que antes só comprava em feiras e vem essa gente de mercadinhos e toma nossos clientes. Eles não têm custo! Não tem balcões frigoríficos. Gastam pouca energia. Não usam sacos plásticos para os clientes embalarem o que compram. Cada cliente leva a sua sacola. E eu que pensei que os sacos fossem importantes. Além de embalar as mercadorias, servem também para armazenar lixo.
- E vendeu bem a loja? Deu para sair no lucro?
- Quase! Ainda tenho algumas dívidas a saldar, principalmente com o fisco. Eles levam 50% do que a gente ganha sem trabalhar um minuto sequer. Não consigo entender esse processo. É desumano e irracional. A coisa é sua, você é quem trabalha. Começa no batente às 7 horas da manhã, sai à meia-noite, e eles levam a metade do que você fatura ou até mais.
Bel escutava calado, mas já imaginando a razão daquela visita. Ele veio pedir dinheiro emprestado. Não sei se devo dá-lo. Precisaria primeiro falar com o pai dele.
- Sim, e daí? Qual a razão de sua visita a esta hora da manhã?
- Sei que o senhor está pensando que eu vim aqui pedir-lhe dinheiro emprestado. Mas não é o caso. O senhor não tem nenhuma obrigação com minha pessoa. Talvez tenha com meu pai, mas comigo não. Vim aqui para lhe pedir um conselho, uma orientação. Sei que o senhor, junto com meu pai, foram os precursores da invasão dos Alagados do Uruguai. Hoje é um bairro consolidado. O senhor até construiu um condomínio de casas. Ficou rico com elas. Meu pai também, mas ele na tentativa de me ajudar gastou tudo que tinha. Hoje trabalha para o senhor no resort.
- Nós não fomos precursores de nada! Tínhamos as nossas casas à beira-mar e não precisávamos invadi-lo. Vivíamos dele honestamente. Eu e seu pai. O que fizemos foi uma armadilha pesqueira que em certos lugares é chamada de curral. Quando a maré vazava, os peixes ficavam presos. Só isto! Ai veio a Prefeitura e aterrou o local com lixo proveniente de outras partes da cidade. Nosso curral ficou em baixo desse lixo. Reivindicamos a posse e fizemos um condomínio de casas. Tudo legal. Não fizemos nenhuma invasão!
- E o velho Firmino, como entra nessa história?
- Firmino já morava aqui em Maré. Não tem nada a haver. Ele apenas nos orientou como fazer o curral. Mas, afinal de contas, o porquê de toda essa história?
- O mar vai ser de novo invadido! Faço parte do grupo que planeja essa invasão.
- O mar vai ser invadido aonde?
- No Porto dos Mastros!
- No Porto dos Mastros? Naquela área? Vão acabar com a enseada! Não estou acreditando. E que grupo é este que você faz parte?
- Sindicalistas, líderes de diversas comunidades, alguns políticos, desempregados das fábricas que se fecharam, o povo em geral.
- Você se enquadra em qual categoria?
- Sou um dos líderes dos Bairros do Uruguai e do Lobato.
- E quando vai ser a invasão?
- Na próxima Lua Cheia. Às 10 horas da noite.
- É nesta sexta feira. Meu Deus! Seu pai sabe disso?
- Não sabe e espero que o senhor não lhe diga nada. Ele não anda muito bem de saúde. Pode ficar preocupado. Bem padrinho, estou indo. A neblina já melhorou um pouco e estou pagando à hora ao barqueiro. Tenho muito que fazer. De qualquer sorte, obrigado pelas "informações" que o senhor me deu. Pelo menos, saio daqui com a certeza de que meu passado é limpo.
RESPOSTA
Joselito disse...
quando chegou a imagem de Nossa Senhora da Boa Viagem? A sua festa qual era a data? Sabemos que a festa de 1º de janeiro vem bem depois.
(Comentário feito na postagem sobre a Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem, sua festa, data, etc.)
No Brasil este culto teve inicio em Salvador por volta de 1710 quando uma senhora de nome Lorença Maria de Negreiros doou uma fazenda à Ordem dos Franciscanos. Diz-se que, a única condição colocada pela referida senhora foi que a Órdem construísse no local uma igreja e quando pronta fosse celebrada cinco missas anuais em seu nome e o de sua filha de nome Ana Pereira de Negreiros.
Em 1712 a primitiva igreja foi concluída e missas foram rezadas em homenagem à D. Lorença e sua filha, mas isto por pouco tempo. Depois as esqueceram. Se alguém perguntar ao pároco de hoje quem foi D. Lorença, ele certamente não saberá responder. Em conseqüência, as missas já eram há muito tempo.
Se o culto à Nossa Senhora da Boa Viagem teve início no Brasil em Salvador por volta de 1710, não se compreende como haja citações de que em 1707 tenha sido erguida uma igreja sob a invocação de Nossa Senhora da Boa Viagem em Recife.
Vejam a contradição do texto publicado na internet: “No Brasil a tradição desse culto (Nossa Senhora da Boa Viagem) desembarcou primeiro em Salvador. Nessa capital existe a mais antiga igreja sobre a invocação à Nossa Senhora da Boa Viagem, construída junto à praia. Na capital pernambucana, além da igreja erguida em 1707, surgiu o bairro e a praia da Boa Viagem”.
Ora, se D. Lorença fez a doação do terreno em 1710 e a primitiva igreja fora erguida em 1712, e o próprio autor do texto acima diz que “No Brasil a tradição desse culto (Nossa Senhora da Boa Viagem) desembarcou primeiro em Salvador”, há uma evidente confusão de datas. A igreja de Recife não pode ter sido erguida em 1707 ou a de Salvador foi construído antes disso.
Outra contradição, diz respeito à vinda de uma imagem de N.S. da Boa Viagem desde 1709 ao interior de Minas Gerais. Esta imagem pertencia a uma nau portuguesa que chegou ao Brasil em 1709 (Não diz o porto nem a cidade) e seu comandante, Luiz de Figueredo Monterroio, acompanhado de vários marujos, resolveram abandonar a vida marítima e tentar a sorte na Capitania das Minas. E a nau como ficou? Sem comandante e vários marujos? Em que porto? Virou um navio fantasma?
Alguns estranham uma igreja dedicada a nossa Senhora da Boa Viagem em pleno interior de Minas Gerais e uma catedral em Belo Horizonte. A história da devoção a N.Sra. da Boa Viagem em Minas Gerais também está ligada aos homens do mar.
Já outro autor faz referência a um tal Francisco Homem del-Rei como realizador do feito. Teria sido em Congonhas.
Um ou outro deve ser o responsável, mas que a dualidade causa uma certa confusão, não há como negar. De qualquer sorte, Nossa Senhora da Boa Viagem é padroeira de Belo Horizonte onde se construiu uma catedral em sua homenagem. 15 de agosto é o seu dia.
Talvez esteja aí o necessário esclarecimento. Em Minas Gerais o dia da grande Santa é 15 de agosto e em Salvador é 1 de janeiro.
quando chegou a imagem de Nossa Senhora da Boa Viagem? A sua festa qual era a data? Sabemos que a festa de 1º de janeiro vem bem depois.
(Comentário feito na postagem sobre a Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem, sua festa, data, etc.)
No Brasil este culto teve inicio em Salvador por volta de 1710 quando uma senhora de nome Lorença Maria de Negreiros doou uma fazenda à Ordem dos Franciscanos. Diz-se que, a única condição colocada pela referida senhora foi que a Órdem construísse no local uma igreja e quando pronta fosse celebrada cinco missas anuais em seu nome e o de sua filha de nome Ana Pereira de Negreiros.
Em 1712 a primitiva igreja foi concluída e missas foram rezadas em homenagem à D. Lorença e sua filha, mas isto por pouco tempo. Depois as esqueceram. Se alguém perguntar ao pároco de hoje quem foi D. Lorença, ele certamente não saberá responder. Em conseqüência, as missas já eram há muito tempo.
Se o culto à Nossa Senhora da Boa Viagem teve início no Brasil em Salvador por volta de 1710, não se compreende como haja citações de que em 1707 tenha sido erguida uma igreja sob a invocação de Nossa Senhora da Boa Viagem em Recife.
Vejam a contradição do texto publicado na internet: “No Brasil a tradição desse culto (Nossa Senhora da Boa Viagem) desembarcou primeiro em Salvador. Nessa capital existe a mais antiga igreja sobre a invocação à Nossa Senhora da Boa Viagem, construída junto à praia. Na capital pernambucana, além da igreja erguida em 1707, surgiu o bairro e a praia da Boa Viagem”.
Ora, se D. Lorença fez a doação do terreno em 1710 e a primitiva igreja fora erguida em 1712, e o próprio autor do texto acima diz que “No Brasil a tradição desse culto (Nossa Senhora da Boa Viagem) desembarcou primeiro em Salvador”, há uma evidente confusão de datas. A igreja de Recife não pode ter sido erguida em 1707 ou a de Salvador foi construído antes disso.
Outra contradição, diz respeito à vinda de uma imagem de N.S. da Boa Viagem desde 1709 ao interior de Minas Gerais. Esta imagem pertencia a uma nau portuguesa que chegou ao Brasil em 1709 (Não diz o porto nem a cidade) e seu comandante, Luiz de Figueredo Monterroio, acompanhado de vários marujos, resolveram abandonar a vida marítima e tentar a sorte na Capitania das Minas. E a nau como ficou? Sem comandante e vários marujos? Em que porto? Virou um navio fantasma?
Alguns estranham uma igreja dedicada a nossa Senhora da Boa Viagem em pleno interior de Minas Gerais e uma catedral em Belo Horizonte. A história da devoção a N.Sra. da Boa Viagem em Minas Gerais também está ligada aos homens do mar.
Já outro autor faz referência a um tal Francisco Homem del-Rei como realizador do feito. Teria sido em Congonhas.
Um ou outro deve ser o responsável, mas que a dualidade causa uma certa confusão, não há como negar. De qualquer sorte, Nossa Senhora da Boa Viagem é padroeira de Belo Horizonte onde se construiu uma catedral em sua homenagem. 15 de agosto é o seu dia.
Talvez esteja aí o necessário esclarecimento. Em Minas Gerais o dia da grande Santa é 15 de agosto e em Salvador é 1 de janeiro.
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
A TESE
Essa história é verdadeira. Um casal de franceses viveu por algum tempo nos Alagados de Itapagipe começando com apenas R$10.00. A experiência fazia parte de uma tese de doutorado que os dois defendiam para a Universidade de Paris. Vamos romanceá-la.
CAPÍTULO 1
Paul e Marie eram sociológos e no momento estavam fazendo uma extensão na Faculdade de Paris. Eram casados, o que lhes permitiram fazer uma tese conjunta ao encerramento do curso. Já tinham o assunto! Seria sobre os Alagados de Itapagipe na Bahia, Brasil. Não pensavam fazer uma simples descrição sobre esse movimento social que repercutiu em todo o mundo, mas alguma coisa inétida que se tornasse uma referência. Por exemplo, tentariam morar por um certo tempo nos Alagados com apenas R$10.00 no bolso dos dois. Chegariam ao local com a roupa do corpo e uma ou duas mudas. Só! O único auxílio, digamos assim, seria já existir uma palafita que seria alugada para os dois. Isto foi providenciado por um ex- colega brasileiro, hoje residente na Bahia.
O interesse começou quando Mensinho, o baiano, lhes falou sobre os Alagados. Sua família morava perto. Ele ficava impressionado quando via todo aquela gente catando mariscos na Enseada dos Tainheiros desde Lobato até Plataforma e mesmo Penha. Ninguém tinha emprego. As famílias eram numerosas e mesmo assim, conseguiam viver e ainda sorriam e cantavam, como se tudo aquilo fosse normal e nada de mais estivesse acontecendo.
Paul e Marie ficaram super interessados no asunto e, constantemente, faziam perguntas à Mensinho sobre esse lugar. E a marginalidade? Não havia tráfico de drogas? Crimes? Roubo?
A resposta de Mensinho era sempre negativa. Não havia nada disto. Outras partes da cidade eram mais perigosas do que o próprio Alagados. Era uma comunidade ordeira, a maioria religiosa, todos se conheciam. Havia escolas no local, centros de saúde, enfim, uma estrutura razoável, mantida pelo governo. Havia até policiamento, pouco, mas havia.
Desde então, o casal fazia um curso intensivo de portugues e pela internet procediam frequentes pesquisas sobre os Alagados. Sabiam em que ano começou – 1943 – no bairro chamado Uruguay e teve seu ápice em 1953 nas proximidades da Ribeira, mais precisamente no chamado Porto dos Mastros.
Sabiam também que o processo de erradicação das palafitas se deu em 1992 e continua até hoje, mas ainda tem palafita. Ainda são mais de três mil em toda a área invadida. Numa delas o casal faria a sua experiência.
- Mensinho, estaremos prontos daqui a três meses.
- Será um prazer revê-los. Como vai o português? Podemos falar um pouco.
- Claro, gajo. Estamos às vossas ordens.
- Paul, pelo amor de Deus, vocês estão falando como se fossem portugueses. O professor de vocês é português ou brasileiro?
- Português, claro!
- A escrita é igual, mas a pronuncia é diferente. Vocês terão dificuldade em se comunicar. Tenho uma idéia. Ai em París existe um academia de capoeira, cujo professor é baiano. Eu a frequentei. Muitos brasileiros tambem frequentam. Sugiro que vocês se matriculem. Assim, no dia a dia dia, terão condições de falar como eles, inclusive gíirias.
- Faremos o que você está sugerindo. Eu não sabia que havia diferença. Me dá o endereço da tal academia. Vai ser até bom aprender um pouco de capoeira. Talvez venha a precisar.
- Tudo bem. O endereço é este – passou o endereço – Já escolhi a palafita, devo alugá-la ainda esse mês. Está precisando de alguma reforma.
- Não queremos nada de luxo. Só o essencial.
- Luxo? Nunca haverá luxo em uma palafita. A reforma que lhe falei trata-se de reforçá-la, principalmemte a base de sua sustentação sobre a lama. Telhado. Essas coisas. Em dias de grande maré e ventos fortes, se os paus que a sustentam não estiverem bem, ela poderá desabar. Tem acontecido muito por aqui. É preciso um certo cuidado. Aliás, muito cuidado! No mais, providenciarei um lugar onde vocês possam viver razoavelmente bem. Rede, mesa, cadeiras, uma ou duas cômodas para guarda das suas coisas, isto é, um pouco de organização. Estou pensando em colocar um fogão.
- Fogão não. Tenho lido na internet que as pessoas improvisam uma espécie de fogão com tijolos. Quero a mesma coisa.
- Está bem, sei como é este fogão. Realmente funciona. Funciona até como lareira. Em dias frios, o que aqui é raro, ele aquece o ambiente se mantido aceso. Deixe comigo. Se algo estiver em excesso, será removido.
E água e luz?
- Você as terá. Serão puxadas extensões da casa vizinha. Uma passa para a outra e assim sucessivamente. São gatos.
- Gatos?
