ATÉ HOJE JÁ TIVEMOS MAIS DE 400 MIL CONTATOS

sábado, 27 de fevereiro de 2010

AS PROJEÇÕES DE PEDRA EM ITAPAGIPE- SINAL DOS TEMPOS

Há algum tempo atrás um amigo, morador do Poço, em Itapagipe, nos perguntou se sabíamos para que ou o que eram as duas projeções de pedra e cimento existentes na Avenida Beira Mar, uma na altura do Clube dos Sub- Oficiais e Sargentos da Marinha, limítrofe com a praia Bogari, e a outra em frente ao Colégio Santa Bernadete, na Avenida Beira Mar. Ambas avançavam em direção ao mar cerca de 50 a 100 metros. A primeira ainda existe e a segunda foi demolida.



Projeção ao lado da Praia do Bogari. Ia mais adiante. Ainda se vê restos de pedras da parte demolida.

Na época não soubemos responder, mas ficamos intrigados e prometemos pesquisar. Moradores antigos foram consultados, mas nenhum deles soube informar. Algo de somenos importância. Seria? Mesmo assim fomos à luta, até que descobrimos. Na época foi importante!

Antes de chegarmos a eles, é necessário contar uma história. A história da construção do cais que contorna grande parte das avenidas à beira mar de Itapagipe. Foi uma obra gigantesca realizada no princípio do século XX. Contornaria toda a Ribeira, a Penha, o Poço, a Avenida Beira Mar e terminaria no Porto da Lenha. Não fizeram o contorno dos Porto dos Mastros que foi uma pena e não prosseguiu até o Estaleiro do Bonfim, Pedra Furada e Humaitá, o que a tornaria magnífica.

Desde a Avenida dos Tainheiros e todo o trecho do Largo da Ribeira e Praça Gal Osório, complementaram o cais com uma balaustrada com colunas. Foi feito o calçamento e arborizaram o local com figueiras. Um luxo para a época.
 
Em conseqüência isto atraiu as famílias ricas da época que construíram grandes residências do local, a exemplo das famílias Amado Bahia e Ramos. Outras tantas fizeram igualmente grandes e excelentes residências. Vale mostrá-las.




Solar dos Ramos


Solar Amado Bahia





Completando o charme do local, na década de 1940 foi construído um hidroporto. Aviões de todas as partes do mundo atracaram nele. Dava-lhe uma atmosfera internacional.

As regatas a remo, esporte da elite daquele tempo, ganhavam uma arquibancada de luxo. Era a maior festa esportiva da Bahia.

Além de tudo isto, o lugar era bonito e agradável, bafejado por uma brisa permanente, dia e noite. Absolutamente singular.

Talvez o único inconveniente que se possa apontar seria o fato de não possuir uma praia. Quando a maré vazava, descortinava-se uma grande faixa de lama. O mesmo acontecia do outro lado, do Lobato. Ficava apenas um canal ao meio. Mas isto, na época era irrelevante. Os dejetos das residências eram jogados no mar. Então para que praia? Quando se pretendia tomar um banho de mar, havia a Praia do Bugari, ali perto. Na época, era um lugar deserto. Ainda não tinha residências que pudesse poluí-la. Era preservado.

Como acontece em qualquer lugar, nas partes mais afastadas da península, principalmente na Avenida Beira Mar, começaram a ser construídas pequenas residências de gente de menor poder aquisitivo. Elas davam fundo para a Beira-Mar e frente para a Rua Visconde de Caravelas, a principal do bairro.
Do outro lado da rua, por sua vez, as casas que davam frente para o Porto dos Mastros, ofereciam o fundo para a mesma Visconde de Caravelas.

Por quê? Por causa do fluxo dos esgotos residenciais. Tanto os esgotos das casas da Avenida Beira despejavam sua sujeira na praia em frente, como igualmente aquelas casas construídas no Porto dos Mastros, manejavam as tubulações por baixo da Visconde de Caravelas e das casas nela construídas. O Porto dos Mastros era preservado. Era área de mangue. Havia um certo cuidado naquela época.

Em razão dessa duplicidade de poluição, era imensa a quantidade de dejetos jogados na praia em frente à Av. Beira Mar.

Aqui chegamos ao exato motivo das construções dos dois prolongamentos de pedra e cimento que tanta curiosidade causa. Foram construídos para impedir a passagem direta dos dejetos para a Praia do Poço e, consequentemente, para a Praia do Bugari, lugar mais precioso de todos os moradores. Os restos passariam ao largo! Por sua vez, do lado da Penha, os dejetos vindos de dentro da Enseada dos Tainheiros passaria pelo canal que separa a Penha de Plataforma.

Idéias da época. Pelo menos bem intencionadas!



Representação do pretenso desvio

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

PORTO DE CARNAVAL



Através diversas postagens, tratamos do Porto de Salvador ( 2/3/4 e 23-12-09). Numa delas, transcrevemos um comentário publicado em um dos jornais da cidade sobre o porto. Ei-lo:
“Com carência de equipamentos, espaço saturado, maquinário obsoleto e alto índice de perdas de cargas – que chega a 39% do total conteinerizado no território baiano – o Porto de Salvador é o principal retrato das deficiências do sistema portuário brasileiro. Uma pesquisa com 200 executivos de companhias usuárias, concluída em janeiro pelo Centro de Estudos em Logística (CEL), ligado ao núcleo de pós-graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, posicionou o porto da capital baiana na última colocação entre os 18 principais portos do país. Enquanto a média nacional foi de 6,3 pontos, o Porto de Salvador ficou com meros 5,1, ganhando o título de pior porto do Brasil”.

Voltamos a ele para registrar que, durante o Carnaval, três grandes navios estiveram aportados no nosso porto. São aqueles enormes transatlânticos pertencentes a empresas estrangeiras que, no verão do hemisfério sul, realizam viagens de cruzeiros pelas principais capitais brasileiras.
 
