sexta-feira, 6 de novembro de 2009

HIDROPORTO DA RIBEIRA EM ITAPAGIPE

Uma das grandes atrações da Penha nos idos de 1940 era a descida dos hidroaviões no Canal da Penha ou Canal da Ribeira como alguns costumam chamar. A foto aérea vai nos mostrar esse canal muito melhor que palavras:
 
Canal da Ribeira

É bastante nítida a faixa mais escura do mar, denotando ali a existência de um canal de uma profundidade aproximada de 3 a 7 metros, mesmo nas marés baixas. Uma bóia amarela sinalizava o principio do mesmo.

Dessa bóia até em frente á atual Marina da Penha distavam 1.946 metros e daí até o Hidroporto da Ribeira eram mais 676 metros, num total de 2.572 metros. Os aviões pousavam de fora para dentro e nunca ao contrário e era uma atração constante aos moradores de Itapagipe.

Quando um avião começava a fazer a manobra de pouso, dezenas de pessoas corriam em direção à Ponta da Penha para assistir a “amarrissagem” do aparelho.

Nota: o termo “amarrissagem” está sendo usado para definir o pouso de aviões no mar. Aterrissagem, é na terra.

O Hidroporto da Ribeira começou a funcionar no ano de 1932, mas a atual estrutura só começou a ser implantada em 1937 e inaugurada no dia 18 de maio de 1939 por iniciativa dos americanos sediados em Salvador, ao tempo da guerra.

Tinha uma importante missão. Os aviões que o usavam faziam o patrulhamento da costa contra submarinos inimigos.

Foi o segundo aeroporto de Salvador, desde que o Aeroporto 2 de Julho foi construído em 1925 pelo engenheiro francês Paul Vachet por solicitação da “Compaigne Generale d’Enterprise Aeronautique Latecoère". Tinha uma pequena pista de grama. Somente em 1943 o aeroporto de Salvador ampliou-se com pistas asfaltadas, até ganhar a forma que hoje tem, inclusive com novo nome – Luiz Eduardo Magalhães.

Pesquisas realizadas dão conta que nas proximidades onde hoje está o Hidroporto da Ribeira, foi construído em 1922 um píer de madeira. Teve a finalidade de servir de passagem para a 1ª viagem do Almirante Gago Coutinho sobre o Atlântico Sul. Também este píer serviu para aproximação de hidroaviões da antiga companhia Nyrba da qual surgiu a Panair do Brasil. Seu nome completo era Nyrba do Brasil S.A e fazia a linha Santos-Belém.O rústico píer servia de base para reabastecimento.

Em 1939 o então presidente Getúlio Vargas desembarcou nesse Hidroporto com vistas às comemorações da descoberta do primeiro poço de petróleo no Brasil, mais precisamente no subúrbio de Lobato, ali defronte. Era o princípio da Petrobrás, a grande estatal brasileira. Em 3 de outubro de 1953 ela foi inaugurada.

Há quem diga, entretanto, que o poço de Lobato não teria sido o primeiro a ser descoberto em terras brasileiras. A primazia seria de Riacho Doce em Alagoas onde foi encontrado um poço de gás de petróleo em 1936, numa profundidade de 250 metros. Não se sustentou. Foram apenas vestígios!

Hoje, no antigo Hidroporto, funciona uma das inúmeras marinas da Ribeira. Funcionava também um ótimo restaurante todo avarandado com vista para a enseada. Hoje a área se encontra abandonada e depredada. Incrível! Fechou por falta de freqüência.

 
Um grande hidroavião

Um pequeno hidroavião Catalina



Hidroporto da Ribeira

Ao longo dos anos o Hidroporto da Ribeira serviu para muitas coisas. Foi sede da Associação dos Rádios Amadores da Bahia, Clube dos Sargentos da Marinha, foi restaurante e hoje é uma marina – Marina Porto dos Tainheiros. Também nos áureos tempos do remo da Bahia, o Clube de Natação e Regatas São Salvador, promoveu grandes festas em seu salão principal.