- Desculpe! São ligações clandestinas. Tem inicio na avenida que passa em frente. Aqui ninguém paga água e luz. No princípio, as empresas do governo, colocaram medidores na primeira palafita e essa distribuia para as demais, mediante o pagamento de uma taxa para cada uma. Mas logo os medidores eram como que “roubados” e a água e a luz passavam direto. Não adianta o controle. As palafitas são incontroláveis!
- Tudo bem, estou desligando. Ainda hoje vou procurar a tal da academia de capoeira.
CAPÍTULO 1
Paul e Marie eram sociológos e no momento estavam fazendo uma extensão na Faculdade de Paris. Eram casados, o que lhes permitiram fazer uma tese conjunta ao encerramento do curso. Já tinham o assunto! Seria sobre os Alagados de Itapagipe na Bahia, Brasil. Não pensavam fazer uma simples descrição sobre esse movimento social que repercutiu em todo o mundo, mas alguma coisa inétida que se tornasse uma referência. Por exemplo, tentariam morar por um certo tempo nos Alagados com apenas R$10.00 no bolso dos dois. Chegariam ao local com a roupa do corpo e uma ou duas mudas. Só! O único auxílio, digamos assim, seria já existir uma palafita que seria alugada para os dois. Isto foi providenciado por um ex- colega brasileiro, hoje residente na Bahia.
O interesse começou quando Mensinho, o baiano, lhes falou sobre os Alagados. Sua família morava perto. Ele ficava impressionado quando via todo aquela gente catando mariscos na Enseada dos Tainheiros desde Lobato até Plataforma e mesmo Penha. Ninguém tinha emprego. As famílias eram numerosas e mesmo assim, conseguiam viver e ainda sorriam e cantavam, como se tudo aquilo fosse normal e nada de mais estivesse acontecendo.
Paul e Marie ficaram super interessados no asunto e, constantemente, faziam perguntas à Mensinho sobre esse lugar. E a marginalidade? Não havia tráfico de drogas? Crimes? Roubo?
A resposta de Mensinho era sempre negativa. Não havia nada disto. Outras partes da cidade eram mais perigosas do que o próprio Alagados. Era uma comunidade ordeira, a maioria religiosa, todos se conheciam. Havia escolas no local, centros de saúde, enfim, uma estrutura razoável, mantida pelo governo. Havia até policiamento, pouco, mas havia.
Desde então, o casal fazia um curso intensivo de portugues e pela internet procediam frequentes pesquisas sobre os Alagados. Sabiam em que ano começou – 1943 – no bairro chamado Uruguay e teve seu ápice em 1953 nas proximidades da Ribeira, mais precisamente no chamado Porto dos Mastros.
Sabiam também que o processo de erradicação das palafitas se deu em 1992 e continua até hoje, mas ainda tem palafita. Ainda são mais de três mil em toda a área invadida. Numa delas o casal faria a sua experiência.
- Mensinho, estaremos prontos daqui a três meses.
- Será um prazer revê-los. Como vai o português? Podemos falar um pouco.
- Claro, gajo. Estamos às vossas ordens.
- Paul, pelo amor de Deus, vocês estão falando como se fossem portugueses. O professor de vocês é português ou brasileiro?
- Português, claro!
- A escrita é igual, mas a pronuncia é diferente. Vocês terão dificuldade em se comunicar. Tenho uma idéia. Ai em París existe um academia de capoeira, cujo professor é baiano. Eu a frequentei. Muitos brasileiros tambem frequentam. Sugiro que vocês se matriculem. Assim, no dia a dia dia, terão condições de falar como eles, inclusive gíirias.
- Faremos o que você está sugerindo. Eu não sabia que havia diferença. Me dá o endereço da tal academia. Vai ser até bom aprender um pouco de capoeira. Talvez venha a precisar.
- Tudo bem. O endereço é este – passou o endereço – Já escolhi a palafita, devo alugá-la ainda esse mês. Está precisando de alguma reforma.
- Não queremos nada de luxo. Só o essencial.
- Luxo? Nunca haverá luxo em uma palafita. A reforma que lhe falei trata-se de reforçá-la, principalmemte a base de sua sustentação sobre a lama. Telhado. Essas coisas. Em dias de grande maré e ventos fortes, se os paus que a sustentam não estiverem bem, ela poderá desabar. Tem acontecido muito por aqui. É preciso um certo cuidado. Aliás, muito cuidado! No mais, providenciarei um lugar onde vocês possam viver razoavelmente bem. Rede, mesa, cadeiras, uma ou duas cômodas para guarda das suas coisas, isto é, um pouco de organização. Estou pensando em colocar um fogão.
- Fogão não. Tenho lido na internet que as pessoas improvisam uma espécie de fogão com tijolos. Quero a mesma coisa.
- Está bem, sei como é este fogão. Realmente funciona. Funciona até como lareira. Em dias frios, o que aqui é raro, ele aquece o ambiente se mantido aceso. Deixe comigo. Se algo estiver em excesso, será removido.
E água e luz?
- Você as terá. Serão puxadas extensões da casa vizinha. Uma passa para a outra e assim sucessivamente. São gatos.
- Gatos?
- Desculpe! São ligações clandestinas. Tem inicio na avenida que passa em frente. Aqui ninguém paga água e luz. No princípio, as empresas do governo, colocaram medidores na primeira palafita e essa distribuia para as demais, mediante o pagamento de uma taxa para cada uma. Mas logo os medidores eram como que “roubados” e a água e a luz passavam direto. Não adianta o controle. As palafitas são incontroláveis!
- Tudo bem, estou desligando. Ainda hoje vou procurar a tal da academia de capoeira.
A TESE
Epílogo: história do casal de franceses que viveu um certo tempo nos Alagados de Itapagipe
Naquela noite fizeram uma festa na casa de Bela. Convidaram Dona Benedita, a vendedora da avenida, os pescadores da canoa que ajudaram a transportar os frezers, alguns vizinhos e tambem vieram Mensinho e Ana.
Dona Bela e Manolo prepararam uma agulhada. Como sempre um sucesso.
O casal ainda passou quinze dias hospedado na casa dos amigos e após viajaram. Na véspera deram uma recepção em torno da piscina.Presentes grande número de colegas de Mensinho na Universidade e amigos de Ana. Bela e Manolo também estavam presentes. Começavam a se integrar na nova vida.Tinham muito o que apreender. Agora era a vez de Paul e Marie ensiná-los.
Naquela noite fizeram uma festa na casa de Bela. Convidaram Dona Benedita, a vendedora da avenida, os pescadores da canoa que ajudaram a transportar os frezers, alguns vizinhos e tambem vieram Mensinho e Ana.
Dona Bela e Manolo prepararam uma agulhada. Como sempre um sucesso.
O casal ainda passou quinze dias hospedado na casa dos amigos e após viajaram. Na véspera deram uma recepção em torno da piscina.Presentes grande número de colegas de Mensinho na Universidade e amigos de Ana. Bela e Manolo também estavam presentes. Começavam a se integrar na nova vida.Tinham muito o que apreender. Agora era a vez de Paul e Marie ensiná-los.
A TESE
Nono capítulo da história do casal de franceses que viveu um certo tempo nos Alagados de Itapagipe
O negócio prosperava dia a dia. Ainda pescavam papa-fumos, mas o ganho era infinitesimal em relação à venda das agulhas. Eram centenas de dúzias a cada semana. Moradores das palafitas vizinhas agora também pescavam à noite em dias de maré cheia nesse turno. Vendiam a Paul e à Dona Bela por R$0.30 a unidade. Era melhor negócio do que a venda do papa-fumo. Quem olhava do outro lado via as palafitas todas iluminadas. Não era uma luz fixa. Movia-se. Foram contratadas duas marisqueiras para tratar os peixes. Precisava de mais gente, mas não havia espaço. Paul alugou a palafita vizinha que se encontrava vazia. Fez uma pequena reforma e passou todo o serviço de tratamento para ela. Comprou mais um freezer. Desta feita, o transporte foi feito com mais eficácia.
Agora pensava em desenvolver a pesca de sururu. Viajou até Valença e Taperoá para ver como se fazia a pesca desse molusco. Foi na Kombi de Manolo. Trouxe duas cordas com milhares deles. Fora orientado em desmembrar essas cordas em dezenas de outras e distribuí-las pela área a ser desenvolvida. Seria em frente à sua palafita e a de Dona Bela, estendendo-se para fora. Em maré vazia, fincou para mais de 100 paus de mangues e em cada uma das cordas agrupou dezenas de sururus. Eles haveriam de se reproduzir normalmente e isto aconteceu em menos de um mês. As cordas estavam duplicadas e até triplicadas.
Junto com as agulhas, fornecia também agora caldo de sururu em recipientes plásticos de um litro cada um. Foi um sucesso. Era muito bem feito por Dona Bela. Tinha sururu mesmo. Não era igual a esses caldos onde só se encontrava um ou dois sururus, por acaso.
Paul e Marie estavam provando que era possível, sim, viver com dignidade e prosperidade nos Alagados. A maioria estava estacionada. Limitara-se à pesca e venda dos papa-fumos. Faltava visão a esse pessoal. O mar é muito rico, tem grande potencial, é só saber explorá-lo. Faltava orientação e exemplo. Veja o caso da pesca das agulhas. Ninguém as pescava e elas sempre estiveram ali. Hoje, a maioria pesca e estão ganhando dinheiro com isto. O mesmo vai acontecer com a fazenda de sururu. Já o vizinho fazia a mesma coisa na extensão de sua palafita. Em pouco tempo serão dezenas.
Estava cumprida uma parte de seu projeto de vida nos Alagados. Paul o imaginou em pensamento tão logo estudou a área. Facilitou o raciocínio, as pesquisas realizadas em París pela internet. Toda a área onde há ou havia manguezal se prestava para esse tipo de pescaria.
Este povo ainda não fez nada disto por falta de instrução. Faltava o básico. Ele estava ensinando a esse pessoal. Aliás, estava mostrando. Cada um que visse e copiasse.
Manguezal? Já era escasso no Lobato, mas ainda tinha alguns nichos. Resolveu colher as sementes das arvoras mais maduras e espalhá-las por entre as palafitas por toda a margem. Eram chamadas de propágulos. Florescia rápido. Em pouco mais de um mês o ambiente em torno já se modificara. Jogou sururu no meio da vegetação, esporadicamente.
- Você é um francês danadinho. Dona Bela estava sentada na varanda de Paul. Em pouco tempo você mudou o panorama disto aqui. Lembra-se do que lhe falei no primeiro dia em que lhe conheci?
- Não. Não me lembro.
-Disse-lhe que você haveria de vencer de outra forma que não somente pescando e vendendo papa-fumo como esta gente faz há anos. Lembro-me muito bem que lhe falei algo assim: “vai chegar um ponto, um determinado momento, que vocês deverão fazer crescer o negócio de pescar papa-fumo. Pescar, vender, comer, pescar, vender, comer... não faz o perfil de vocês nem de ninguém que não tenha crescido aqui”.
- É verdade. Dona Bela. A senhora além de bonita é vidente. Tudo aconteceu como a senhora previu. Impressionante!
- Mas, teríamos muita coisa ainda a fazer, mas temos que ir embora. Acho que temos material suficiente para a nossa tese. Vimos como se pode viver aqui. Aliás, vive-se em qualquer parte do mundo. O ser humano como que se integra ao meio onde ele se acha, seja de que tipo for. Em nosso caso, parece que sempre vivemos aqui. É uma amálgama misteriosa. Fomos felizes. Em nenhum momento, reclamamos de nada. A senhora está de prova. Verdade que havia uma finalidade a cumprir, mas até isto, por vezes, esquecemo-nos da obrigação acadêmica.
- Vocês vão deixar saudade.
- Nós também teremos saudades. Toda a comunidade foi muito boa para nós. Aceitou-nos como se fôssemos um deles. Ninguém reparou a cor da pele ou o sotaque da voz. Preciso retribuir de alguma forma. A senhora nos disse que a Prefeitura vai aterrar isto aqui e vai doar o terreno a cada um dos moradores das palafitas. Tudo bem! E o dinheiro para construir cada casa, como será conseguido?
- Eles continuarão pescando seus papa-fumos e aos poucos irão levantando seus barracos.
- Barracos?
- Que mais poderão fazer?
- E se nós fizéssemos uma doação à Associação dos Moradores das Palafitas do Lobato, será que ajudaria a fazer uns barracos melhores?
- Doação! Como doação? Vocês são tão ricos por acaso? Ao que eu sei vocês são apenas estudantes, lutando por uma carreira. O pouco dinheirinho que possam ter, vocês precisarão para começar a vida profissional.
Paul olhou para Marie. Ela concordou com a cabeça. Estava na hora de dizer quem eram.
- Dona Bela, precisamos dizer a verdade para a senhora. Nossas famílias são muito ricas. Temos vários negócios na França, de indústrias até restaurantes. Temos uma rede de bistrôs espalhada por todo o País e concessão em alguns outros. Não somos apenas estudantes. Somos sociólogos. Estamos defendendo uma tese de mestrado PHD.
- Meu Deus e eu os tratando como filhos, meus filhos.
- Somos seus filhos mais do que nunca. A senhora foi uma mãe para nós. Sem a senhora a coisa teria sido muito difícil. Não importa quem somos. Somos Paul e Marie,aliás, Paulo e Maria, simplesmente, seus eternos amigos e filhos.
-E agora os perco. Ai eu vou envelhecer mesmo. É o que mais temo. Sou muita vaidosa.
- Além de vaidosa, a senhora é um dínamo de competência que está sendo mal aproveitado aqui nos Alagados. A senhora vai conosco para Paris. Precisamos de alguém com sua energia à frente de nossos bistrôs. Vamos introduzir as agulhas no cardápio.
-O que? Não, não posso. E o Manolo?
- Vai também, afinal de contas ele nos emprestou a sua Kombi e também temos supermercados e ele tem alguma experiência. Vai conosco!
O negócio prosperava dia a dia. Ainda pescavam papa-fumos, mas o ganho era infinitesimal em relação à venda das agulhas. Eram centenas de dúzias a cada semana. Moradores das palafitas vizinhas agora também pescavam à noite em dias de maré cheia nesse turno. Vendiam a Paul e à Dona Bela por R$0.30 a unidade. Era melhor negócio do que a venda do papa-fumo. Quem olhava do outro lado via as palafitas todas iluminadas. Não era uma luz fixa. Movia-se. Foram contratadas duas marisqueiras para tratar os peixes. Precisava de mais gente, mas não havia espaço. Paul alugou a palafita vizinha que se encontrava vazia. Fez uma pequena reforma e passou todo o serviço de tratamento para ela. Comprou mais um freezer. Desta feita, o transporte foi feito com mais eficácia.
Agora pensava em desenvolver a pesca de sururu. Viajou até Valença e Taperoá para ver como se fazia a pesca desse molusco. Foi na Kombi de Manolo. Trouxe duas cordas com milhares deles. Fora orientado em desmembrar essas cordas em dezenas de outras e distribuí-las pela área a ser desenvolvida. Seria em frente à sua palafita e a de Dona Bela, estendendo-se para fora. Em maré vazia, fincou para mais de 100 paus de mangues e em cada uma das cordas agrupou dezenas de sururus. Eles haveriam de se reproduzir normalmente e isto aconteceu em menos de um mês. As cordas estavam duplicadas e até triplicadas.