 
Cada um desses navios transportam entre 2 a 3 mil passageiros. Vieram assistir ao Carnaval da Bahia. Devem ter pulado atrás do Trio Elétrico. Alguns devem ter assistido a festa nos camarotes. Como a festa é realizada perto da estação de desembarque, não deve ter sido um bom negócio para os taxistas. Também não foi um bom negócio para os hotéis e restaurantes, desde que os nossos visitantes dormiam e comiam no próprio navio (all inclusive). Devem ter tomado uma cervejinha de lata, desde que ninguém é de ferro.

Então, esses navios trazem mais prejuízos do que lucros ao nosso turismo?

Parece que sim! Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH) “ há condições desiguais de competição entre os hotéis e os cruzeiros de cabotagem em relação a tributos, contratação de mão de obra e fornecimento de insumos nacionais (alimentos e bebidas entre outros). Outro ponto levantado pelos hotéis é a existência de cassinos a bordo de navios, prática que é proibida no Brasil”.
 
Roleta
 
Outra opinião: Para o presidente do Sindmar, Severino Almeida, “os cruzeiros competem de forma desleal com o setor hoteleiro, não geram empregos e põem em risco a navegação e o ambiente”.

Mais uma opinião, desta feita do senhor Rubens Augusto Régis, presidente da Resorts Brasil:”o crescimento da industria de cruzeiros nesta temporada, com um viés de “popularização”, pode ter afetado mais hotéis de três ou quatro estrelas em pontos turísticos tradicionais como o Nordeste”.

E agora?

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

O COMERCIO NOS SURPEENDE

Nos dias de Carnaval, quando a folia se convergia para a Cidade Alta e a Barra, fomos olhar com cuidado o bairro do Comércio e, diante do que vimos, ficamos a imaginar como deveria ser bela essa parte da cidade pelos idos de 1900, antes das obras de construção do Porto de Salvador.

Discutimos essa questão em diversas postagens. Concluímos que o porto poderia ter sido feito para os lados de Água de Meninos e São Joaquim como, aliás, agora se pretende com sua ampliação, ampliação esta que vai proporcionar a verdadeira eficácia técnica, isto é, o que temos hoje, o que chamamos de porto hoje, posiciona-se como o “pior porto do Brasil”, atrás até de portos como o de Aracaju.

Para que essa idéia seja ainda melhor, o porto da capital baiana em 2006, ficou atrás de quase todos os portos do Nordeste, a exemplo de Suape (Pernambuco), que atingiu 5,2 milhões de toneladas, Maceió (4,7 milhões/t) e Aracaju (3,7 milhões/t). O Porto de Salvador ficou na 29º posição no ranking de movimentação de cargas em 2006 (último levantamento) com aproximadamente 2.8 milhões de toneladas, representando apenas 0.40% do comércio exterior do Brasil.

Note-se, entretanto, que o Porto de Aratú movimentou 28.1 milhões de toneladas ficando na sétima posição contra os 2.8 milhões de toneladas do Porto de Salvador.

Para ser instalado, vejam o que ele botou abaixo:





Cais das Amarras - E o belíssimo conjunto de prédios estilo pombalino que o contornava.

A maior parte dessa estrutura veio abaixo. Vejam o que restou e se terá uma melhor idéia da beleza dessas construções.




















Esta é uma pequena amostra. Existem centenas! Era um espaço de luxo e beleza.

TRIPLA HOMENAGEM

Numa área totalmente degradada da Preguiça, mais precisamente, num espaço de estacionamento de veículos, em frente à Escola de Aprendizes de Marinheiro, fomos encontrar um monumento que, pelas suas características, talvez seja o único em toda Salvador. Simplesmente, ele presta uma homenagem, num só bloco, a três ilustres baianos que viveram na década de 1890. Não conhecemos nenhum outro que tenha “concretizado” esta tripla façanha. Vejamo-lo:



Tripla homenagem

A homenagem é dirigida a três irmãos, Manoel, Antônio e José, todos Pereira, com destaque para o primeiro, Manoel Vitorino Pereira. Foi médico e jornalista inicialmente. Em seguida foi Presidente do Estado da Bahia e Senador. Foi presidente interino do Brasil entre 1896/1897 quando Prudente de Morais afastou-se por motivo de saúde. Assim, foi o único baiano a assumir a presidência da República do Brasil. Seus irmãos também foram médicos e jornalistas.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

LEITURA PARA O CARNAVAL - JUSTIFICATIVA

Durante longos 5 meses, contamos a história da Cidade Baixa desde a Ponta da Penha até a Preguiça, mas o fizemos com detalhes, talvez nunca antes visto em blogs dessa natureza. A narrativa proveio de três anos de pesquisas e quarenta de vivência com a área.

Qual dos dois fatores foi o mais importante? Em verdade, o conjunto foi o mais decisivo. Se o pesquisador não tiver certa vivência com a coisa pesquisada, ele não sabe nem como começar ou aonde começar. Vai chutando para ver onde a bola cai.

Foi o que vimos quando consultamos as “histórias” existentes sobre essa parte de nossa cidade. Gente que talvez nem conheça o local ou o conhece muito superficialmente, “chutou” coisas incríveis.

Para não parecer leviandade o que estamos afirmando, houve gente que disse que a palavra HUMAITÁ, “não significava nada”. Outro disse que HUMAITÁ significava “a pedra agora é negra” e detalhou da seguinte maneira: Hu=negro / Ma=agora/ Itá =pedra.

Incríveis as afirmações acima! A primeira é como que uma “saída honrosa”. Não se compromete com nada. A segunda se compromete com tudo e dá em nada. Negro em tupi-guarani é “un” não “hu”. Não existe no alfabeto tupi-guarani a letra “h”. Ma=agora, inexiste e pedra em tupi-guarani é ita e não itá (com acento).

O pior de tudo é que esse pessoal indica até as fontes, só que essas estão secas da verdade das coisas. A gente morre de sede!

Passada a primeira fase de nossas pesquisas, pensávamos que havíamos esgotado o assunto. Será? Por exemplo, foram mais de 500 fotos (a maior parte não pôde ser postada). Milhares de anotações. Um trabalho insano, mas honesto, como dizia o outro.