Foto via satélite do Hidroporto da Ribeira
Google




quinta-feira, 5 de novembro de 2009

REVEILLON DA BOA VIAGEM- FESTA DE ITAPAGIPE

Até meados do século passado, não existia o réveillon da Barra com todo o esplendor que hoje conhecemos. A sociedade comemorava a passagem do ano nos grandes clubes, absolutamente reclusa e limitada. Já o povão preferia a Boa Viagem para as comemorações da virada do ano. Os veranistas também!

Desde as primeiras horas da tarde do dia 31 de dezembro de cada ano, dezenas de milhares de pessoas se reuniam no Largo da Boa Viagem e adjacências para as comemorações da passagem de um ano para outro.

O trânsito era modificado. Os veículos que vinham da cidade seguiam pela Avenida dos Dendezeiros em direção ao Bonfim. Daí a população caminhava pela Rua da Imperatriz até alcançar o Largo da Boa Viagem. Quem morava na península fazia o mesmo trajeto a partir do Bonfim. Valia a pena!

O largo era efusivamente iluminado com gambiarras de lâmpadas. Enchia-se de barracas e quermesses bem ao gosto dos baianos daquela época. As de comida se instalavam ao longo da Ladeira de Monte Serrat, tanto do lado do antigo Campo do Tupy à direita de quem sobe quanto do lado da praia, à esquerda.

Discute-se e comparam-se os gostos de antigamente com os de hoje. Passar a noite em um largo, andando de um lado para outro, parando numa barraca de jogo para ganhar uma garrafa de Cinzano se a argolinha de plástico se prender ao seu gargalo ou atirando com um rifle para derrubar uma carteira de cigarros Astória e lá pelas tantas, sentar numa das barracas de comida e pedir uma Brahama ou uma gasosa de maçã da Fratelli Vita para acompanhar um belo prato de sarapatel ou de xinxim de galinha. Quando o Novo Ano chegava, todos se abraçavam indistintamente, fossem ou não conhecidos. Os mais eufóricos chegavam a mergulhar no mar apenas com a roupa de baixo. Chamuscavam-se de água espumada na batida dos braços sobre a superfície. O primeiro banho de mar do ano. Que todos sejam assim!

Outros procuravam as barracas com samba de roda. Entravam na brincadeira. Vez em quando eram umbigados pela mulata que rodopiava ao centro. Eram obrigados a fazer alguns passos, desajeitados, mas faziam. Rapidamente, umbigava-se outra mulata que era puro sorriso. Esta, ousadamente, levantava ligeiramente a barra do vestido acima do joelho e mostrava-se um pouco. Só isto! Era o bastante para saírem juntos em direção à praia. Acordavam com o sol a pique. A procissão do Senhor dos Navegantes estava chegando. Era o cume da grande festa.

Está mostrado um dos panoramas da grande festa. Existiam outros. A maioria das famílias residente em Itapagipe, após os comes e bebes, retornava às suas casas e por volta das 10 horas estava de novo na Boa Viagem para assistir a chegada da procissão marítima.



Que graça ou maravilha há nisto, haverá de perguntar o jovem de hoje? Da mesma forma, inversamente, o jovem de ontem se pudesse, perguntaria que graça tem um réveillon numa Barra lotada que a meia noite se ilumina com fogos de artifícios. Após isto a maioria se dirige para as mesmas barracas, hoje de praia, antes de largo, para os “pagodes” que antes se chamavam samba de roda.

Ou então se dirigem aos grandes espaços de shows e sentam-se numa mesa a ouvir os artistas famosos num palco em frente. O som é ensurdecedor. Vez em quando se levantam e ensaiam uma dança qualquer com os braços em riste, mostrando alegria. Na mesa ao lado, ninguém se manifesta. Conversam entre si. A limitação do espaço não cria muitas opções.

Percebam então que tudo é muito relativo. Há prós e contras. Antes era uma maravilha, hoje também é uma maravilha, apesar da distinção de água para vinho entre as duas épocas. Culturas diferentes. Estágios social-econômicos completamente diversos.

Quis Deus que o autor desse blog estivesse presente naquele tempo e participasse também dos acontecimentos dos tempos atuais. Uma testemunha ocular de duas épocas, de duas fases de vida. Poderá opinar de cátedra qual foi ou é a melhor. Não vai se basear em pesquisas e opiniões alheias. Tem a sua própria!