Junto com as agulhas, fornecia também agora caldo de sururu em recipientes plásticos de um litro cada um. Foi um sucesso. Era muito bem feito por Dona Bela. Tinha sururu mesmo. Não era igual a esses caldos onde só se encontrava um ou dois sururus, por acaso.
Paul e Marie estavam provando que era possível, sim, viver com dignidade e prosperidade nos Alagados. A maioria estava estacionada. Limitara-se à pesca e venda dos papa-fumos. Faltava visão a esse pessoal. O mar é muito rico, tem grande potencial, é só saber explorá-lo. Faltava orientação e exemplo. Veja o caso da pesca das agulhas. Ninguém as pescava e elas sempre estiveram ali. Hoje, a maioria pesca e estão ganhando dinheiro com isto. O mesmo vai acontecer com a fazenda de sururu. Já o vizinho fazia a mesma coisa na extensão de sua palafita. Em pouco tempo serão dezenas.
Estava cumprida uma parte de seu projeto de vida nos Alagados. Paul o imaginou em pensamento tão logo estudou a área. Facilitou o raciocínio, as pesquisas realizadas em París pela internet. Toda a área onde há ou havia manguezal se prestava para esse tipo de pescaria.
Este povo ainda não fez nada disto por falta de instrução. Faltava o básico. Ele estava ensinando a esse pessoal. Aliás, estava mostrando. Cada um que visse e copiasse.
Manguezal? Já era escasso no Lobato, mas ainda tinha alguns nichos. Resolveu colher as sementes das arvoras mais maduras e espalhá-las por entre as palafitas por toda a margem. Eram chamadas de propágulos. Florescia rápido. Em pouco mais de um mês o ambiente em torno já se modificara. Jogou sururu no meio da vegetação, esporadicamente.
- Você é um francês danadinho. Dona Bela estava sentada na varanda de Paul. Em pouco tempo você mudou o panorama disto aqui. Lembra-se do que lhe falei no primeiro dia em que lhe conheci?
- Não. Não me lembro.
-Disse-lhe que você haveria de vencer de outra forma que não somente pescando e vendendo papa-fumo como esta gente faz há anos. Lembro-me muito bem que lhe falei algo assim: “vai chegar um ponto, um determinado momento, que vocês deverão fazer crescer o negócio de pescar papa-fumo. Pescar, vender, comer, pescar, vender, comer... não faz o perfil de vocês nem de ninguém que não tenha crescido aqui”.
- É verdade. Dona Bela. A senhora além de bonita é vidente. Tudo aconteceu como a senhora previu. Impressionante!
- Mas, teríamos muita coisa ainda a fazer, mas temos que ir embora. Acho que temos material suficiente para a nossa tese. Vimos como se pode viver aqui. Aliás, vive-se em qualquer parte do mundo. O ser humano como que se integra ao meio onde ele se acha, seja de que tipo for. Em nosso caso, parece que sempre vivemos aqui. É uma amálgama misteriosa. Fomos felizes. Em nenhum momento, reclamamos de nada. A senhora está de prova. Verdade que havia uma finalidade a cumprir, mas até isto, por vezes, esquecemo-nos da obrigação acadêmica.
- Vocês vão deixar saudade.
- Nós também teremos saudades. Toda a comunidade foi muito boa para nós. Aceitou-nos como se fôssemos um deles. Ninguém reparou a cor da pele ou o sotaque da voz. Preciso retribuir de alguma forma. A senhora nos disse que a Prefeitura vai aterrar isto aqui e vai doar o terreno a cada um dos moradores das palafitas. Tudo bem! E o dinheiro para construir cada casa, como será conseguido?
- Eles continuarão pescando seus papa-fumos e aos poucos irão levantando seus barracos.
- Barracos?
- Que mais poderão fazer?
- E se nós fizéssemos uma doação à Associação dos Moradores das Palafitas do Lobato, será que ajudaria a fazer uns barracos melhores?
- Doação! Como doação? Vocês são tão ricos por acaso? Ao que eu sei vocês são apenas estudantes, lutando por uma carreira. O pouco dinheirinho que possam ter, vocês precisarão para começar a vida profissional.
Paul olhou para Marie. Ela concordou com a cabeça. Estava na hora de dizer quem eram.
- Dona Bela, precisamos dizer a verdade para a senhora. Nossas famílias são muito ricas. Temos vários negócios na França, de indústrias até restaurantes. Temos uma rede de bistrôs espalhada por todo o País e concessão em alguns outros. Não somos apenas estudantes. Somos sociólogos. Estamos defendendo uma tese de mestrado PHD.
- Meu Deus e eu os tratando como filhos, meus filhos.
- Somos seus filhos mais do que nunca. A senhora foi uma mãe para nós. Sem a senhora a coisa teria sido muito difícil. Não importa quem somos. Somos Paul e Marie,aliás, Paulo e Maria, simplesmente, seus eternos amigos e filhos.
-E agora os perco. Ai eu vou envelhecer mesmo. É o que mais temo. Sou muita vaidosa.
- Além de vaidosa, a senhora é um dínamo de competência que está sendo mal aproveitado aqui nos Alagados. A senhora vai conosco para Paris. Precisamos de alguém com sua energia à frente de nossos bistrôs. Vamos introduzir as agulhas no cardápio.
-O que? Não, não posso. E o Manolo?
- Vai também, afinal de contas ele nos emprestou a sua Kombi e também temos supermercados e ele tem alguma experiência. Vai conosco!
A TESE
Oitavo capítulo da história do casal de franceses que viveu um certo tempo nos Alagados de Itapagipe
Agora, já tinham duas atividades de pesca. A de papa-fumos que continuava e a de agulhas, quando a maré estava cheia à noite. Paul gostava mais da segunda. Marie também. Não tinha a inconveniência do sol; nem precisavam sair de casa; geralmente comiam algumas após a pescaria. Dona Bela havia deixado com eles a churrasqueira. Vez em quando Paul e Marie pensavam se não estariam se desviando do assunto da tese. Concluíram que não. O básico estava sendo seguido: como viver numa palafita da Bahia, praticamente sem dinheiro. Tinham levado apenas R$10 no bolso. Não tinham ainda decorrido 15 dias, e já estavam com quase R$500 reais em baixo da esteira. A venda diária de papa-fumo às mulheres da avenida lhes havia proporcionado chegar a este valor. Estava praticamente provado que era possível viver sim, com pouco dinheiro nos Alagados. Os moluscos davam todas as condições. Mas Paul tinha planos mais ambiciosos, agora que também tinha as agulhas. A geladeira de Dona Bela já estava toda tomada por elas. Já há dias só pescava o suficiente para comer. Era necessário comprar urgentemente uma geladeira. Melhor seria um freezer e ainda melhor, um freezer industrial ainda que pequeno. Foi o que fez e mais uma vez, com a ajuda de Dona Bela em seu próprio cartão em 10 prestações mensais de R$210.00. Manolo não gostou, mas quem mandava era a mulher. Teve que se conformar. No dia que o freezer chegou foi uma confusão. Os carregadores se negaram a levar a peça até a palafita de Paul. Aliás, tecnicamente era impossível. Aquelas passarelas não iam agüentar o peso da peça e de mais quatro homens. Também havia o problema do espaço lateral. Não tinha como passar. Providenciaram uma canoa. Iria pelo mar. Os carregadores nunca tinham passado por aquela situação. Ligaram para a loja. O gerente mandou que tomassem a assinatura de entrega e deixassem a peça na entrada das palafitas. Três conhecidos de Dona Bela, um deles dono da canoa providenciada aproximaram-se do local. A muito custo conseguiram equilibrar a caixa na proa da embarcação. Felizmente era uma canoa grande. Remaram até a palafita de Paul, a cerca de 100 metros do asfalto. E como subir com a mesma? Dona Bela deu a sugestão milagrosa. – Vamos inclinar três varetas do fundo do mar até a palafita. A idéia era um plano inclinado. Parte da lateral da palafita foi retirada para que a peça pudesse passar. A largura da porta não dava condições. Após devidamente amarrado, o freezer foi elevado até o interior do aposento. Paul, Marie, D. Bela e Manolo em cima puxando e os homens de baixo ajudando com os ombros no processo de subida. Foram gritos de vivas de todos os lados. Os moradores das outras casas vieram assistir a cena, principalmente crianças. Ouviu-se até o pipocar de fogos. Manolo mandou buscar umas garrafas de pinga e alguns refrigerantes. Também foram distribuídas balas e caramelos para as crianças. Uma festa como nunca se viu igual!
Paul já tinha sido informado por Dona Bela onde poderia vender as suas agulhas: aos barraqueiros de Periperi, Paripe e São Thomé, para tira-gosto. Também poderiam ser vendidas na Penha, no Poço e no Porto da Lenha, no outro lado da enseada. Isso poderia ser feito nos sábados pela manhã e em alguns casos, até nas sextas-feiras à noite. O Manolo emprestaria a Kombi do mercadinho. Paul pagaria a gasolina. O espanhol mais uma vez não gostou, mas quem mandava era a mulher. Foram compradas algumas caixas de isopor para o transporte. As agulhas, após tratadas eram embaladas as dúzias em sacos plásticos e se combinou que o pacote seria vendido a R$10.00 reais, menos de R$1.00 cada agulha. O barraqueiro já vendia o produto por R$12.00 e até R$15.00 meia dúzia, fritas com farofa e salada de tomate. Um ganho praticamente de mais de 100%, mas o fornecimento era precário. Somente tinha agulha quando algum pescador trazia de pescaria de rede. Era muito esporádico. Paul se comprometia a fornecer semanalmente, já tratadas. O serviço era feito por Marie e Dona Bela durante o dia. Claro que Dona Bela era sócia meio a meio na comercialização que estava se iniciando.
O princípio da negociação não foi fácil. Paul encontrou muita resistência por parte dos barraqueiros. Estavam achando caro.
- Mas são tratadas. Facilita o trabalho de vocês. Mesmo com este preço vocês têm um lucro superior a 100%. É muito bom.
- Prefiro comprar na mão do pescador. Eles vendem a R$5.00 ou a R$7.00 o quilo.
- Qual pescador? Poucas vezes eles trazem agulha. Por exemplo, hoje que é sábado, dia de muita gente na praia, você têm agulha?
- Não tenho, mas vendo outras coisas.
- Cerveja, por exemplo. Qual é o lucro da venda de uma cerveja? 50% talvez.
Esse tipo de diálogo de venda ele teve com a maioria dos barraqueiros. Havia uma mentalidade atrasada, retrógrada que aos poucos foi sendo vencida.
Agora, já tinham duas atividades de pesca. A de papa-fumos que continuava e a de agulhas, quando a maré estava cheia à noite. Paul gostava mais da segunda. Marie também. Não tinha a inconveniência do sol; nem precisavam sair de casa; geralmente comiam algumas após a pescaria. Dona Bela havia deixado com eles a churrasqueira. Vez em quando Paul e Marie pensavam se não estariam se desviando do assunto da tese. Concluíram que não. O básico estava sendo seguido: como viver numa palafita da Bahia, praticamente sem dinheiro. Tinham levado apenas R$10 no bolso. Não tinham ainda decorrido 15 dias, e já estavam com quase R$500 reais em baixo da esteira. A venda diária de papa-fumo às mulheres da avenida lhes havia proporcionado chegar a este valor. Estava praticamente provado que era possível viver sim, com pouco dinheiro nos Alagados. Os moluscos davam todas as condições. Mas Paul tinha planos mais ambiciosos, agora que também tinha as agulhas. A geladeira de Dona Bela já estava toda tomada por elas. Já há dias só pescava o suficiente para comer. Era necessário comprar urgentemente uma geladeira. Melhor seria um freezer e ainda melhor, um freezer industrial ainda que pequeno. Foi o que fez e mais uma vez, com a ajuda de Dona Bela em seu próprio cartão em 10 prestações mensais de R$210.00. Manolo não gostou, mas quem mandava era a mulher. Teve que se conformar. No dia que o freezer chegou foi uma confusão. Os carregadores se negaram a levar a peça até a palafita de Paul. Aliás, tecnicamente era impossível. Aquelas passarelas não iam agüentar o peso da peça e de mais quatro homens. Também havia o problema do espaço lateral. Não tinha como passar. Providenciaram uma canoa. Iria pelo mar. Os carregadores nunca tinham passado por aquela situação. Ligaram para a loja. O gerente mandou que tomassem a assinatura de entrega e deixassem a peça na entrada das palafitas. Três conhecidos de Dona Bela, um deles dono da canoa providenciada aproximaram-se do local. A muito custo conseguiram equilibrar a caixa na proa da embarcação. Felizmente era uma canoa grande. Remaram até a palafita de Paul, a cerca de 100 metros do asfalto. E como subir com a mesma? Dona Bela deu a sugestão milagrosa. – Vamos inclinar três varetas do fundo do mar até a palafita. A idéia era um plano inclinado. Parte da lateral da palafita foi retirada para que a peça pudesse passar. A largura da porta não dava condições. Após devidamente amarrado, o freezer foi elevado até o interior do aposento. Paul, Marie, D. Bela e Manolo em cima puxando e os homens de baixo ajudando com os ombros no processo de subida. Foram gritos de vivas de todos os lados. Os moradores das outras casas vieram assistir a cena, principalmente crianças. Ouviu-se até o pipocar de fogos. Manolo mandou buscar umas garrafas de pinga e alguns refrigerantes. Também foram distribuídas balas e caramelos para as crianças. Uma festa como nunca se viu igual!
Paul já tinha sido informado por Dona Bela onde poderia vender as suas agulhas: aos barraqueiros de Periperi, Paripe e São Thomé, para tira-gosto. Também poderiam ser vendidas na Penha, no Poço e no Porto da Lenha, no outro lado da enseada. Isso poderia ser feito nos sábados pela manhã e em alguns casos, até nas sextas-feiras à noite. O Manolo emprestaria a Kombi do mercadinho. Paul pagaria a gasolina. O espanhol mais uma vez não gostou, mas quem mandava era a mulher. Foram compradas algumas caixas de isopor para o transporte. As agulhas, após tratadas eram embaladas as dúzias em sacos plásticos e se combinou que o pacote seria vendido a R$10.00 reais, menos de R$1.00 cada agulha. O barraqueiro já vendia o produto por R$12.00 e até R$15.00 meia dúzia, fritas com farofa e salada de tomate. Um ganho praticamente de mais de 100%, mas o fornecimento era precário. Somente tinha agulha quando algum pescador trazia de pescaria de rede. Era muito esporádico. Paul se comprometia a fornecer semanalmente, já tratadas. O serviço era feito por Marie e Dona Bela durante o dia. Claro que Dona Bela era sócia meio a meio na comercialização que estava se iniciando.
O princípio da negociação não foi fácil. Paul encontrou muita resistência por parte dos barraqueiros. Estavam achando caro.