Aí nos veio a idéia de transcrever algumas passagens de livro de nossa autoria sobre a Cidade Baixa. Inicialmente veio a história do casal de franceses que viveu durante certo tempo nos Alagados de Itapagipe (fato verídico) – postagens datadas de 29 a 30 de janeiro de 2010 com o título ALAGADOS- e, mais recentemente- 6-02-10 – ainda do mesmo “ALAGADOS”, contando a história de dois iatistas lutando pela recuperação dos nossos saveiros na Baía de Todos os Santos.

E por que fizemos? Primeiramente, são dois assuntos ligados à Cidade Baixa, portanto dentro do contexto a que se pretende este blog. Segundo, às vezes fica difícil explicar ou justificar determinadas situações sociológicas de um determinado fato, por exemplo, a vida das marisqueiras de Plataforma e Lobato. Romanceando ficou mais fácil.

No caso dos saveiros da Baía de Todos os Santos, algo de extrema importância sócio-econômica, só foi possível sentir a profundidade da intenção dos dois iatistas em fazer ressurgir os tradicionais saveiros de velas de içar, fazendo uma história. Acontece, porém, que, o fato também é verídico. Só que os verdadeiros nomes foram mudados. Não tinha autorização em contrário!

sábado, 6 de fevereiro de 2010

LEITURA PARA O CARNAVAL - 4

O autor desse blog produziu um livro ao qual chamou de “Alagados”. Quase ao final do mesmo, os antigos saveiros da Bahia são focalizados. É um assunto bem “cidade baixa”, portanto absolutamente dentro do contexto do blog.

Como estamos próximos do Carnaval e tem muita gente que não brinca, fica em casa, pensei que talvez fosse o momento exato de transcrevê-los para deleite dos que gostam de ler. Poderão até gostar, pois tem ilustrações e muita informação sobre essas tradicionais embarcações. Não custa nada!


Nota - essa postagem é uma série. Pedimos que leiam as três anteriores para que possam entender melhor o sentido.
23
Três meses após esse encontro, Garra comunicou a Bené que os saveiros estavam prontos. Só faltavam a pintura e a colocação dos nomes.

- Gostaria que fossem pintados com as cores da Bahia. De relação aos nomes, um vai chamar-se Sergey e o outro, Garra.
- Mas esses são nossos nomes!
- Por acaso, o senhor patenteou o seu nome? Se não, posso usá-lo na proa de um saveiro.
- Isso não está certo. Estou sentindo que se trata de uma fina gozação.

- Não é nada disto. É uma justa homenagem! Os senhores foram a fonte inspiradora do que está sendo feito. O desprendimento dos senhores me impressionou. Não pensei que existisse gente como vocês, permita-me tratá-los assim. Sacrificavam seus fins de semana por um ideal: recuperar uma tradição. Verdade que pouco conseguiriam, mas foi um início maravilhoso. Faltavam os arremates e a conclusão que eu dei. Mas se não houvesse este princípio, nada teria acontecido. Portanto, mais do que justo que seus nomes estejam gravados nas popas dos saveiros que voltarão a singrar as águas da Baía de Todos os Santos. Quero que o povo de Maré aplauda e grite os seus nomes. GARRA – SERGEY.

EPÍLOGO

O Centro de Abastecimento da Ribeira tornou-se um sucesso. Os saveiros da Bahia voltaram a singrar as águas da Baía de Todos os Santos. O “Garra” e o “Sergey” estavam entre eles.

LEITURA PARA O CARNAVAL - 3

O autor desse blog produziu um livro ao qual chamou de “Alagados”. Quase ao final do mesmo, os antigos saveiros da Bahia são focalizados. É um assunto bem “cidade baixa”, portanto absolutamente dentro do contexto do blog.

Como estamos próximos do Carnaval e tem muita gente que não brinca, fica em casa, pensei que talvez fosse o momento exato de transcrevê-los para deleite dos que gostam de ler. Poderão até gostar, pois tem ilustrações e muita informação sobre essas tradicionais embarcações. Não custa nada!


Nota - essa postagem é uma série. Pedimos que leiam as duas anteriores para que possam entender melhor o sentido.
22
Dias seguintes Bené fechou as negociações com os proprietários da antiga fábrica e os diretores do clube. Mandou chamar o arquiteto em Maré e pediu-lhe o projeto do Centro de Abastecimento da Ribeira. Este será o nome.

15 dias após foi apresentado o projeto. Seria aproveitada a fachada da antiga fábrica que o arquiteto considerou interessante e tradicional ao local. O restante imitava a antiga linha do Mercado Modelo, o primeiro. Era importante haver uma conexão entre um e outro no que se refere às suas finalidades. Bené gostou! Autorizou o imediato início da obra.

Desse dia em diante, Bené não parou um só instante em Maré. Estava garantindo o abastecimento de produtos aos saveiros que iriam transportar as mercadorias das ilhas e do recôncavo até o Centro de Abastecimento, como se fazia antigamente. De Maragogipe e Maragogipinho sua famosa cerâmica de barro e caxixi. De Nazaré a sua farinha de copioba; de Santo Antônio de Jesus suas flores e verduras. De Mar Grande suas mangas incomparáveis; de Salinas da Margarida seus mariscos; de Valença os camarões secos. Em cada lugar havia um ou mais produtos de grande consumo em Salvador. Fez contato com a Associação de Produtores Orgânicos do Recôncavo Baiano, a Aporba. Estava interessado em incrementar a venda desses produtos na capital. Seria uma referência.

- Mas Bené, produtos orgânicos são caros. Dizia Firmino. O Centro precisa vender o barato.
- Firmino! Eu sei que são caros, mas a idéia é tê-los como referência. Irão atrair pessoas de poder aquisitivo alto. Farão propaganda. Por outro lado, mestre, não esqueça que esses produtos chegarão a Salvador com um custo de frete muito baixo, via saveiro, o que pode torná-los competitivos.
- É. O senhor tem razão.