Antes, porém, de torná-la pública nesse blog, vamos fazer uma descrição mais detalhada da Festa da Boa Viagem, hoje praticamente restrita à procissão do Senhor Bom Jesus dos Navegantes.

Todas as barracas eram feitas de pau e palha de coqueiro na cobertura. Interna e externamente recebiam singular decoração à base de papéis crepom e laminados em prata ou ouro. Flor por todos os lados, natural ou artificial. Uma mesa ao centro aparentada com toalha bordada à mão vinda da Ilha de Maré. Nas paredes quadros de Jesus e de Nossa Senhora. Em meio deles, o retrato do dono do pedaço, ou da mãe dele, emoldurado em dourado. No chão, folhas de pitangueira misturada com areia. Incenso. Muito incenso! Todos de branco. A família inteira. Sim! As barracas eram de famílias do subúrbio de Salvador. Modestas é verdade, mas famílias. Vinham fazer seu réveillon na Boa Viagem. Como não tinham recursos, faziam comércio de vendas de bebidas e comidas.



Cada barraca tinha o nome estampado na frente: Filhos de Oxossi– Mãe Isaura – Flor da Boa Viagem – Flor do Bonfim – Barraca da Felicidade e por ai seguia essa manifestação interessantíssima da alma popular. No cardápio escrito em folha de caderno, estavam lá relacionadas a maioria das comidas baianas: caruru, vatapá, xinxim de galinha de quintal, moqueca de vermelho, efó de língua de vaca, feijoada, sarapatel, mocotó, fatada, moqueca de miolo de boi. Tão diferente dos perus fatiados de hoje com calda de laranja ou com cobertura nevada e para beber champagne Moet Chandon. Naqueles tempos era Brahma mesmo ou uma cachacinha de Santo Amaro. Tinha também a Jurubeba Leão do Norte.

Um dia, a Prefeitura achou por bem proibir as barracas. No lugar instalaram uns toldos enormes e em cada um deles cada comerciante se virava. Três ou quatro no mesmo espaço. Despersonalizou toda uma tradição. É uma das razões do esmorecimento das Festas de Largo da Bahia.

Os barraqueiros e as barraqueiras se foram. Não se sentiram mais à vontade e se afastaram das comemorações. Não se percebeu que as antigas barracas não eram um simples negócio. Havia uma almágama de ganho e de promessa, quase um sincretismo.

A festa da Boa Viagem durava mais de uma semana. Em verdade, eram nove dias. Os dias das Novenas. Os dois maiores dias, digamos assim, eram o dia 31 de um ano e o 1º do outro. Naquele, Senhor Bom Jesus dos Navegantes era conduzido em procissão marítima até o cais do Porto de Salvador e daí até a Basílica de Nossa Senhora da Conceição da Praia em cortejo a pé.

No dia seguinte, a imagem volta a Boa Viagem numa grande procissão marítima com a participação de dezenas de embarcações de todos os tipos de caiaque à cruzador da Marinha.

Aqui vale lembrar que a imagem de Nosso Senhor dos Navegantes foi trazida ao Brasil em 1750 por marinheiros portugueses que a reverenciava e essas homenagens cresceram ao longo dos anos ao ponto da festa da Boa Viagem ter sido uma das mais tradicionais e queridas da população.

Galeota Gratidão do Povo

Cabe também citar a galeota que conduz o Santo na procissão marítima. Chama-se Gratidão do Povo. Por quê? Foram os fiéis de toda Salvador, especialmente de Itapagipe que, através doações e trabalho voluntário de carpinteiros e pintores, permitiram a construção dessa embarcação, levada ao mar às 16 horas do dia 27 de dezembro de 1891. Antes, ela foi benta pelo cônego Ludgero Humildes dos Prazeres.

Antes disto, outra galeota pertencente ao capitão Antônio Cavalcante Pompeu de Albuquerque, fazia a procissão.