- Mas são tratadas. Facilita o trabalho de vocês. Mesmo com este preço vocês têm um lucro superior a 100%. É muito bom.
- Prefiro comprar na mão do pescador. Eles vendem a R$5.00 ou a R$7.00 o quilo.
- Qual pescador? Poucas vezes eles trazem agulha. Por exemplo, hoje que é sábado, dia de muita gente na praia, você têm agulha?
- Não tenho, mas vendo outras coisas.
- Cerveja, por exemplo. Qual é o lucro da venda de uma cerveja? 50% talvez.
Esse tipo de diálogo de venda ele teve com a maioria dos barraqueiros. Havia uma mentalidade atrasada, retrógrada que aos poucos foi sendo vencida.
A TESE
Sétimo capítulo da história do casal de franceses que viveu um certo tempo nos Alagados de Itapagipe
À tarde, ainda com a maré vazia nesse turno do dia, voltaram a pescar. Mas, antes de saírem chamaram Dona Bela pela janela e falaram das dificuldades de carregar uma lata de gás cheia. Era muito pesada. O que fazer?
- É simples. Aguarde-me um minuto. Voltou carregando uma pequena prancha de isopor. – Tome-a. Ao final da pescaria, quando a maré já estiver enchendo e alcançando a sua palafita ou próximo dela, vocês colocam a lata de gás com os mariscos em cima da prancha e navegam com ela até próximo à casa de vocês. Compreenderam, não?
Claro! A senhora é a nossa tábua de salvação.
- Prancha de salvação, retificou Bela.
Nesse tarde conseguiram encher completamente a lata de gás. Mais lata tivesse. Amanhã, trariam mais uma. Apuraram R$30.00. Com as sobras Marie fez uma frigideira de papa-fumos, receita de Dona Bela. Não ficou igual, mas ficou gostosa.
E assim os dias foram se passando. Quando não havia pescaria à noite, faziam amor como nunca antes tinham feito. Segundo os entendidos, era o efeito do papa-fumo. Afrodisíaco!
Pagaram a conta do mercadinho e adquiriam mais coisas, inclusive cervejas e vinhos brasileiros, mais baratos. Depois do jantar, sentavam-se na varanda e se deliciavam com as bebidas. Dona Bela esfriava-as na sua geladeira. Algumas vezes, a vizinha também participava das noitadas. Trazia sempre uns tiras-gosto. Ficava até tarde conversando. Manolo ficava em casa, dormindo. Pegava cedo no batente.
Certa noite, maré cheia, Paul notou uma movimentação na superfície da água em frente à sua palafita. Dona Bela estava de junto, ao lado de Marie.
- Que peixe é este Dona Bela?
- É agulha Paul. É uma delícia. Aqui dão muitas.
- E como se pesca? De anzol?
- Não! De gereré.
- O que é isto?
- É uma rede armada em torno de um arco de arame grosso e uma vara fixada em uma de suas partes. Tenho um lá em casa. Só não tenho um fifó.
Fifó?
É uma luminária sustentada por querosene. Também não tenho. Amanhã, comprarei tudo isto e lhe ensinarei a pescar essas agulhas.
No dia seguinte, por volta das 8 horas da noite apareceu Dona Bela. Vinha também Manolo. Traziam o tal do gereré, a tal da luminária, uma garrafa de querosene, uma churrasqueira portátil, meio saco de carvão e um isopor cheio de cervejas em lata.
- A senhora vai fazer um churrasco ou vai acampar?
- Não, vou fazer uma agulhada. Você vai ver.
- A senhora está me deixando cada vez mais curioso. Agulhada?
- Sim, agulhas assadas na churrasqueira. Primeiro, temos que pescá-las. Pegue um pedaço de pão. Esmigalhe-o e jogue as migalhas ai em frente. É para elas saberem que aqui tem comida. Agora vamos acender o fifó. Segure-o e mantenha o braço estirado em direção ao mar. Elas serão atraídas pela luminosidade. Vou descer a escada, até o penúltimo degrau. E quando elas estiverem bem próximas, eu as pegarei com o gereré num movimento rápido de abafamento.
Assim foi feito e em poucos minutos dezenas de agulhas aproximavam-se de Dona Bela, atraídas pela luz. Elas as pegava de três a quatro de cada vez. Depois se afastavam.
- Agora dirija a luz mais para a direita. As agulhas desse lado estão meio assustadas.
Novas agulhas se aproximaram e novos abafamentos de Dona Bela. Trocaram de lugar. Dona Bela ficou segurando o fifó e Paul desceu as escadas. Também conseguiu pegar diversas agulhas. Depois foi a vez de Marie. Também conseguiu. Seu Manolo já estava preparando a churrasqueira. Trataram as bichinhas com muito limão e as assaram. Paul jamais tinha comido coisa igual. Marie também se deliciava. Dona Bela ria de satisfeita. Estava na alma dela fazer os outros felizes.
À tarde, ainda com a maré vazia nesse turno do dia, voltaram a pescar. Mas, antes de saírem chamaram Dona Bela pela janela e falaram das dificuldades de carregar uma lata de gás cheia. Era muito pesada. O que fazer?
- É simples. Aguarde-me um minuto. Voltou carregando uma pequena prancha de isopor. – Tome-a. Ao final da pescaria, quando a maré já estiver enchendo e alcançando a sua palafita ou próximo dela, vocês colocam a lata de gás com os mariscos em cima da prancha e navegam com ela até próximo à casa de vocês. Compreenderam, não?
Claro! A senhora é a nossa tábua de salvação.
- Prancha de salvação, retificou Bela.
Nesse tarde conseguiram encher completamente a lata de gás. Mais lata tivesse. Amanhã, trariam mais uma. Apuraram R$30.00. Com as sobras Marie fez uma frigideira de papa-fumos, receita de Dona Bela. Não ficou igual, mas ficou gostosa.
E assim os dias foram se passando. Quando não havia pescaria à noite, faziam amor como nunca antes tinham feito. Segundo os entendidos, era o efeito do papa-fumo. Afrodisíaco!
Pagaram a conta do mercadinho e adquiriam mais coisas, inclusive cervejas e vinhos brasileiros, mais baratos. Depois do jantar, sentavam-se na varanda e se deliciavam com as bebidas. Dona Bela esfriava-as na sua geladeira. Algumas vezes, a vizinha também participava das noitadas. Trazia sempre uns tiras-gosto. Ficava até tarde conversando. Manolo ficava em casa, dormindo. Pegava cedo no batente.
Certa noite, maré cheia, Paul notou uma movimentação na superfície da água em frente à sua palafita. Dona Bela estava de junto, ao lado de Marie.
- Que peixe é este Dona Bela?
- É agulha Paul. É uma delícia. Aqui dão muitas.
- E como se pesca? De anzol?
- Não! De gereré.
- O que é isto?
- É uma rede armada em torno de um arco de arame grosso e uma vara fixada em uma de suas partes. Tenho um lá em casa. Só não tenho um fifó.
Fifó?
É uma luminária sustentada por querosene. Também não tenho. Amanhã, comprarei tudo isto e lhe ensinarei a pescar essas agulhas.
No dia seguinte, por volta das 8 horas da noite apareceu Dona Bela. Vinha também Manolo. Traziam o tal do gereré, a tal da luminária, uma garrafa de querosene, uma churrasqueira portátil, meio saco de carvão e um isopor cheio de cervejas em lata.
- A senhora vai fazer um churrasco ou vai acampar?
- Não, vou fazer uma agulhada. Você vai ver.
- A senhora está me deixando cada vez mais curioso. Agulhada?
- Sim, agulhas assadas na churrasqueira. Primeiro, temos que pescá-las. Pegue um pedaço de pão. Esmigalhe-o e jogue as migalhas ai em frente. É para elas saberem que aqui tem comida. Agora vamos acender o fifó. Segure-o e mantenha o braço estirado em direção ao mar. Elas serão atraídas pela luminosidade. Vou descer a escada, até o penúltimo degrau. E quando elas estiverem bem próximas, eu as pegarei com o gereré num movimento rápido de abafamento.
Assim foi feito e em poucos minutos dezenas de agulhas aproximavam-se de Dona Bela, atraídas pela luz. Elas as pegava de três a quatro de cada vez. Depois se afastavam.
- Agora dirija a luz mais para a direita. As agulhas desse lado estão meio assustadas.
Novas agulhas se aproximaram e novos abafamentos de Dona Bela. Trocaram de lugar. Dona Bela ficou segurando o fifó e Paul desceu as escadas. Também conseguiu pegar diversas agulhas. Depois foi a vez de Marie. Também conseguiu. Seu Manolo já estava preparando a churrasqueira. Trataram as bichinhas com muito limão e as assaram. Paul jamais tinha comido coisa igual. Marie também se deliciava. Dona Bela ria de satisfeita. Estava na alma dela fazer os outros felizes.
terça-feira, 26 de janeiro de 2010
A TESE
Sexto capítulo da historia do casal de franceses que viveram por certo tempo nos Alagados de Itapagipe
Colocaram roupa de banho e desceram. Parecia que iam à praia, tomar banho de mar. De sobressalente somente um saco plástico e as duas pazinhas de jardinagem.
-Ei. Vocês. Aonde vão assim? Era dona Bela de novo, debruçada em sua janela.
- Pescar, claro!
Desse jeito? Calção e biquíni? Levaram pelo menos filtro solar?
- Passamos um protetor, respondeu Marie.
- Voltem aqui. Tenho umas coisas para lhes dar. Não precisam subir. Jogo pela janela. Só um momento.
Em poucos minutos dona Bela voltou com dois grandes chapéus de palha e uma lata de gás vazia.
- Os chapéus é para a cabeça e a lata de gás é para botar os papa-fumos, ok? Vocês estão loucos em ir para esse sol de três horas da tarde desse jeito? Vocês iriam se fritar para não dizer outra coisa.
- A lata de gás não é necessária, estamos levando um saco plástico.
- Um saco plástico? De 1 quilo? Viche! Vocês estão pensando o que? Um quilo de papa-fumos com as conchas não deve dar nem 100 gramas do animalzinho depois de catado. Não dá nem para vocês comerem, quanto mais para vender. Outra coisa: subam e coloquem uma camisa nesses troncos branquelos.
Paul e Marie olhavam um para o outro, não acreditando no que estavam ouvindo. Aliás, não era bem isto. A forma como esta mulher os repreendia. Parecia que ela os conhecia há longos tempo ou que era, talvez, filhos dela. Que autoridade! Mas não estavam ofendidos. Estavam admirados. Riam e diziam. - Tudo bem, tudo bem, a senhora tem razão. Nós somos mesmo uns burros.
Devidamente preparados, partiram em direção ao aglomerado de marisqueiras que se agachavam há 200 metros de distância. Por alguns minutos olharam como elas faziam para pescar os mariscos. Umas se encontravam nos bancos de areia formados com a vazante da maré; outras na beirada do mar que havia recuado, mas dentro dele. Preferiram a segunda opção. Acharam mais confortável. Podiam até espichar o corpo e continuar catando. Algumas delas estavam nessa posição. Notaram que a maioria das mulheres estava de vestido de chita. Poucas usavam roupa de banho.
Paul e Marie se surpreenderam com a quantidade de papa-fumos existente. Introduziam suas pás na areia e vinham três a quatro de uma só vez. Já tinham enchido quase meia lata de gás. Pensaram no peso. Para o primeiro dia, acharam bastante. Amanhã teriam que pensar como resolver essa questão. Dona Bela deveria saber.
Quando estavam próximos da palafita, já divisaram Dona Bela na janela. Qual vai ser a bronca agora? Pensaram.
- Parabens! Sabia que vocês se dariam bem. Subam com a lata apenas com os papa-fumos, sem água. Fica menos pesado. Depois desçam e num saco plástico tragam um pouco de água salgada e a coloque na lata. Deixe-a na varanda a fim de pegar o sereno da noite. Depois de se aprontarem, venham tomar café conosco. Sei que vocês não tem nada para comer.
Paul e Marie já estavam acanhados. Comprovadamente, não haviam se preparado devidamente. Aquela mulher estava lhes dando um show.
Às oito da noite dirigiram-se para a palafita de Dona Bela. Manolo foi quem abriu a porta. – Bela já vem, está se preparando.
Quando ela apareceu, Paul quase não acreditou. Portava um longo estampado de seda que desenhava seu corpo. Ela realmente era uma mulata escultural. No pescoço um lindo colar de conchas de vários tamanhos e cores. Marie chegou a olhar para o marido com certo ciúme. Esta mulher não existe, pensou consigo. O que ela pretende? Estaria impressionada com Paul?
- Sei no que vocês estão pensando, eu vestida dessa maneira. Mas não é nada disto. Hoje estamos completando 10 anos de conhecimento. Eu e meu querido Manolo. Já que eu os conheci, vocês são meus convidados, meus únicos convidados. Minha filha prefere o pai dela e aqui não aparece. Ai surge vocês como num passe de mágica. Jovens. Bonitos. Instruídos. Para que melhor convidados do que estes. Peço-lhes que compartilhem com a minha alegria. Não sei se estou pedindo muito? Os olhos lacrimejando.
Marie caiu no choro baixo nos ombros de Paul. Ao seu ouvido, falou:-
E eu estava com ciúme dela. Pensei que ela estava dando em cima de você. Como sou burra, meu Deus. Ele – Prefiro você que é mais magra. Fica mais fácil. – Ela- Ah!
- Se a senhora tivesse me avisado, teríamos trazido um presente. Aliás, o presente está dado. Trouxemos dois perfumes franceses. Espero que aceite um deles. Gosta de “Paris”, é um deles. É seu. Depois eu lhe dou.
- Preparei um pequeno jantar e temos um bolo. Também temos champanhe. Não é francesa, mas é champanhe. Mais vale a intenção!
Foi servida uma frigideira de papa-fumos. Uma delícia. Com arroz. Ficaram até meia-noite conversando. Bela deu um show. Como ela tinha assunto. Manolo quase sempre calado. O que fazer ou falar diante de uma mulher daquela?
Entre as coisas que falaram, uma foi deveras importante. Referiram-se aos mantimentos da casa.
- Manolo tem um mercadinho aí na avenida. Fica há poucos metros daqui. Sei que vocês não tem dinheiro, por enquanto. É a mesma situação de muita gente por aqui de forma sistêmica. Para estes casos, Manolo tem umas cadernetas de compra. Vocês compram o que querem. Ele anota quantidade e preços e vocês pagam ao final do mês, de acordo com a venda dos mariscos. Era assim que seus antepassados faziam quando emigraram para a Bahia. Todos os armazéns e padarias eram de espanhóis.
- É. Vamos realmente precisar. E onde poderemos vender os papa-fumos?
- Amanhã. Coloquem em sacos de 1 quilo. Ai na frente, na avenida, têm umas mulheres que vendem aos passantes. Elas compram por R$5.00 o pacote e revendem por R$10.00. Não dá para quem quer. O povo sabe que são frescos. Agora, não cozinhem os mariscos esta noite para fazer os pacotes do catado. Deixe os bichinhos como estão. Enquanto eles estiverem fechados, é sinal que estão vivos. Amanhã, cedinho, aí vocês cozinham na própria lata e catam. Fazem os pacotes – aqui tem uns fechos – e procurem as mulheres. Procure Benedita. Diga-lhe que vocês são meus amigos. Mas tem outras, se ela não se encontrar.