- Falando em preços, a concessão dos boxes terá uma condicionante muito importante. Seus proprietários serão obrigados a vender qualquer mercadoria com pelo menos 30% mais barata do que em qualquer em outro lugar. Fará parte do contrato. Alugaremos também esses boxes por um preço 30% mais em conta do que em qualquer outro lugar. Montaremos uma central de consulta e fiscalização de preços com agentes nos principais pontos de vendas de Salvador, supermercados e feiras.
- O senhor já pensou em nossas rendeiras. Elas terão espaço no Centro?
- Claro! Teremos uma seção de artesanato da terra e elas estão inclusas.
- E elas também terão que vender 30% mais barato?
- Também elas.

- Agora precisamos tratar dos saveiros. Sei que a atual frota dessas embarcações está muita reduzida.
- É verdade, Bené. Os iatistas estão recuperando alguns, mas talvez não seja o bastante.
- Não é o bastante. Em cada comunidade da Baia de Todos os Santos vou financiar a construção ou reparação de pelo menos duas unidades por cada uma delas. Nós próprios teremos em atividade pelo menos dez saveiros. Vou encomendar a um estaleiro de Valença, mas também vou encomendar aos iatistas dois saveiros muito especiais.
- Porque especiais?
- Ainda não lhe posso dizer.

- Mestre Firmino,além desse trabalho, tenho lido muito sobre o recôncavo. Precisava saber de toda a sua história, principalmente aquela ligada aos saveiros. Milena foi a Salvador e trouxe-me o que encontrou nas livrarias. Por exemplo, o senhor sabia que os saveiros se originaram de antigas embarcações portuguesas?
- Não sabia.
- O primeiro passo de transformação se deu com a substituição das velas bastardas por velas quadrangulares. Olhe aqui no livro o que é uma vela bastarda ou latina:



E aí o autor fala: “os mastros eram feitos de troncos brutos e tortuosos. Eram três mastros, sendo que os dois de ré armavam velas latinas quadrangulares. No mastro da vela grande da proa, armava-se uma vela de terço ou pensão. Depois o Barco do Recôncavo, como era chamado, foi sofrendo alterações até transformar-se no que conhecemos como o Saveiro de Vela-de-içar. A primeira mudança foi a perda do mastro de ré. Em seguida, perdeu-se o traquete, substituído por uma pequena vela triangular”.
- O que é traquete?
- Era o mastro da vela grande na proa da embarcação.
- E onde foram construídos os primeiros saveiros?
- Em Salvador na Maçaranduba e Cabrito. No recôncavo em Santo Amaro, São Roque, Ilha do Bom Jesus, Madre de Deus, São Francisco do Conde, Tubarão, Salinas das Margaridas, Itaparica, Caboto, entre outros. Nesses locais se fizeram os saveiros menores. Já os saveiros maiores, chamados de “barra-fora” foram construídos em Taperoá, Valença, Cairu, Camamu, Cajaíba, Ilha Grande, Porto Seguro, Canavieiras, Caravelas, Nova Viçosa, entre outros.

- Firmino, o nome “saveiro” originou-se de “saveleiro”, barco usado em Portugal para a pesca do savel.
- Savel?
- O savel é uma espécie de peixe migratório da família Clupeidae. Olha a fotografia dele. Que peixe lindo. Dourado!



Firmino, os saveiros foram cantados em verso, prosa e música. Olhe o que Caymmi cantou. Leu os versos:

“Saveiro partiu de noite
Madrugada não voltou
O marinheiro bonito
Sereia do mar levou
A noite que ele não veio
Foi de tristeza para mim
Saveiro voltou sozinho
Triste noite foi pra mim”
- Seu Bené. Não estou lhe reconhecendo.

- Tem mais Firmino Veja este verso

“Nada temas que sou brasileiro,
Sou da tua floresta natal:
Não te temas dos mares comigo
Meu saveiro – que sou teu igual”.

- Quem escreveu isto?
- “Isto” foi escrito por Junqueira Freire. Ele foi monge, beneditino, sacerdote e poeta. Nasceu em Salvador em 31 de dezembro de 1832 e faleceu em 24 de junho de 1855.
- O senhor estudou mesmo.
- É. Firmino. Nessa vida só fiz pescar. Agora estou tentando buscar algum conhecimento para não morrer ignorante.
- Então eu vou morrer ignorante?
- Não Firmino. Agora você já sabe estas coisas. Acabou sua ignorância. Ah!Ah!Ah!

Mas, deixemos de brincadeira. Preciso voltar a falar com os iatistas. Quando eles chegarem sábado peça que me visitem. Pode ser na parte da tarde.
E no sábado à tarde os mesmos Garra e Sergey davam entrada na casa de Bené. Foram conduzidos à varanda.

- É um prazer voltar a vê-los. Tenho algo muito importante a lhes comunicar. Estou construindo um Centro de Abastecimento na Ribeira. Será um grande centro. Espero que seja o novo Mercado Modelo de Salvador. Àquele que foi destruído por um incêndio. Este que hoje temos na antiga Alfândega não conta. É uma área muito grande. Juntamos uma antiga fábrica que ali existia com as dependências de um clube ao lado. Junto ao mar, comprei uma marina que ali fazia questão de existir, mas que era mais casa de shows do que mesmo de barcos. Esse local será destinado para a atracação dos saveiros. Sim, os saveiros voltarão a atracar em Salvador e vai ser na Ribeira.
Os dois iatistas entreolharam-se mudos. Bené prosseguiu na fala. – Vou tentar reconstituir uma ordem econômica que não deveria ter sido quebrada. Refiro-me ao comércio que existia dentro da Baia de Todos os Santos e todo o transporte era marítimo, feito pelos saveiros. Um transporte barato e ecologicamente correto. Os senhores conhecem esta foto. Veja a força que tinha os saveiros:




Isto era diariamente. Milhões e milhões de cruzeiros, a moeda da época, foram comercializados naquela época. Vinha mercadoria de toda a Bahia, das cidades do Recôncavo e das Ilhas. Espero reconstituir essa ordem.

- Mas senhor Bené hoje os tempos são outros. Pronunciava-se o Dr. Sergey com aprovação gestual do amigo Garra. Hoje tem os supermercados.