Conseguiram fazer três pacotes e ainda sobrou alguma coisa para o almoço. Dona Benedita foi logo encontrada. Apuraram R$15.00. Em seguida, passaram no mercadinho de Manolo e compraram pão integral, café, açúcar, leite em pó, feijão, arroz, biscoitos, sal, óleo, vinagre, ovos, verduras e alguns temperos. Estrearam a caderneta. Deu tudo R$42.00. É como se fosse um cartão de crédito. Mas o Manolo não cobrava juros e ainda permitia o pagamento parcelado.
Colocaram roupa de banho e desceram. Parecia que iam à praia, tomar banho de mar. De sobressalente somente um saco plástico e as duas pazinhas de jardinagem.
-Ei. Vocês. Aonde vão assim? Era dona Bela de novo, debruçada em sua janela.
- Pescar, claro!
Desse jeito? Calção e biquíni? Levaram pelo menos filtro solar?
- Passamos um protetor, respondeu Marie.
- Voltem aqui. Tenho umas coisas para lhes dar. Não precisam subir. Jogo pela janela. Só um momento.
Em poucos minutos dona Bela voltou com dois grandes chapéus de palha e uma lata de gás vazia.
- Os chapéus é para a cabeça e a lata de gás é para botar os papa-fumos, ok? Vocês estão loucos em ir para esse sol de três horas da tarde desse jeito? Vocês iriam se fritar para não dizer outra coisa.
- A lata de gás não é necessária, estamos levando um saco plástico.
- Um saco plástico? De 1 quilo? Viche! Vocês estão pensando o que? Um quilo de papa-fumos com as conchas não deve dar nem 100 gramas do animalzinho depois de catado. Não dá nem para vocês comerem, quanto mais para vender. Outra coisa: subam e coloquem uma camisa nesses troncos branquelos.
Paul e Marie olhavam um para o outro, não acreditando no que estavam ouvindo. Aliás, não era bem isto. A forma como esta mulher os repreendia. Parecia que ela os conhecia há longos tempo ou que era, talvez, filhos dela. Que autoridade! Mas não estavam ofendidos. Estavam admirados. Riam e diziam. - Tudo bem, tudo bem, a senhora tem razão. Nós somos mesmo uns burros.
Devidamente preparados, partiram em direção ao aglomerado de marisqueiras que se agachavam há 200 metros de distância. Por alguns minutos olharam como elas faziam para pescar os mariscos. Umas se encontravam nos bancos de areia formados com a vazante da maré; outras na beirada do mar que havia recuado, mas dentro dele. Preferiram a segunda opção. Acharam mais confortável. Podiam até espichar o corpo e continuar catando. Algumas delas estavam nessa posição. Notaram que a maioria das mulheres estava de vestido de chita. Poucas usavam roupa de banho.
Paul e Marie se surpreenderam com a quantidade de papa-fumos existente. Introduziam suas pás na areia e vinham três a quatro de uma só vez. Já tinham enchido quase meia lata de gás. Pensaram no peso. Para o primeiro dia, acharam bastante. Amanhã teriam que pensar como resolver essa questão. Dona Bela deveria saber.
Quando estavam próximos da palafita, já divisaram Dona Bela na janela. Qual vai ser a bronca agora? Pensaram.
- Parabens! Sabia que vocês se dariam bem. Subam com a lata apenas com os papa-fumos, sem água. Fica menos pesado. Depois desçam e num saco plástico tragam um pouco de água salgada e a coloque na lata. Deixe-a na varanda a fim de pegar o sereno da noite. Depois de se aprontarem, venham tomar café conosco. Sei que vocês não tem nada para comer.
Paul e Marie já estavam acanhados. Comprovadamente, não haviam se preparado devidamente. Aquela mulher estava lhes dando um show.
Às oito da noite dirigiram-se para a palafita de Dona Bela. Manolo foi quem abriu a porta. – Bela já vem, está se preparando.
Quando ela apareceu, Paul quase não acreditou. Portava um longo estampado de seda que desenhava seu corpo. Ela realmente era uma mulata escultural. No pescoço um lindo colar de conchas de vários tamanhos e cores. Marie chegou a olhar para o marido com certo ciúme. Esta mulher não existe, pensou consigo. O que ela pretende? Estaria impressionada com Paul?
- Sei no que vocês estão pensando, eu vestida dessa maneira. Mas não é nada disto. Hoje estamos completando 10 anos de conhecimento. Eu e meu querido Manolo. Já que eu os conheci, vocês são meus convidados, meus únicos convidados. Minha filha prefere o pai dela e aqui não aparece. Ai surge vocês como num passe de mágica. Jovens. Bonitos. Instruídos. Para que melhor convidados do que estes. Peço-lhes que compartilhem com a minha alegria. Não sei se estou pedindo muito? Os olhos lacrimejando.
Marie caiu no choro baixo nos ombros de Paul. Ao seu ouvido, falou:-
E eu estava com ciúme dela. Pensei que ela estava dando em cima de você. Como sou burra, meu Deus. Ele – Prefiro você que é mais magra. Fica mais fácil. – Ela- Ah!
- Se a senhora tivesse me avisado, teríamos trazido um presente. Aliás, o presente está dado. Trouxemos dois perfumes franceses. Espero que aceite um deles. Gosta de “Paris”, é um deles. É seu. Depois eu lhe dou.
- Preparei um pequeno jantar e temos um bolo. Também temos champanhe. Não é francesa, mas é champanhe. Mais vale a intenção!
Foi servida uma frigideira de papa-fumos. Uma delícia. Com arroz. Ficaram até meia-noite conversando. Bela deu um show. Como ela tinha assunto. Manolo quase sempre calado. O que fazer ou falar diante de uma mulher daquela?
Entre as coisas que falaram, uma foi deveras importante. Referiram-se aos mantimentos da casa.
- Manolo tem um mercadinho aí na avenida. Fica há poucos metros daqui. Sei que vocês não tem dinheiro, por enquanto. É a mesma situação de muita gente por aqui de forma sistêmica. Para estes casos, Manolo tem umas cadernetas de compra. Vocês compram o que querem. Ele anota quantidade e preços e vocês pagam ao final do mês, de acordo com a venda dos mariscos. Era assim que seus antepassados faziam quando emigraram para a Bahia. Todos os armazéns e padarias eram de espanhóis.
- É. Vamos realmente precisar. E onde poderemos vender os papa-fumos?
- Amanhã. Coloquem em sacos de 1 quilo. Ai na frente, na avenida, têm umas mulheres que vendem aos passantes. Elas compram por R$5.00 o pacote e revendem por R$10.00. Não dá para quem quer. O povo sabe que são frescos. Agora, não cozinhem os mariscos esta noite para fazer os pacotes do catado. Deixe os bichinhos como estão. Enquanto eles estiverem fechados, é sinal que estão vivos. Amanhã, cedinho, aí vocês cozinham na própria lata e catam. Fazem os pacotes – aqui tem uns fechos – e procurem as mulheres. Procure Benedita. Diga-lhe que vocês são meus amigos. Mas tem outras, se ela não se encontrar.
Conseguiram fazer três pacotes e ainda sobrou alguma coisa para o almoço. Dona Benedita foi logo encontrada. Apuraram R$15.00. Em seguida, passaram no mercadinho de Manolo e compraram pão integral, café, açúcar, leite em pó, feijão, arroz, biscoitos, sal, óleo, vinagre, ovos, verduras e alguns temperos. Estrearam a caderneta. Deu tudo R$42.00. É como se fosse um cartão de crédito. Mas o Manolo não cobrava juros e ainda permitia o pagamento parcelado.
segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
A TESE
Quinto capítulo da história do casal de franceses que viveu um certo tempo nos Alagados de Itapagipe
Às 8 horas do dia seguinte, estavam todos prontos. Os dois franceses estavam de bermuda caqui, mochilas atrás das costas, boné, óculos escuros, Pareciam dois escoteiros ou dois caçadores prontos para um safari. Despediram-se de Ana e seguiram de carro com Mensinho para o Lobato, local onde fora alugada a palafita.
-Aqui está a chave do cadeado da palafita. Volto a avisar. Qualquer coisa que precisarem podem telefonar que virei trazer. Procurei colocar o básico na palafita, mas sempre falta alguma coisa.
- Estamos cientes, chefe. Qualquer coisa e ligaremos para o senhor. O manteremos informado. Estamos prontos para a operação “Palafita”. O mundo vai se assombrar!
- É impressionante como vocês estão encarando esse trabalho. Parece coisa de menino. Uma brincadeira. Cuidado com estas facilidades! O negócio é sério. É preciso muito cuidado.
- Realmente estamos brincando Mensinho para disfarçar o nosso nervosismo. Tenho ciência das dificuldades que haveremos de passar. Mas se ficarmos tensos desde já, poderá ser pior.
- Deixo-os aqui. É a última das palafitas desse corredor. A oitava, se não me engano. Não tem erro. É a única com combertura de palha de piaçaba. Cuidado com as passarelas. Vá memorizando os locais mais perigosos. Anote-os, se possível. Evite andar à noite por elas. Sejam felizes. Deus os acompanhe.
Os franceses saltaram do carro e por alguns minutos ficaram olhando aquele panorama. O corredor onde se achava a sua palafita era um entre mais de 50, todos em paralela uns aos outros, avançando sobre o mar. A maré estava cheia e as águas quase encobriam a primeira passarela. Respiraram fundo e começaram a caminhar. Marie à frente, tinha melhor vista e mulher é mais cautelosa, mais cuidadosa. Quase ao fim foram surpreendidos por uma onda que inundou uma das passagens. Deixou ela voltar e logo após chegaram ao destino. Realmente, era inconfundível a sua cobertura. As demais tinha até esteira como proteção contra chuva e o sol. Outras, simples pedaços de tábuas superpostos. Uma até de papelão.
Abriram a porta e pouco viram. Estava escura. Abriram as duas janela laterais. Havia mais uma do outro lado. No lado do mar havia uma porta. Abriu e notou a projeção do assoalho além da lateral de madeira. Aliás, toda a palafita era de madeira, inclusive o assoalho. Pararam do lado de fora. Parecia uma varanda. Fora uma boa idéia de Mensinho. Poderiam mais tarde colocar uma mesinha alí. Por enquanto poderiam usar a mesma mesa e cadeiras que viram no centro da palafita.
- Alô. Bom Dia! Vocês são os novos moradores?
Era uma senhora que se debruçava na janela da palafita vizinha, isto é, do corredor vizinho.
- Bom dia. Somos os novos moradores.
- Meu nome é Bela, Belarmina. O de vocês?
- Eu Paul. Minha mulher, Marie.
- Já percebi que não são brasileiros pelo sotaque de gringo e pelos nomes.
- Somos franceses.
- Posso chamá-los de Paulo e Maria?
- Claro! A senhora mora sozinha?
- Não, também tenho marido. Está trabalhando. Ele se chama Manoel, Manolo , é mais fácil. Vocês vão catar papafumo?
- Pretendemos.
- E vocês sabem catar. Tem material para isto? E o que vão fazer com eles? Tem onde cozinhar?
- Acho que temos alguma coisa que um amigo nosso comprou. Quanto ao resto, vamos aprender.
- Vamos fazer o seguinte. Estou convidando vocês para almoçarem conosco. Estou fazendo uma feijoada e haverão de gostar. Tenho fama de boa cozinheira. Já trabalhei até em restaurante lá pela cidade, no Rio Vermelho. Combinado. 12 horas.
Em seguida, entraram e analizaram com mais cuidado toda a palafita e o que havia dentro dentro dela. Fora feita uma divisão ao meio com passagem sem porta à direita. Na parte mais ao fundo, outra divisão onde se podia dizer que era o banheiro. Um buraco oval no assoalho e uma tampa móvel. Tinha um ponto de água com um pequeno chuveiro. Mais ao lado, uma pia e um fogão de tijolos, já devidamente montado. Já estava com carvão para ser aceso. A outra divisão era como se fosse uma sala. Ao centro uma mesa de plástico com quatro cadeiras. No alto um ponto de luz. Só uma lâmpada que se acendia apertando-a. Numa das laterais dessa sala, estava instalada uma rede, super-colorida. Dava alguma cor ao ambiente todo exposto de madeira quase bege. Deveria ser maçaranduba. Um divã e um banco. Em baixo da rede, um estrado com duas esteiras e dois travesseiros. Sobre o divã, as roupas de cama, as toalhas, cobertores, alguns panos para diversas funções.
Levaram o resto da manhã arrumando as coisas. Por volta da 11.45 voltaram a ouvir a voz de dona Bela. – Oi gente, podem vir. Meu marido já chegou. Na quarta palafita tem uma passagem que dá acesso a esse lado. Tenham cuidado!
- É um prazer recebê-los em minha casa. Não reparem. Não é como a de vocês que ficou uma beleza, mas eu gosto dela. Fizemos também algumas reformas ao longo do tempo que moramos aqui, cerca de 10 anos. Quando vier o aterro que está sendo anunciado, sentirei saudades. Este é Manolo, meu marido.
Devia ter seus 45 anos. Era muito branco. Tinha os olhos azuis. Meio careca. Era baixo e um pouco gordo. Parecia que dona Bela era maior do que ele. Já Dona Bela era mulata clara, braços bem torneados e um corpo surpreendente. Rodava ai pela casa dos quarenta.
- É um prazer conhecê-los. Já me tinham falado da hospitalidade dos baianos. Nem ao menos conheci a senhora e já nos convida para almoçar em sua casa. Extraordinário! Esta é Marie, minha mulher.
- Manolo é espanhol. É da Galicia. Eu sou baiana de Nazaré das Farinhas, uma cidadezinha do nosso recôncavo, perto da Ilha de Itaparica. Já conheceram a ilha?
- Ainda não, respondeu Marie. Chegamos ontem. Mas iremos conhecer um dia.
- Estou curiosa. Aliás, baiano é assim, bisbilhoteiro. Porque vocês vieram morar aqui no Lobato? Vocês parecem pessoas de posse. Não estou compreendendo.
- Somos estudantes universitários. Estamos reunindo material para um trabalho coletivo que será apresentado à faculdade no fim do ano. Tem outros colegas em outras partes do mundo fazendo a mesma coisa com outros assuntos. O nosso são as palafitas da Bahia. Como se vive nelas.
- E onde vocês ouviram falar nas palafitas daqui?
- Tivemos oportunidade de conhecer um baiano lá na faculdade. Ele é mais adiantado do que nós. Já se formou. É professor aqui na Bahia. Ontem passamos o dia com ele. Foi nos pegar no aeroporto. Foi ele quem alugou a palafita e tratou de reformá-la. Os primeiros informes vieram dele. Depois fizemos pesquisas na internet.
- Que idade vocês têm?
- Eu 25 e Marie 22.
- Tenho uma filha de outro casamento, mais ou menos na idade de vocês. Mora com o pai.