- É aí que reside o grande engano. Este enfoque está totalmente equivocado. Muito pelo contrário. A população chegou a milhões. Surgiram os supermercados e outros pontos comerciais. Tudo cresceu menos o transporte de mercadorias pelos saveiros, a pequena, mas importante cabotagem dos saveiros. Deveria ter crescido também. Se o destino dos produtos e mercadorias era a antiga rampa do Mercado Modelo e este se incendiou, a comercialização deveria ter continuado, principalmente para os supermercados. Teria crescido com eles. A meu ver houve um impacto emocional negativo e equivocado. Pensaram todos: acabou o Mercado Modelo, também nos acabamos. Diz-se que os saveiristas não eram apenas pequenos negociantes; eram grandes nostálgicos e excelentes boêmios. O Mercado Modelo não tinha apenas boxes; tinha capoeira e lindas mulatas. Quando ele se acabou em fogo, estaria finda a nostalgia do seu ambiente. Há mais um detalhe importante que ninguém abordou. Toda aquela mercadoria que os saveiros trazia não era destinada tão somente ao Mercado Modelo. Havia outros mercados como o de Santa Bárbara, do Ouro, São João, as feiras, de Água de Meninos, do Cortume, do Bonfim, de Itapoã e tantas outras. Todo esse pessoal vinha comprar nos saveiros que aportavam na rampa do Mercado Modelo. Não era para os saveiros arriarem suas velas de içar e encalhar seus cascos nas praias da Baia de Todos os Santos, assim tão de repente. Faltou orientação. Iniciativa. Faltou visão. Faltou marketing.




Este foi o incêndio que acabou com um grande negócio que poderia ter sido muito maior, não fosse a postura equivocada, infelizmente assumida, por toda uma comunidade de negociantes marítimos.

Bené tomou um copo de cerveja e continuou. – O transporte via saveiros era e sempre será um transporte barato, além de corretamente ecológico. Venceu dele um transporte caro, mais demorado e ante-ecológico. É um contra-senso! O maior que eu já vi. Uma mercadoria sai de Maragogipe via terrestre, por exemplo, seus famosos caxixis; segue em direção à Santo Antônio de Jesus, Feira de Santana e só vai alcançar Salvador após quase 300 quilômetros de estrada e muito diesel. Está tudo errado! O Centro de Abastecimento da Ribeira vai tentar corrigir esse erro. Vai ser difícil no princípio. Vocês sabem como são as pessoas e os costumes. Mas eu tenho minhas armas. Vamos usar as mesmas dos outlets que estão surgindo em todo o País. Vamos vender barato. Dizem até que pagar pouco é o chic. Todos os comerciantes vão ter que vender 30% mais barato do que em qualquer outro lugar. Vamos manter uma central de pesquisa de preços e exigir que se pratique uma política de preços baixos. Se duvidar poderemos ser chamados do Outlet da Ribeira. Sei que outlet se refere mais a grifes. Não tem problema. Teremos a grife das rendas de Maré. Vão ser vendidas mais baratas que na ilha. O que importa mesmo é o conceito. Esse será seguido à risca.

- Era só isto o que senhor tinha para nos falar?
- Não senhor Garra. Quero encomendar dois saveiros aos senhores. Outros 10 estão sendo feitos em Valença. Formarão a frota inicial de transporte navegável que abastecerá o Centro Distribuidor. Outras tantas embarcações estão sendo recuperadas ou construídas em diversos locais da Baia de Todos os Santos de forma autônoma.
- E as mercadorias?
- Estavam todas sendo transportadas via terrestre. Os produtores e industriais existentes nesse pedaço estão preferindo um transporte mais barato e mais rápido. Não somente, os saveiros irão transportar para o Centro. Todos as redes de supermercados estão ávidas pela novidade. Já foram feitos contatos. Nosso gerente de marketing do Curral de Saubara que já vende peixe para esse pessoal está tratando disto e são auspiciosos os resultados. Além disso, tem gente já plantando mais manga, mais aipim, mais coco, mais fumo, mais verdura, mais flores, tudo enfim, com vistas a essa iniciativa. O que não foi feito no passado, eu o fiz. Faz muitos meses que estou visitando todas as ilhas e cidades do recôncavo falando do Centro. Ele já está influenciando na economia da região. Graças a Deus!
- Curral de Saubara? De que se trata?
- Curral é o mesmo que um pesqueiro. Está montado numa praia de Saubara que enche e vaza totalmente, como em Itgapagipe. Os peixes vêm com a maré cheia e quando ela vaza, ficam presos no curral onde são recolhidos. Temos um frigorífico no próprio local e outro na Calçada, além de uma meia dúzia de caminhões adequados. É pena que não possamos transportar os peixes via saveiros, por enquanto. Já estamos pensando em construir uns saveiros-frigoríficos. Não sei se vai funcionar. O problema é a capacidade. Vai influenciar no custo.

LEITURA PARA O CARNAVAL - 2

O autor desse blog produziu um livro ao qual chamou de “Alagados”. Quase ao final do mesmo, os antigos saveiros da Bahia são focalizados. É um assunto bem “cidade baixa”, portanto absolutamente dentro do contexto do blog.

Como estamos próximos do Carnaval e tem muita gente que não brinca, fica em casa, pensei que talvez fosse o momento exato de transcrevê-los para deleite dos que gostam de ler. Poderão até gostar, pois tem ilustrações e muita informação sobre essas tradicionais embarcações. Não custa nada!


Nota - Essa postagem é uma série. Pedimos que leiam a anterior para entender melhor o seu sentido.

21

Na manhã de segunda-feira Firmino viu Bené sair de lancha junto com o marinheiro. Não havia lhe falado nada, como era de costume. Nos dias seguintes, aconteceu a mesma coisa. Voltava por volta de meio dia. Almoçava e após o descanso ficava sentado na varanda olhando o horizonte. O que estaria havendo? Falou com Calixto. Pescar não era o caso, desde que nenhum peixe fora recolhido.

No sábado, Bené mandou chamar Firmino. Queria conversar com ele. Era um assunto importante. Bené subiu o morro com certa apreensão. Nunca vira o patrão daquele jeito.