- Mas, vamos ao almoço. Vocês devem estar com fome. Já conhecem feijoada?
- Peguei uma vez uma receita na internet, mas não consegui encontrar todos os ingredientes em Paris. Deixei para lá. Sei que tem muitas carnes.
- É verdade, filha. Vocês vão ver. Se não gostarem não se obriguem a comer. Tem gente que só come o feijão. Deixam o melhor. Espero que vocês gostem de tudo.
Paul e Marie adoraram. Gostaram mais do que o churrasco. Repetiram o prato. Dona Bela mostrava-se satisfeita. Ia explicando cada tipo de carne. – Um dia desses vou fazer para vocês um cozido. Também leva muita carne, mas em vez de feijão leva verdura.
- E vocês não comem mariscos, papa-fumo, por exemplo?
Essa é outra história filho. Nos primeiros anos, quando chegamos aqui, só comíamos o bendito do papa-fumo. Não tinha outro jeito. Ainda comemos. Mas agora, variamos um pouco, senão enjoa. É muito gostoso de moqueca com muita pimenta. Vou ensinar a sua esposa como se faz. Já percebi que vocês são bons de garfo. Agora queremos conhecer a palafita de vocês, podemos?
- Claro. Podemos ir.
Dona Bela e Manolo adoraram. Acharam ótima a idéia da varanda. Dali se poderia pescar até peixes. Em dias quentes, poder-se-ia até dormir no lado de fora. Almoçar também. Já tinham percebido o reforço que a palafita havia tido com estacas muito mais grossas que as usadas normalmente. Além de grossas, em maior número.
- Vocês devem ter gasto uma nota nesta reforma, não?
- Perto de 10 mil reais, aí incluso o madeirame interno e o revestimento em argila.
- Notei uma coisa. Vocês não têm geladeira. Como irão conservar os papa-fumos que pescarem? Não há como consumi-los ou vendê-los no mesmo dia. Vocês vão vender, não vão?
- Principalmente isto. Em verdade, a nossa tese baseia-se justamente em como a maioria do povo daqui consegue viver só da comercialização do papa-fumo.
- É preciso muito trabalho. Ter disciplina. Tem dias que você troca o dia pela noite e vice-versa. Não é uma coisa muito comum. Não sei se vocês irão agüentar. Não estou desencorajando-os, mas é preciso abrir os olhos. Esse povo, nós, temos uma efetiva necessidade de sobrevivência. Ou pesca e come o papa-fumo ou então morre. Está na alma. Não tem outra saída.
- Nós podemos fazer a mesma coisa.
- É muito diferente! Vocês não tiveram esta sobrevivência. Um dia qualquer, se não der certo, vocês pegam as suas mochilas e vão embora. Têm para onde ir. Devem ter pais ricos. Moram em Paris. Têm outras perspectivas. Esse povo, não. Não tem alternativas. Dessa situação surge uma força interior imensa e eles vencem, ganham a vida.
- Nós também podemos vencer. Estamos determinados.
- Desculpe a franqueza, filho. Não estão! Vocês podem vencer de outra forma. Vai chegar um ponto, um determinado momento, que vocês deverão fazer crescer o negócio de pescar papa-fumo. Pescar, vender, comer, pescar, vender, comer... não faz o perfil de vocês nem de ninguém que não tenha crescido aqui. Sou filha de marisqueiros. Fui marisqueira. Sei o que é isto.
- Como assim?
- Vocês não vão se contentar apenas em pescar, vender, comer, pescar e assim por diante. Vocês irão descobrir outras formas de vencer. Vocês vão ver. Aliás, tomara que aconteça. Tenho toda fé em minha gloriosa Santa Bárbara. É necessário uma reviravolta e acabar com essa rotina miserável e pobre. A inteligência está com vocês. Nós não sabemos nada.
Paul e Marie estavam pasmos e olhavam admirados. Esta mulher é muito inteligente. Mais do que nós, contudo ela não pode ter tanta certeza assim. Nem ao menos tinham começado e estavam recebendo na cabeça essa balde de água fria.
- Desculpe filhos, não quero desanimá-los. Eu e o meu marido vamos lhes ajudar no que foi possível. Espero que vocês tenham todo o sucesso.
Olha! Ela como que advinha o que estamos pensando. Se eu pensar em alguma coisa no momento e ela de logo se adianta. Por exemplo, como começar?
- Vocês precisam se preparar para a primeira pescaria. A lua é de quarto crescente e a maré estará vazia e boa para a pescaria das quatro às oito, mais ou menos.
Viu? Na mosca. Ou seria normal que ela assim dissesse. Ela não pode ter esse poder.
- Estamos indo. A nossa geladeira está a disposição de vocês. Tem muito espaço. Já não pescamos mais. Só guardo comida. Amanhã lhes direi o que fazer com o resultado da “colheita”. Não quero encher a cabeça de vocês de muita coisa. Mas precisamos conversar. Deixe os papafumos na lata com alguma água salgada aí do lado de fora. É o melhor lugar. Eles são como gente. Gostam de ar livre. Pelo amor de Deus não os cozinhe hoje.
Às 8 horas do dia seguinte, estavam todos prontos. Os dois franceses estavam de bermuda caqui, mochilas atrás das costas, boné, óculos escuros, Pareciam dois escoteiros ou dois caçadores prontos para um safari. Despediram-se de Ana e seguiram de carro com Mensinho para o Lobato, local onde fora alugada a palafita.
-Aqui está a chave do cadeado da palafita. Volto a avisar. Qualquer coisa que precisarem podem telefonar que virei trazer. Procurei colocar o básico na palafita, mas sempre falta alguma coisa.
- Estamos cientes, chefe. Qualquer coisa e ligaremos para o senhor. O manteremos informado. Estamos prontos para a operação “Palafita”. O mundo vai se assombrar!
- É impressionante como vocês estão encarando esse trabalho. Parece coisa de menino. Uma brincadeira. Cuidado com estas facilidades! O negócio é sério. É preciso muito cuidado.
- Realmente estamos brincando Mensinho para disfarçar o nosso nervosismo. Tenho ciência das dificuldades que haveremos de passar. Mas se ficarmos tensos desde já, poderá ser pior.
- Deixo-os aqui. É a última das palafitas desse corredor. A oitava, se não me engano. Não tem erro. É a única com combertura de palha de piaçaba. Cuidado com as passarelas. Vá memorizando os locais mais perigosos. Anote-os, se possível. Evite andar à noite por elas. Sejam felizes. Deus os acompanhe.
Os franceses saltaram do carro e por alguns minutos ficaram olhando aquele panorama. O corredor onde se achava a sua palafita era um entre mais de 50, todos em paralela uns aos outros, avançando sobre o mar. A maré estava cheia e as águas quase encobriam a primeira passarela. Respiraram fundo e começaram a caminhar. Marie à frente, tinha melhor vista e mulher é mais cautelosa, mais cuidadosa. Quase ao fim foram surpreendidos por uma onda que inundou uma das passagens. Deixou ela voltar e logo após chegaram ao destino. Realmente, era inconfundível a sua cobertura. As demais tinha até esteira como proteção contra chuva e o sol. Outras, simples pedaços de tábuas superpostos. Uma até de papelão.
Abriram a porta e pouco viram. Estava escura. Abriram as duas janela laterais. Havia mais uma do outro lado. No lado do mar havia uma porta. Abriu e notou a projeção do assoalho além da lateral de madeira. Aliás, toda a palafita era de madeira, inclusive o assoalho. Pararam do lado de fora. Parecia uma varanda. Fora uma boa idéia de Mensinho. Poderiam mais tarde colocar uma mesinha alí. Por enquanto poderiam usar a mesma mesa e cadeiras que viram no centro da palafita.
- Alô. Bom Dia! Vocês são os novos moradores?
Era uma senhora que se debruçava na janela da palafita vizinha, isto é, do corredor vizinho.
- Bom dia. Somos os novos moradores.
- Meu nome é Bela, Belarmina. O de vocês?
- Eu Paul. Minha mulher, Marie.
- Já percebi que não são brasileiros pelo sotaque de gringo e pelos nomes.
- Somos franceses.
- Posso chamá-los de Paulo e Maria?
- Claro! A senhora mora sozinha?
- Não, também tenho marido. Está trabalhando. Ele se chama Manoel, Manolo , é mais fácil. Vocês vão catar papafumo?
- Pretendemos.
- E vocês sabem catar. Tem material para isto? E o que vão fazer com eles? Tem onde cozinhar?
- Acho que temos alguma coisa que um amigo nosso comprou. Quanto ao resto, vamos aprender.
- Vamos fazer o seguinte. Estou convidando vocês para almoçarem conosco. Estou fazendo uma feijoada e haverão de gostar. Tenho fama de boa cozinheira. Já trabalhei até em restaurante lá pela cidade, no Rio Vermelho. Combinado. 12 horas.
Em seguida, entraram e analizaram com mais cuidado toda a palafita e o que havia dentro dentro dela. Fora feita uma divisão ao meio com passagem sem porta à direita. Na parte mais ao fundo, outra divisão onde se podia dizer que era o banheiro. Um buraco oval no assoalho e uma tampa móvel. Tinha um ponto de água com um pequeno chuveiro. Mais ao lado, uma pia e um fogão de tijolos, já devidamente montado. Já estava com carvão para ser aceso. A outra divisão era como se fosse uma sala. Ao centro uma mesa de plástico com quatro cadeiras. No alto um ponto de luz. Só uma lâmpada que se acendia apertando-a. Numa das laterais dessa sala, estava instalada uma rede, super-colorida. Dava alguma cor ao ambiente todo exposto de madeira quase bege. Deveria ser maçaranduba. Um divã e um banco. Em baixo da rede, um estrado com duas esteiras e dois travesseiros. Sobre o divã, as roupas de cama, as toalhas, cobertores, alguns panos para diversas funções.
Levaram o resto da manhã arrumando as coisas. Por volta da 11.45 voltaram a ouvir a voz de dona Bela. – Oi gente, podem vir. Meu marido já chegou. Na quarta palafita tem uma passagem que dá acesso a esse lado. Tenham cuidado!
- É um prazer recebê-los em minha casa. Não reparem. Não é como a de vocês que ficou uma beleza, mas eu gosto dela. Fizemos também algumas reformas ao longo do tempo que moramos aqui, cerca de 10 anos. Quando vier o aterro que está sendo anunciado, sentirei saudades. Este é Manolo, meu marido.
Devia ter seus 45 anos. Era muito branco. Tinha os olhos azuis. Meio careca. Era baixo e um pouco gordo. Parecia que dona Bela era maior do que ele. Já Dona Bela era mulata clara, braços bem torneados e um corpo surpreendente. Rodava ai pela casa dos quarenta.
- É um prazer conhecê-los. Já me tinham falado da hospitalidade dos baianos. Nem ao menos conheci a senhora e já nos convida para almoçar em sua casa. Extraordinário! Esta é Marie, minha mulher.
- Manolo é espanhol. É da Galicia. Eu sou baiana de Nazaré das Farinhas, uma cidadezinha do nosso recôncavo, perto da Ilha de Itaparica. Já conheceram a ilha?
- Ainda não, respondeu Marie. Chegamos ontem. Mas iremos conhecer um dia.
- Estou curiosa. Aliás, baiano é assim, bisbilhoteiro. Porque vocês vieram morar aqui no Lobato? Vocês parecem pessoas de posse. Não estou compreendendo.
- Somos estudantes universitários. Estamos reunindo material para um trabalho coletivo que será apresentado à faculdade no fim do ano. Tem outros colegas em outras partes do mundo fazendo a mesma coisa com outros assuntos. O nosso são as palafitas da Bahia. Como se vive nelas.
- E onde vocês ouviram falar nas palafitas daqui?
- Tivemos oportunidade de conhecer um baiano lá na faculdade. Ele é mais adiantado do que nós. Já se formou. É professor aqui na Bahia. Ontem passamos o dia com ele. Foi nos pegar no aeroporto. Foi ele quem alugou a palafita e tratou de reformá-la. Os primeiros informes vieram dele. Depois fizemos pesquisas na internet.
- Que idade vocês têm?
- Eu 25 e Marie 22.
- Tenho uma filha de outro casamento, mais ou menos na idade de vocês. Mora com o pai.
- Mas, vamos ao almoço. Vocês devem estar com fome. Já conhecem feijoada?
- Peguei uma vez uma receita na internet, mas não consegui encontrar todos os ingredientes em Paris. Deixei para lá. Sei que tem muitas carnes.
- É verdade, filha. Vocês vão ver. Se não gostarem não se obriguem a comer. Tem gente que só come o feijão. Deixam o melhor. Espero que vocês gostem de tudo.
Paul e Marie adoraram. Gostaram mais do que o churrasco. Repetiram o prato. Dona Bela mostrava-se satisfeita. Ia explicando cada tipo de carne. – Um dia desses vou fazer para vocês um cozido. Também leva muita carne, mas em vez de feijão leva verdura.
- E vocês não comem mariscos, papa-fumo, por exemplo?
Essa é outra história filho. Nos primeiros anos, quando chegamos aqui, só comíamos o bendito do papa-fumo. Não tinha outro jeito. Ainda comemos. Mas agora, variamos um pouco, senão enjoa. É muito gostoso de moqueca com muita pimenta. Vou ensinar a sua esposa como se faz. Já percebi que vocês são bons de garfo. Agora queremos conhecer a palafita de vocês, podemos?
- Claro. Podemos ir.
Dona Bela e Manolo adoraram. Acharam ótima a idéia da varanda. Dali se poderia pescar até peixes. Em dias quentes, poder-se-ia até dormir no lado de fora. Almoçar também. Já tinham percebido o reforço que a palafita havia tido com estacas muito mais grossas que as usadas normalmente. Além de grossas, em maior número.
- Vocês devem ter gasto uma nota nesta reforma, não?
- Perto de 10 mil reais, aí incluso o madeirame interno e o revestimento em argila.
- Notei uma coisa. Vocês não têm geladeira. Como irão conservar os papa-fumos que pescarem? Não há como consumi-los ou vendê-los no mesmo dia. Vocês vão vender, não vão?
- Principalmente isto. Em verdade, a nossa tese baseia-se justamente em como a maioria do povo daqui consegue viver só da comercialização do papa-fumo.
- É preciso muito trabalho. Ter disciplina. Tem dias que você troca o dia pela noite e vice-versa. Não é uma coisa muito comum. Não sei se vocês irão agüentar. Não estou desencorajando-os, mas é preciso abrir os olhos. Esse povo, nós, temos uma efetiva necessidade de sobrevivência. Ou pesca e come o papa-fumo ou então morre. Está na alma. Não tem outra saída.
- Nós podemos fazer a mesma coisa.
- É muito diferente! Vocês não tiveram esta sobrevivência. Um dia qualquer, se não der certo, vocês pegam as suas mochilas e vão embora. Têm para onde ir. Devem ter pais ricos. Moram em Paris. Têm outras perspectivas. Esse povo, não. Não tem alternativas. Dessa situação surge uma força interior imensa e eles vencem, ganham a vida.