- Firmino. Tomei uma decisão.
Firmino tremeu.
- Resolvi mostrar àqueles iatistas do que sou capaz. Tenho plena convicção que as tais regatas de saveiros e palestras resultantes, não resolvem nada. O que poderá definir o ressurgimento dos saveiros da Bahia é uma ordem econômica, como existia antigamente. Os saveiros precisam se sustentar. Regata só faz alegria de vento. Depois passa e não fica nada.
- E o que senhor pretende fazer?
- Já comecei faz uma semana.
- As suas saídas de lancha, não é?
Ah, você reparou! Não lhe disse nada. Desculpe. Precisava ficar sozinho.
- Estive visitando as ilhas e grande parte do recôncavo. Estive em Santo Amaro, Maragogipe e Itaparica. Fui à Nazaré das Farinhas e Santo Antônio de Jesus. Deixei a lancha em Mar Grande com o marinheiro e fui de carro até essas cidades. Também estive em Salvador.
E o porquê das visitas?
- Ordem econômica. Fui sentir se esses locais ainda tinham força econômica e se estavam dispostos a uma nova ordem. Aliás, nova não. Antiga ordem econômica.
- Como assim, não estou entendendo.
- Fui ver se eles estavam dispostos a transportar o que produziam por saveiros,pelo menos uma parte, como se fazia antigamente. É muito mais econômico e bem mais rápido.
- Mas Bené, o senhor sabe como ninguém que não é somente o problema de transporte. O maior problema reside onde vender as mercadorias transportadas, onde negociá-las. Antigamente, os saveiristas tinham o Mercado Modelo, maior centro de abastecimento de Salvador. Toda mercadoria era ali comercializada. Ainda tinham o Porto do Bonfim e o Porto da Lenha, aonde também chegavam alguns saveiros.
- Exatamente. Você tem toda a razão. Onde comercializá-la?

- Por esta razão fui a Salvador. Vou criar na Ribeira um grande Centro de Abastecimento. Estou em negociação com uma antiga fábrica e um clube de junto. A fábrica está fechada e o clube está falido. Vou juntar as duas partes e construir o maior centro de abastecimento de Salvador. Ali temos um porto natural. A questão de atracação é a melhor possível.

- É uma idéia ousada, mas é uma boa idéia. É das minhas. Conte comigo.

LEITURA PARA O CARNAVAL - 1

O autor desse blog produziu um livro ao qual chamou de “Alagados”. Quase ao final do mesmo, os antigos saveiros da Bahia são focalizados. É um assunto bem “cidade baixa”, portanto absolutamente dentro do contexto do blog.

Como estamos próximos do Carnaval e tem muita gente que não brinca, fica em casa, pensei que talvez fosse o momento exato de transcrevê-los para deleite dos que gostam de ler. Poderão até gostar, pois tem ilustrações e muita informação sobre essas tradicionais embarcações. Não custa nada!

20

Depois da inauguração do hospital, Bené agora descansava. Estava tranqüilo, principalmente de relação a Calixto. A situação em que ficou o amigo chegou a ser preocupante. Agora ele trabalhava; tinha sua residência, a filha estava junta; o filho agora era político. Aos domingos os dois saíam a pescar de lancha. Iam para o alto mar. Firmino às vezes os acompanhava. Já não tinha mais o tempo de antigamente. Ficava feliz em ver os dois amigos juntos de novo. Pescando como sempre. Não queria atrapalhar a conversa dos dois.

Certo dia Firmino informou a Bené que um grupo de iatistas estava a recuperar velhos saveiros. Chegavam em dois Catamarãs e ficavam o dia todo numa barraca de praia, enquanto um velho marceneiro ia reconstituindo uma embarcação.

-Eles vêm sós?
- Não. Trazem a família. Mulheres e filhos. Todos tentam ajudar.
- E o que pretendem fazer com estes saveiros?
- Segundo um deles, querem reconstituir uma velha tradição: “Os saveiros da Bahia, ícone da cultura baiana, a mais típica embarcação brasileira”. Ainda eles, “estes saveiros têm uma perfeição náutica incomparável e uma absoluta pureza funcional”.

- Quando pescávamos nos Tainheiros os via passar garbosos, seu lastro ficava quase na linha d’água de tanta mercadoria que carregavam. Impressionava-me suas velas de içar.
- É. Também gostava deles. Como é que desapareceram de uma hora para outra? Haveria uma explicação?

- Há diversas hipóteses. Uma delas de que com o advento dos barcos a motor e outras embarcações mais sofisticadas, os saveiros foram perdendo espaço. Não tem muita sustentação. Sustentar-se-ia se os barcos a motor que surgiram, fizessem o mesmo que os saveiros faziam. Tal não aconteceu. Nenhuma outra embarcação foi usada para trazer as mercadorias que os saveiros traziam.

- É verdade seu Bené. Não tinha percebido este detalhe.

- O que realmente houve foi a ligação da Ilha de Itaparica com o continente pelos lados de Nazaré das Farinhas. A construção da ponte permitiu o escoamento de tudo por Nazaré, Santo Antônio de Jesus, daí seguindo para Feira de Santana e alcançando Salvador. Antes, tudo vinha nos saveiros. Contribuiu também o incêndio do antigo Mercado Modelo ocorrido em 1969. O mercado era o maior centro de abastecimento de Salvador. Os saveiros aportavam ao lado. Com o incêndio os comerciantes foram removidos para Água de Meninos, aonde os saveiros ainda tentaram um abastecimento pela Enseada do São Joaquim. Quando esses comerciantes retornaram, já nas dependências da antiga Alfândega, lhes foram exigidos que só vendessem produtos artesanais, com vistas ao turismo. Os saveiros foram esquecidos. Decorria o ano de 1971.

- Então seu Bené, esse foi o real motivo da extinção dos saveiros?

- Sem dúvida alguma. Transportar para quem? Para piorar a situação a Marinha proibiu o aportamento dos saveiros no antigo cais. Tinha planos de expansão de suas instalações na área, como realmente aconteceu.

- É verdade que os saveiros ajudaram na Independência da Bahia?

- Verdade. Em 1823 eles foram decisivos. Foi a bordo de centenas dessas embarcações que a frota de João das Botas combateu a esquadra de Madeira de Melo na Baía de Todos os Santos.

- Seu Bené, o senhor sabe é coisa.

- Gosto de ler como também gosto de ouvir. Também andava pelo Mercado naquela época. Quem não andava? Tinha muitos amigos saveiristas. Muitos morreram de desgosto. Seus barcos também morreram! Mas voltando aos nossos iatistas construtores, quantos saveiros já recuperaram?
- Mais ou menos uns seis. Vão realizar uma regata ainda este mês. Convidaram alguns saveiros que ainda resistem ao tempo aí pelas ilhas e recôncavo. Querem reunir de dez a vinte embarcações. Pretendem resgatar o passado.
- Com regata? Não acredito! É festa para um dia só. Quando acabar, volta tudo ao que era. Eles não podem nem pescar naqueles saveirões. Vão encalhar de novo na areia e voltar às suas canoas para pequenas pescarias, senão morrem de fome. De qualquer forma, gostaria de conhecê-los. Devem ser gente boa. Convide-os para almoçar no próximo sábado ou domingo.

Pedro Garra aceitou o convite. Disse que seria um prazer. Perguntou se poderia levar um amigo. Ficaria mais confortável.

Os dois chegaram à casa de Bené por volta das 11 horas. Ficaram impresionados com a beleza da residência.

- Este é o senhor Pedro Garra e este é seu amigo Sergey, Firmino fazia a apresentação.

- Convidei-os para lhes conhecer. Estou sabendo do trabalho de recuperação de antigos saveiros. Muito bonito! Gostaria de saber de seus planos. Sou homem do mar e tudo que se lhe diz respeito, é do meu mais vivo interesse, principalmente em Maré.

- Efetivamente estamos recuperando antigos saveiros a fim de resgatar velha tradição na Baia de Todos os Santos, quando estas ambarcações singravam por aqui transportando mercadorias de todos os tipos do recôncavo e das ilhas para Salvador, o maior mercado consumidor. Estamos esperançosos que eles voltem a circular. Falava Garra.
- Com regatas?
- As regatas são um recurso promocional. Estamos querendo chamar a atenção das autoridades. Também estamos fazendo palestras e exposições.
- Tudo bem, isto deve ajudar, mas se não houver uma razão econômica, de nada adiantará. É ela, razão econômica, que move o mundo.
- E o que o senhor faria, perguntou Sergey?

- Ainda não formei idéia a respeito, mas prometo ao senhor que a formarei. Estou aceitando o desafio, se é que se pode interpretar sua observação como tal.

- Os senhores aceitam uma cerveja? Temos também um tira-gosto de carapicu, intervinha Firmino no exato instante da incitação verbal.

Depois o grupo almoçou a moqueca de caçonete que Firmino havia preparado e pouco ou quase nada se falou à respeito durante o almoço, apenas foram feitos elogios ao sabor da comida. Firmino aproveitou para falar sobre o condomínio. Tentou vender alguma unidade para os iatistas e estes disseram que preferiam dormir em suas embarcações. Estavam mais acostumados.








sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

FÁBRICA NOSSA SENHORA DA PENHA

Atendendo solicitação de um amigo seguidor, (V.V.B.) estamos informando que aquele prédio onde hoje funciona uma repartição do Detran na Ribeira, funcionou a antiga Fábrica Textil Nossa Senhora da Penha, fundada em janeiro de 1875 por um senhor chamado Eugênio David. Durou até 1889, logo, 14 anos.


Fábrica Textil Nossa Senhora da Penha

Sobre os Mares, peço que veja a postagem datada de 12/11/09 sobre essa igreja.






Igreja Nossa Senhora dos Mares - Exterior e Interior

Sobre a Igreja da Lapinha, indicada por muitos como sendo gótica, lamento informar
que não é. Falta-lhe elementos desse estilo como a rosácea e os vitrais, básicos na classificação desse estilo.

As três igrejas góticas existentes em Salvador são a própria Igreja dos Mares (belíssima); a Igreja das Dorotéias no Garcia e a nossa esquecida Igreja do Rosário na Rua Lélis Piedade, aí em Itapagipe. Todas têm os elementos básicos de clássificação de uma igreja gótica, principalmente os vitrais e as rosáceas.



Igreja da Lapinha

FÁBRICA NOSSA SENHORA DA PENHA

Atendendo solicitação de um amigo seguidor, Vitor Vilas Boas,estamos informando que aquele prédio onde hoje funciona uma repartição do Detran na Ribeira, funcionou a antiga Fábrica Textil Nossa Senhora da Penha, fundada em janeiro de 1875 por um senhor chamado Eugênio David. Durou até 1889, logo, 14 anos.


Antiga Fábrica Textil Nossa Senhora da Penha

Na mesma solicitação, o referido amigo, faz referências à Igreja Nossa Senhora dos Mares, uma das três igrejas em estilo gótico existentes em Salvador e inclui a Igreja da Lapinha como sendo gótica. Não é!

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

CARNAVAL DE ANTIGAMENTE E DE HOJE quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Este blog se propôs em historiar a Cidade Baixa. Até agora foram mais de 150 postagens. Tratamos principalmente do seu espaço físico, mas também focamos aspectos sociais como, por exemplo, suas festas de largo e rua. Não fizemos, entretanto, nenhuma referência ao Carnaval propriamente dito, que envolve a todos e, como não podia deixar de ser, inclui também a Cidade Baixa.
Façamos algumas considerações sobre a grande festa, desde que estamos na época dela. A intervenção, quase um desvio, parece-nos apropriado.

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Não deixa de ser curioso e até incompreensível que a Cidade Bahia, onde se realiza as maiores festas de rua e largo de Salvador – Bonfim, Boa Viagem e Conceição da Praia – nunca tenha emplacado um Carnaval próprio como aconteceu, por exemplo, com a Barra e Ondina.
 