- Nós também podemos vencer. Estamos determinados.
- Desculpe a franqueza, filho. Não estão! Vocês podem vencer de outra forma. Vai chegar um ponto, um determinado momento, que vocês deverão fazer crescer o negócio de pescar papa-fumo. Pescar, vender, comer, pescar, vender, comer... não faz o perfil de vocês nem de ninguém que não tenha crescido aqui. Sou filha de marisqueiros. Fui marisqueira. Sei o que é isto.
- Como assim?
- Vocês não vão se contentar apenas em pescar, vender, comer, pescar e assim por diante. Vocês irão descobrir outras formas de vencer. Vocês vão ver. Aliás, tomara que aconteça. Tenho toda fé em minha gloriosa Santa Bárbara. É necessário uma reviravolta e acabar com essa rotina miserável e pobre. A inteligência está com vocês. Nós não sabemos nada.
Paul e Marie estavam pasmos e olhavam admirados. Esta mulher é muito inteligente. Mais do que nós, contudo ela não pode ter tanta certeza assim. Nem ao menos tinham começado e estavam recebendo na cabeça essa balde de água fria.
- Desculpe filhos, não quero desanimá-los. Eu e o meu marido vamos lhes ajudar no que foi possível. Espero que vocês tenham todo o sucesso.
Olha! Ela como que advinha o que estamos pensando. Se eu pensar em alguma coisa no momento e ela de logo se adianta. Por exemplo, como começar?
- Vocês precisam se preparar para a primeira pescaria. A lua é de quarto crescente e a maré estará vazia e boa para a pescaria das quatro às oito, mais ou menos.
Viu? Na mosca. Ou seria normal que ela assim dissesse. Ela não pode ter esse poder.
- Estamos indo. A nossa geladeira está a disposição de vocês. Tem muito espaço. Já não pescamos mais. Só guardo comida. Amanhã lhes direi o que fazer com o resultado da “colheita”. Não quero encher a cabeça de vocês de muita coisa. Mas precisamos conversar. Deixe os papafumos na lata com alguma água salgada aí do lado de fora. É o melhor lugar. Eles são como gente. Gostam de ar livre. Pelo amor de Deus não os cozinhe hoje.
A TESE
Quarto capítulo da história do casal de franceses que vivou um certo tempo nos Alagados de Itapagipe.
O vôo atrazou e só chegou a Salvador perto das 11 hóras. Mensinho e Ana sua esposa, foram recebê-los. A bagagem do casal era relativamente pequena. Constava de uma mala grande e duas pequenas e ainda duas mochilas. Após os abraços de todos, Mensinho sugeriu que almoçassem numa churracaria. Eles estavam loucos para conhecer esse tipo de restaurante. Em Paris era muito difícil, parece que nem existia, ao que se sabia.
Ficaram admirados de tanta carne. De boi, de porco, de frango, de bode, de carneiro, de javali e até peixe – salmon – Era impressionante a variedade de saladas. Tinha comidas japonesas e italianas. Jamais comeram tanto. Queriam experimentar de tudo.
- E eu que pensei que Paris fosse a capital da gastronomia, enganei-me redondamente.
- É diferente Paul. A comida de vocês é excelente e sofisticada. Aqui se come muita carne. O Brasil é o maior produdor de carnes do mundo. Se este almoço fosse em Paris, seria caríssimo. A carne lá é muito cara. Você sabe disso!
- É verdade! Mas vocês comem assim todos os dias, perguntou Marie?
- No dia a dia, a nossa comida é muito simples. É arroz com feijão, um pedaço de carne, uma salada, normal, macarrão, peixes, por aí, respondeu Ana. Vez em quando a gente faz uma farra como esta.
- É! E você não é gorda. Chega a ser magra, mais do que eu.
- Eu ando muito. Faço um cooper todos os dias no calçadão da Barra, onde moramos. Também faço natação na Praia do Porto. Na clínica eu não paro. Ana era médica.
- E você Mensinho faz também exercícios?
- Também. Geralmente acompanho Ana.
Em torno das 14 hóras pagaram a conta e se dirigiram ao apartamento de Mensinho e Ana. Era uma cobertura. Três quartos. Um para eles; outro reservado para hóspedes e o terceiro era uma espécie de escritório e biblioteca. Tinha livros por todos os lugares. A vista era maravilhosa. Via-se o mar de um lado e do outro, grande parte da cidade de Salvador.
- Vocês poderão dormir aqui hôje e amanhã os levarei para a palafita. É aconselhável chegarmos de dia. Tem o problema do acesso. A palafita fica na extremidade de um avanço. São quase 100 metros de pontes de madeiras. A noite, torna-se perigoso, até que se tenha pleno conhecimento de suas armadilhas.
- Armadilhas, exclamou Paul?
- Oh. Desculpe. Quiz me referir a uma tábua meia solta. Uma saliência qualquer. Poderá ocasionar uma queda e a pessoa cair na lama ou na água, conforme esteja a maré vazia ou cheia.
- Deve ser mais perigoso com a maré cheia, interveio Marie.
- Ao contrário. Vocês sabem nadar, segundo eu sei. É só nadar para a margem. Por outro lado, quando a maré está totalmente vazia, nunca se sabe o que está lá embaixo. As vezes o resto de uma árvore de mangue como se fosse uma lança ou um caco de vidro. As vezes uma cadeira de plástico quebrada. O pessoal joga tudo no mar e a maré na alta, movimenta muita coisa que estaciona entre as varas de apoio das palafitas. É sempre aconcelhável evitar caminhar por essas passarelas de noite. Tudo que se queira fazer, tem que ser de dia, a não ser pescar, conforme a maré esteja vazia na parte da noite, mas neste caso, vocês terão acesso direto à lama pela sua própria palafita. Ela é extremada. Tem vista permanente do próprio mar. É uma vantagem. Mas fiquem à vontade. São 4 hóras. Às cinco se vocês quizerem poderemos dar uma caminhada na Barra e até nadar. Assim, vocês já ficam conhecendo um pouco da Bahia.
-Ok! Estaremos prontos.
Desceram a Ladeira da Barra onde ficava o edifício onde moravam Mensinho e Ana e logo alcançaram o Porto da Barra.
- Porquê Porto da Barra?
- Paul. Aqui aportavam as naus portuguesas ao tempo do descobrimento do Brasil. Era o “porto”. Como você vê é uma enseada com o mar tranquilo e boa profundidade já há dois ou três metros da praia. Também aqui estiveram os franceses, os holandeses e até os ingleses. É uma das melhores praias da Bahia. Foi classificada como a terceira melhor praia do mundo por um jornal inglês. Em cada uma de suas extremidades existe um forte. São Diego e Santa Maria. Faziam parte do sistema de defesa da cidade de Salvador contra os invasores. Mais adiante tem mais outro. O de Santo Antônio, mais conhecido como Farol da Barra, em razão da existência de um farol no seu interior.
- E a água é fria?
- Não Marie. Em torno de 25º. Aqui fora estamos com 30º. É uma dádiva.
- Depois, quero tomar um banho de mar.
Caminharam até o Farol e depois foram tomar banho de mar. Paul e Marie eram exímios nadadores. Mensinho e Ana também. Os dois casais ficaram no mar até o sol se por. Os franceses ficaram maravilhados com a beleza do entardecer.
À noite, conversaram na cobertura do apartamento, à beira da piscina. Beberam, comeram. Ana preparou uma infinidade de tira-gostos e encomendou uma pizza. Dançaram e se divertiram na piscina.
- O que você pretende com isto, meu amigo Mensinho?
- Como assim?
- Você poderia ter nos levado diretamente do aeroporto para a palafita e no entanto nos proporcionou aquele almoço. Trouxe-nos para seu belo apartamento. Fizemos cooper e tomamos banho de mar. Agora de noite nos proporciona esses momentos agradabilíssimos. Sei que não é exibição. Eu lhe conheço muito bem. Suas intenções são bem outras.
- Paul, vou ser sincero. Estava querendo lhe mostrar o lado bom da vida e por fim lhe pedir que desista de sua idéia de viver um determinado tempo numa palafita nos Alagados. A Bahia é muito froclórica. Tem outros ângulos para se fazer uma tese sobre ela. Suas festas, o modo de falar de seu povo, as igrejas, os fortes, tanta coisa, e você foi logo escolher uma de suas mazelas mais vergonhosas.
- A culpa é sua. Foi você que me contou sobre os Alagados, quando estudávamos em Paris. Até então nem sabia que existiam. Impressionou-me como as famílias conseguem viver somente catando mariscos. Quero ver isto in loco. Se ao meio do percurso não suportarmos, ligarei para você e voltaremos para a França.
- Está bem. Aqui tem meus telefones, fixos e celulares. Também consegui uma tábua de maré afim de que você saiba das horas de maré vazia e cheia. Papa-fumo só se pesca em maré vazia. Comprei o básico necessário para começar a se viver naquele lugar. Se precisarem de alguma coisa a mais que eu não tenha me lembrado, é so telefonar. Levarei imediatamente.
O vôo atrazou e só chegou a Salvador perto das 11 hóras. Mensinho e Ana sua esposa, foram recebê-los. A bagagem do casal era relativamente pequena. Constava de uma mala grande e duas pequenas e ainda duas mochilas. Após os abraços de todos, Mensinho sugeriu que almoçassem numa churracaria. Eles estavam loucos para conhecer esse tipo de restaurante. Em Paris era muito difícil, parece que nem existia, ao que se sabia.
Ficaram admirados de tanta carne. De boi, de porco, de frango, de bode, de carneiro, de javali e até peixe – salmon – Era impressionante a variedade de saladas. Tinha comidas japonesas e italianas. Jamais comeram tanto. Queriam experimentar de tudo.
- E eu que pensei que Paris fosse a capital da gastronomia, enganei-me redondamente.
- É diferente Paul. A comida de vocês é excelente e sofisticada. Aqui se come muita carne. O Brasil é o maior produdor de carnes do mundo. Se este almoço fosse em Paris, seria caríssimo. A carne lá é muito cara. Você sabe disso!
- É verdade! Mas vocês comem assim todos os dias, perguntou Marie?
- No dia a dia, a nossa comida é muito simples. É arroz com feijão, um pedaço de carne, uma salada, normal, macarrão, peixes, por aí, respondeu Ana. Vez em quando a gente faz uma farra como esta.
- É! E você não é gorda. Chega a ser magra, mais do que eu.
- Eu ando muito. Faço um cooper todos os dias no calçadão da Barra, onde moramos. Também faço natação na Praia do Porto. Na clínica eu não paro. Ana era médica.
- E você Mensinho faz também exercícios?
- Também. Geralmente acompanho Ana.
Em torno das 14 hóras pagaram a conta e se dirigiram ao apartamento de Mensinho e Ana. Era uma cobertura. Três quartos. Um para eles; outro reservado para hóspedes e o terceiro era uma espécie de escritório e biblioteca. Tinha livros por todos os lugares. A vista era maravilhosa. Via-se o mar de um lado e do outro, grande parte da cidade de Salvador.
- Vocês poderão dormir aqui hôje e amanhã os levarei para a palafita. É aconselhável chegarmos de dia. Tem o problema do acesso. A palafita fica na extremidade de um avanço. São quase 100 metros de pontes de madeiras. A noite, torna-se perigoso, até que se tenha pleno conhecimento de suas armadilhas.
- Armadilhas, exclamou Paul?
- Oh. Desculpe. Quiz me referir a uma tábua meia solta. Uma saliência qualquer. Poderá ocasionar uma queda e a pessoa cair na lama ou na água, conforme esteja a maré vazia ou cheia.
- Deve ser mais perigoso com a maré cheia, interveio Marie.
- Ao contrário. Vocês sabem nadar, segundo eu sei. É só nadar para a margem. Por outro lado, quando a maré está totalmente vazia, nunca se sabe o que está lá embaixo. As vezes o resto de uma árvore de mangue como se fosse uma lança ou um caco de vidro. As vezes uma cadeira de plástico quebrada. O pessoal joga tudo no mar e a maré na alta, movimenta muita coisa que estaciona entre as varas de apoio das palafitas. É sempre aconcelhável evitar caminhar por essas passarelas de noite. Tudo que se queira fazer, tem que ser de dia, a não ser pescar, conforme a maré esteja vazia na parte da noite, mas neste caso, vocês terão acesso direto à lama pela sua própria palafita. Ela é extremada. Tem vista permanente do próprio mar. É uma vantagem. Mas fiquem à vontade. São 4 hóras. Às cinco se vocês quizerem poderemos dar uma caminhada na Barra e até nadar. Assim, vocês já ficam conhecendo um pouco da Bahia.
-Ok! Estaremos prontos.
Desceram a Ladeira da Barra onde ficava o edifício onde moravam Mensinho e Ana e logo alcançaram o Porto da Barra.
- Porquê Porto da Barra?
- Paul. Aqui aportavam as naus portuguesas ao tempo do descobrimento do Brasil. Era o “porto”. Como você vê é uma enseada com o mar tranquilo e boa profundidade já há dois ou três metros da praia. Também aqui estiveram os franceses, os holandeses e até os ingleses. É uma das melhores praias da Bahia. Foi classificada como a terceira melhor praia do mundo por um jornal inglês. Em cada uma de suas extremidades existe um forte. São Diego e Santa Maria. Faziam parte do sistema de defesa da cidade de Salvador contra os invasores. Mais adiante tem mais outro. O de Santo Antônio, mais conhecido como Farol da Barra, em razão da existência de um farol no seu interior.
- E a água é fria?
- Não Marie. Em torno de 25º. Aqui fora estamos com 30º. É uma dádiva.
- Depois, quero tomar um banho de mar.
Caminharam até o Farol e depois foram tomar banho de mar. Paul e Marie eram exímios nadadores. Mensinho e Ana também. Os dois casais ficaram no mar até o sol se por. Os franceses ficaram maravilhados com a beleza do entardecer.
À noite, conversaram na cobertura do apartamento, à beira da piscina. Beberam, comeram. Ana preparou uma infinidade de tira-gostos e encomendou uma pizza. Dançaram e se divertiram na piscina.
- O que você pretende com isto, meu amigo Mensinho?
- Como assim?
- Você poderia ter nos levado diretamente do aeroporto para a palafita e no entanto nos proporcionou aquele almoço. Trouxe-nos para seu belo apartamento. Fizemos cooper e tomamos banho de mar. Agora de noite nos proporciona esses momentos agradabilíssimos. Sei que não é exibição. Eu lhe conheço muito bem. Suas intenções são bem outras.
- Paul, vou ser sincero. Estava querendo lhe mostrar o lado bom da vida e por fim lhe pedir que desista de sua idéia de viver um determinado tempo numa palafita nos Alagados. A Bahia é muito froclórica. Tem outros ângulos para se fazer uma tese sobre ela. Suas festas, o modo de falar de seu povo, as igrejas, os fortes, tanta coisa, e você foi logo escolher uma de suas mazelas mais vergonhosas.
- A culpa é sua. Foi você que me contou sobre os Alagados, quando estudávamos em Paris. Até então nem sabia que existiam. Impressionou-me como as famílias conseguem viver somente catando mariscos. Quero ver isto in loco. Se ao meio do percurso não suportarmos, ligarei para você e voltaremos para a França.