Tentativas existiram entre as década de 1950/1960, principalmente no Bairro do Uruguay com a realização de “gritos de Carnaval”, semana antes da grande festa, mas nos dias de Momo era uma desanimação total. Também na Ribeira fizeram-se algumas investidas, mas foi sempre um grande fracasso.

No Comércio, tão próximo do circuito da Cidade Alta, sempre se falou no seu aproveitamento em razão de suas ruas e avenidas espaçosas, mas ninguém se atreveu em fazer descer o Carnaval. Fala-se, especula-se, mas, na hora H, não se concretiza.

A nosso ver, numa eventual expansão do Carnaval, o Comércio nos parece um lugar mais apropriado do que, por exemplo, Aeroclube, Paralela que se são citados por alguns.
 
O primeiro, Aeroclube, vai “afunilar” seu acesso. O segundo, Paralela, é muito longe e é via de acesso às praias da Linha Verde. Nem pensar! Também é longe.




Então, o povo da Cidade Baixa não participava do Carnaval de antigamente?

Participava e muito! Era um povo festeiro, isto é, acostumado com festas. Desde as 9 horas da manhã de domingo, os bondes e ônibus, cada um a seu tempo, transportavam levas de mascarados em direção ao Elevador Lacerda. Era a subida para a folia.
Era magnífico ver aquela cena dos bondes abarrotados de foliões. Não havia sequer um passageiro que não estivesse mascarado. Todos, indistintamente, portavam as famosas máscaras de pano com suas orelhas e narizes avantajados. Contorno dos olhos e boca seguia a mesma linha de destaque.
A maioria vestia pijamas, algumas de seda ou grandes macacões coloridos.



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A Misericórdia e a Rua Chile já estavam lotadas. O povo ia em direção à Praça Castro Alves e voltava pela Rua da Ajuda ao som de conjuntos improvisados de repercussão e sopro. Antes da construção do viaduto da Praça da Sé, a massa virava na esquina do Café das Meninas. Do outro lado a Prefeitura. Quando o viaduto foi construído – 1947 – passava-se por ele e retornava-se na esquina da Joalheria Primavera.
 
Esta movimentação ia até as duas horas da tarde, quando a avenida esvaziava-se completamente. Isto mesmo! Parecia um dia comum. O povo ia almoçar em casa, os caretas também.

A avenida voltava a ter movimento a partir das 17 horas. O povo chegava para assistir ao desfile dos grandes clubes, Fantoches da Euterpe, Inocentes em Progresso e Cruz Vermelha. Entre 18.00 e 19.00 horas rodavam pela avenida os belíssimos carros alegóricos dessas agremiações. Quase sempre eram três carros por clube. No último deles vinha a Rainha, geralmente uma moça da alta sociedade.

As famílias colocavam cadeiras e bancos por toda a Avenida Sete e muitos empunhavam bandeiras com as cores de cada entidade. Tinha gente que portava um escudo iluminado no peito.

Após o desfile, a avenida esvaziava-se de novo. Estranho, não? As famílias, claro, se retiravam. Os mais jovens voltavam para casa para se preparar para os grandes bailes dos clubes, notadamente, Fantoches da Euterpe. Retornavam fantasiados, todos, indistintamente. Passavam apressados! A fila para entrar alcançava a Rua do Cabeça. Adentravam ao clube por volta das 10 horas ou até mais. A orquestra já tocava as grandes marchinhas daquele tempo.

Eu vinha pela madrugada,
pela avenida toda iluminada...
Você foi aquele Pierrot
que me abraçou e me beijou.
ALÁ, lá, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô...
Mais de mil palhaços no salão...
Arlequim ainda espera pela sua Colombina
no meio da multidão...
A Estrela Dalva no céu desponta,
e a Lua anda tonta,
com tanto riso, oh! tanta alegria...
ALÁ, lá, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô...
Aquela máscara negra não mais esconde seu rosto...
Queria ver o meu amor, sorrindo,
mas, amanhã, assistindo os ranchos a passar,
estarão rolando as lágrimas do meu coração...
Onde a avenida é toda iluminada?
Só haverá velhos palhaços e a solidão...
Oh! Minha Estrela Dalva!
Eu quero matar a saudade...
Não me leve a mal: hoje é Carnaval...

“Carnaval vem do latim carnelevament, modificado depois em carnevale! Quanto à origem, tem sido atribuído à evolução e à sobrevivência do culto de Ísis, dos festejos em honra de Dionísios, na Grécia, e até mesmo às festas dos "inocentes" e "doidos", na Idade Média, dando origem aos mais famosos carnavais dos tempos modernos”.

Segundo outros, o Carnaval era marcado ( ou ainda é) pelo “adeus à carne” ou “carne nada vale” dando origem ao termo Carnaval.

Mas há quem diga que em Roma realizava-se uma festa denominada Saturnália. Nela, um carro em forma de navio abria caminho em meio à multidão de mascarados. Seria um “carrum navalis” (carro naval). Será?




Esta semana, lemos uma entrevista do compositor Alaor Macedo. Ele está pretendendo reabilitar as antigas Escolas de Samba de Salvador.

Mas Salvador já teve Escola de Samba? Já! Lembramo-nos de duas delas, Filhos da Liberdade e Diplomatas de Amaralina. Haviam outras!

O negócio é meio complicado. Os avanços estruturais do Carnaval baiano são muito fortes. Mudar isto ou introduzir em meio a isto um desfile de Escola de Samba é muito difícil. Mas há uma idéia. Sempre há!

Que tal estruturar um bloco hoje existente em alas distintas. 10 alas de 300 foliões cada. Cada uma com um abadá de uma cor. Talvez um adereço na cabeça para dar mais vida. Está muito monótono o atual visual. Passa o carro. A grande cantora dá um show e em seguida vêm a moçada com uma lata de cerveja na mão, alguns andando como se nada estivesse acontecendo. Podes crer! É só olhar a televisão daqui a uma semana.

Mas isto não é Escola de Samba? Nunca será. Poderá ser Escola de Axé. Por aí. Um dia chega-se lá e quem viver verá.