- Está bem. Aqui tem meus telefones, fixos e celulares. Também consegui uma tábua de maré afim de que você saiba das horas de maré vazia e cheia. Papa-fumo só se pesca em maré vazia. Comprei o básico necessário para começar a se viver naquele lugar. Se precisarem de alguma coisa a mais que eu não tenha me lembrado, é so telefonar. Levarei imediatamente.
A TESE
Terceiro capítulo da historia do casal de franceses que viveu um certo tempo nos Alagados de Itapagipe
Sobre as necessidades fisiológicas – Mensinho e Paul conversaram longamente pela internet. Algo deveras importante! O baiano queria instalar um vaso sanitário dígno, principalmente por causa de Marie. Paul fora totalmente contra. Queria tudo o mais natural possível. Se era assim que os palafiteiros faziam as suas necessidades, eles também as fariam da mesma maneira.
- Mas Paul. A tese de vocês não será prejudicada porque há um vaso sanitário na palafita. Vocês querem pesquisar como é possível uma família viver sem dinheiro no bolso. É isto que estou sabendo.
- Justamente isto! Mas as condições habitacionais têm que ser as mesmas. Um vaso sanitário numa situação desta é fundamental para tirar a realidade das coisas. Tem que ser real. Já não gostei quando você falou que a palafita foi reformada. Tem dois ambientes e até uma espécie de varanda. As outras tem isto?
- A reforma foi necessária por questões de segurança. Não quero ser acusado de crime doloso ou culposo. Bem capaz de me enquadrarem no primeiro caso – com intenções de matar .
- Intensões de matar? Você as tem ou já têve alguma vez quando estava aqui em París? Eu nunca pensei nisto. Estou surpreso. Jamais poderia imaginar tal coisa.
- Você está de brincadeira. Vamos falar sério. A palafita estava muito ruim. Poderia cair com o aumento de peso de vocês dois, ou uma onda mais forte, ou uma rajada de vento. Aqui tem uns canais de vento perigosos. Também não seria justo um total desconforto. Vocês não teriam cabeça para escrever nada. É preciso pensar desse jeito, Paul. Não queira ser tanto real. A vida não é assim! Não se sai de Paris para os Alagados da forma como você pensa.
- E o pessoal que está lá, têm este conforto? Segundo você me conta a miséria é grande.
- É diferente Paul. Esse pessoal nasceu e cresceu naquilo a vida inteira. Eles devem ter o coração como se fosse uma ostra bivalve. A concha protege e fortalece o órgão contra as intempéries da vida. É como eles não sentissem nada. No seu caso e no de Marie, os corações de vocês não estão preparados para essas coisas. Irão fraqueijar no primeiro momento.
- Vamos falar sério. Estava meio de brincadeira. Você tem toda razão. Nós só temos que lhe agradecer o trabalho que você está tendo. Não temos como pagá-lo. Somente lhe oferecendo o melhor de nosso apreço. Falando em apreço, qual o perfume que sua mulher usa?
- Não se incomode com isto:
- Qual o perfume?
- Paris.
- Estou desligando, estaremos aí no próximo domingo. O vôo sai daqui às 22 hóras de sábado. Deve chegar aí por volta das 7 da manhã de domingo. Chau!
Sobre as necessidades fisiológicas – Mensinho e Paul conversaram longamente pela internet. Algo deveras importante! O baiano queria instalar um vaso sanitário dígno, principalmente por causa de Marie. Paul fora totalmente contra. Queria tudo o mais natural possível. Se era assim que os palafiteiros faziam as suas necessidades, eles também as fariam da mesma maneira.
- Mas Paul. A tese de vocês não será prejudicada porque há um vaso sanitário na palafita. Vocês querem pesquisar como é possível uma família viver sem dinheiro no bolso. É isto que estou sabendo.
- Justamente isto! Mas as condições habitacionais têm que ser as mesmas. Um vaso sanitário numa situação desta é fundamental para tirar a realidade das coisas. Tem que ser real. Já não gostei quando você falou que a palafita foi reformada. Tem dois ambientes e até uma espécie de varanda. As outras tem isto?
- A reforma foi necessária por questões de segurança. Não quero ser acusado de crime doloso ou culposo. Bem capaz de me enquadrarem no primeiro caso – com intenções de matar .
- Intensões de matar? Você as tem ou já têve alguma vez quando estava aqui em París? Eu nunca pensei nisto. Estou surpreso. Jamais poderia imaginar tal coisa.
- Você está de brincadeira. Vamos falar sério. A palafita estava muito ruim. Poderia cair com o aumento de peso de vocês dois, ou uma onda mais forte, ou uma rajada de vento. Aqui tem uns canais de vento perigosos. Também não seria justo um total desconforto. Vocês não teriam cabeça para escrever nada. É preciso pensar desse jeito, Paul. Não queira ser tanto real. A vida não é assim! Não se sai de Paris para os Alagados da forma como você pensa.
- E o pessoal que está lá, têm este conforto? Segundo você me conta a miséria é grande.
- É diferente Paul. Esse pessoal nasceu e cresceu naquilo a vida inteira. Eles devem ter o coração como se fosse uma ostra bivalve. A concha protege e fortalece o órgão contra as intempéries da vida. É como eles não sentissem nada. No seu caso e no de Marie, os corações de vocês não estão preparados para essas coisas. Irão fraqueijar no primeiro momento.
- Vamos falar sério. Estava meio de brincadeira. Você tem toda razão. Nós só temos que lhe agradecer o trabalho que você está tendo. Não temos como pagá-lo. Somente lhe oferecendo o melhor de nosso apreço. Falando em apreço, qual o perfume que sua mulher usa?
- Não se incomode com isto:
- Qual o perfume?
- Paris.
- Estou desligando, estaremos aí no próximo domingo. O vôo sai daqui às 22 hóras de sábado. Deve chegar aí por volta das 7 da manhã de domingo. Chau!
A TESE
Segundo capítulo da história do casal de franceses que viveu um certo tempo nos Alagados de Itapagipe.
Mensinho era professor da Universidade da Bahia. A maioria das aulas era à tarde. Tinha as manhãs livres. Na seguinte, pegou o carro e foi até o Lobato onde havia alugado a palafita. Através informações junto a moradores do local, contratou um marceneiro residente também numa delas – portanto com experiência própria e específica – a fim de fazer o que era necessário para melhorar em tudo por tudo a palafita que “abrigaria” os franceses.
- Primeiramente, teremos que reforçar as suas bases. Duplicarei a segurança com novas estacas, bem mais fortes do que estas. O telhado atual é de folhas de amianto. Não é aconselhável. Esquenta muito e dizem ser perigosas à saúde. Mudarei para piaçaba. Farei também uma aréa externa, uma espécie de varanda, de onde se pode pescar e conversar. Dessa varanda, sairá uma escada de acesso ao mar.
Faltavam 15 dias para os amigos chegarem. Mensinho foi até à Feira de São Joaquim e comprou uma rede e duas esteiras e algumas latas entre medias e grandes. Adquiriu tambem 100 sacos plásticos. No shopping comprou dois travesseiros, dois lençóis, duas fronhas, quatro toalhas de banho, ums pequena poltrona, um pequeno armário, uma mesa, quatro cadeiras, talheres, facas e colheres, duas panelas e uma frigideira; numa casa de material de construção comprou 10 tijolos, um saco de carvão, duas lâmpadas de 60 wats, um martelo, um alicate, uma chave de fenda, 1/2 metro quadrado de folha de metal, duas pazinhas de jardinagens, uma tesoura industrial e repelente de mosquitos. Os tijolos e e a folha de metal eram para a montagem do fogareiro, super necessário. Achou que isto era o mínimo necessário. No mais – objetos e produtos de uso pessoal – eles deveriam conduzir.
Levou tudo para a palafita. Foi a primeira vez que a viu pronta. Achou bastante razoável. Dois ambientes. No de trás, um reservado para o que se chamava de sanitário, isto é, um buraco recortado no assoalho. Alí seriam feitas as necessidades fisiológicas. O marceneiro tinha feito um bom serviço, inclusive revestiu o piso e todas as laterais da palafita com argila, afim de evitar incêndio. Conforme sua orientação, tinha fixado os prendedores das redes nas vigas mais resistentes. Colocou-as no lugar. As esteiras foram deixadas num canto, ainda enroladas. Eles que decidissem onde colocá-las. Os tijolos e a chapa de ferro ficaram em um canto. Os travesseiros ficaram em cima da potrona. Na lateral da mesma, colocou as toalhas de banho. Tinha três gavetas. Na primeira colocou os talheres. Na terceira o martelo, o alicate, a chave de fenda, a tesoura, as pazinhas e o repelente. Deixou vazia a do meio. Botou o armário no outro lado e arrumou as panelas. Colocou as lâmpadas e acendeu-as. O próprio marceneiro tinha feito a fiação puxando o “gato” da palafita mais próxima. Em baixo de uma delas posicionou a mesa e as quatro cadeiras. Eram de plástico.
Mensinho era professor da Universidade da Bahia. A maioria das aulas era à tarde. Tinha as manhãs livres. Na seguinte, pegou o carro e foi até o Lobato onde havia alugado a palafita. Através informações junto a moradores do local, contratou um marceneiro residente também numa delas – portanto com experiência própria e específica – a fim de fazer o que era necessário para melhorar em tudo por tudo a palafita que “abrigaria” os franceses.
- Primeiramente, teremos que reforçar as suas bases. Duplicarei a segurança com novas estacas, bem mais fortes do que estas. O telhado atual é de folhas de amianto. Não é aconselhável. Esquenta muito e dizem ser perigosas à saúde. Mudarei para piaçaba. Farei também uma aréa externa, uma espécie de varanda, de onde se pode pescar e conversar. Dessa varanda, sairá uma escada de acesso ao mar.
Faltavam 15 dias para os amigos chegarem. Mensinho foi até à Feira de São Joaquim e comprou uma rede e duas esteiras e algumas latas entre medias e grandes. Adquiriu tambem 100 sacos plásticos. No shopping comprou dois travesseiros, dois lençóis, duas fronhas, quatro toalhas de banho, ums pequena poltrona, um pequeno armário, uma mesa, quatro cadeiras, talheres, facas e colheres, duas panelas e uma frigideira; numa casa de material de construção comprou 10 tijolos, um saco de carvão, duas lâmpadas de 60 wats, um martelo, um alicate, uma chave de fenda, 1/2 metro quadrado de folha de metal, duas pazinhas de jardinagens, uma tesoura industrial e repelente de mosquitos. Os tijolos e e a folha de metal eram para a montagem do fogareiro, super necessário. Achou que isto era o mínimo necessário. No mais – objetos e produtos de uso pessoal – eles deveriam conduzir.
Levou tudo para a palafita. Foi a primeira vez que a viu pronta. Achou bastante razoável. Dois ambientes. No de trás, um reservado para o que se chamava de sanitário, isto é, um buraco recortado no assoalho. Alí seriam feitas as necessidades fisiológicas. O marceneiro tinha feito um bom serviço, inclusive revestiu o piso e todas as laterais da palafita com argila, afim de evitar incêndio. Conforme sua orientação, tinha fixado os prendedores das redes nas vigas mais resistentes. Colocou-as no lugar. As esteiras foram deixadas num canto, ainda enroladas. Eles que decidissem onde colocá-las. Os tijolos e a chapa de ferro ficaram em um canto. Os travesseiros ficaram em cima da potrona. Na lateral da mesma, colocou as toalhas de banho. Tinha três gavetas. Na primeira colocou os talheres. Na terceira o martelo, o alicate, a chave de fenda, a tesoura, as pazinhas e o repelente. Deixou vazia a do meio. Botou o armário no outro lado e arrumou as panelas. Colocou as lâmpadas e acendeu-as. O próprio marceneiro tinha feito a fiação puxando o “gato” da palafita mais próxima. Em baixo de uma delas posicionou a mesa e as quatro cadeiras. Eram de plástico.
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
BARÃO DE GEREMOABO
Apesar de termos feito o “encerramento” das postagens sobre a História da Cidade Baixa, deixamos claro que, a qualquer momento, poderíamos voltar para prestar qualquer esclarecimento ou dirimir uma dúvida.
É o presente caso!
Em 11/12/09 quando escrevíamos sobre o Elevador Lacerda, num determinado trecho referimo-nos ao Barão de Jeremoabo. Ele ia subir ou descer o Elevador com alguns amigos e, na época, era obrigatório a pesagem de todos os passageiros.
Veja o delicioso registro:
“Estava acompanhado de alguns amigos: Em 16/3/1889 pesamo-nos dando o seguinte resultado: Pinho, 54 quilos; Cícero, 61 quilos: Guimarães, 65 quilos; Artur Rios, 73 quilos e Vaz Ferreira, 115 quilos”.
Fomos indagados sobre se o Barão era de Jeremoabo com “j” ou de Geremoabo com “g”.
Como é sabido, Jeremoabo é uma cidade localizada ao norte da Bahia. Efetivamente, até 31/12/1943, Jeremoabo era Geremoabo.
Foi freguesia subordinada ao município de Itapicuru com a denominação de São João Batista de Geremoabo do Sertão de Cima. Isto em 1718. Em 1731 foi elevado à categoria de vila com a denominação de Geremoabo. Tornou-se cidade de Geremoabo em 1775. Somente em 1943 passou a chamar-se Jeremoabo com “j”.
À bem da verdade, em 1889, ano em se deu o lance da pesagem, Cícero Dantas Mastins, natural de Alagoinhas, era Barão de Geremoabo e não de Jeremoabo.
É o presente caso!
Em 11/12/09 quando escrevíamos sobre o Elevador Lacerda, num determinado trecho referimo-nos ao Barão de Jeremoabo. Ele ia subir ou descer o Elevador com alguns amigos e, na época, era obrigatório a pesagem de todos os passageiros.
Veja o delicioso registro:
“Estava acompanhado de alguns amigos: Em 16/3/1889 pesamo-nos dando o seguinte resultado: Pinho, 54 quilos; Cícero, 61 quilos: Guimarães, 65 quilos; Artur Rios, 73 quilos e Vaz Ferreira, 115 quilos”.
Fomos indagados sobre se o Barão era de Jeremoabo com “j” ou de Geremoabo com “g”.
Como é sabido, Jeremoabo é uma cidade localizada ao norte da Bahia. Efetivamente, até 31/12/1943, Jeremoabo era Geremoabo.
Foi freguesia subordinada ao município de Itapicuru com a denominação de São João Batista de Geremoabo do Sertão de Cima. Isto em 1718. Em 1731 foi elevado à categoria de vila com a denominação de Geremoabo. Tornou-se cidade de Geremoabo em 1775. Somente em 1943 passou a chamar-se Jeremoabo com “j”.
À bem da verdade, em 1889, ano em se deu o lance da pesagem, Cícero Dantas Mastins, natural de Alagoinhas, era Barão de Geremoabo e não de Jeremoabo.
Assinar:
Postagens (Atom)
.jpg)