Após certo período, o governo se encarregou do transporte emprestando outra galeota de nome “Imperial”, até a Proclamação da República, quando as relações da Igreja Católica e o Estado sofreram pequeno estremecimento. Conta-se que, quando a procissão passava em frente ao Forte de São Marcelo, era tradicional a fortaleza disparar 21 tiros de festim de canhão em homenagem ao evento. Em 1890 houve um pequeno grande engano: dois desses tiros foram verdadeiros e um deles atingiu um navio norueguês que se encontrava ancorado nas proximidades do porto carregado de bacalhau, causando grande pânico aos participantes da procissão e aos incrédulos noruegueses. No ano seguinte os santos foram conduzidos por um barco baleeiro emprestado pelo comerciante Agostinho Dias Lima. Foi a partir daí que se resolveu construir a galeota Gratidão do Povo.

Para os que gostam de detalhes, a galeota tem 60 palmos de comprimento, 12 de boca, 6 de pontal. O anjo Arcanjo tem 6 palmos de altura e foi feito no Liceu de Artes e Ofícios pelo Sr. João Guilherme. A ramagem e o emblema da popa foram feitos pelo Sr. João Batista.

Após o reboque efetuado por uma embarcação da Marinha, a galeota é conduzida a 12 remos até a praia por aprendizes de marinheiros. Ai os componentes da Devoção do Senhor Bom Jesus dos Navegantes, homens fortes, conduzem os dois santos, Bom Jesus e Nossa Senhora que também participou da procissão, até o interior da igreja.

Aí começa a parte profana da festa, conforme é constantemente dito pelos padres. Discordamos totalmente. Não enxergamos nenhuma profanação em um povo comemorar o acontecimento cantando e dançando. É uma manifestação de alegria! Chama-se também integração popular.

A Igreja Católica precisa rever essa impressão. Soa mal! É mal educada! O povo está ali por causa dos santos. Não fosse isto, não haveria nenhuma razão para alguém comparecer. Leva flores. Procura tocar nas imagens. Pedem sua benção. Isto é profanação?



Trajeto da procissão

Por fim, nossa opinião. Qual foi a melhor época? Sou das duas, Estive na anterior e vivencio a presente. Opino pela de antigamente, sem nenhum receio de errar. Também naquele tempo era jovem.Não podia ser diferente!

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

FITINHAS DO SENHOR DO BONFIM

Talvez tenha sido notado que ainda não nos referimos às fitinhas do Senhor do Bonfim. Estivemos na Lavagem onde a maioria das pessoas portava uma delas no pulso e não nos referimos às mesmas. É que estávamos muito entretidos na grande festa. Esquece-se de tudo. É tanta beleza, tanta euforia e tanta fé, que passou despercebida a citação do tradicional amuleto. É um talismã muito significativo e prático no seu uso.

Deve ter inspirado a moda dessas pulseiras que procuram significar alguma coisa, pelo menos é precedente a qualquer uma delas.

Fitinhas do Senhor do Bonfim

A fitinha do Senhor do Bonfim tem uma significação importante desde que veiculada à devoção de um santo que todo baiano acredita ser milagroso. Veicula fé e esperança, ou seja, algo que se deseja e quem não deseja alguma coisa? Diz-se que ela foi criada em 1809 e era conhecida como “medida do Senhor do Bonfim” pelo fato de que media 47 centímetros de comprimento, que é exatamente a medida do braço direito da estátua do santo que se encontra no altar-mor da igreja.

Nesse tempo usavam-na no pescoço e nelas eram colocadas medalhas e figas alusivas ao santo. Eram de seda e o nome do santo era bordado à mão por beatas que se postavam ao lado da igreja. De resto davam um acabamento com tinta dourada ou prateada. Comenta-se que a Irmandade quer reviver essa tradição.
Depois veio a moda do uso no pulso e junto uma significação folclórica religiosa: ao amarrá-la, o usuário deve dar três nós e para cada nó formalizar um desejo. Diz-se que esses pedidos serão satisfeitos quando o tecido se desgastar! Não é bem assim! Em verdade, originalmente, as fitas são adquiridas por quem tinha alcançado uma graça. O beneficiado levava um retrato ou uma escultura em parafina ou cera da parte do corpo curada e, como lembrança, comprava uma fita do Senhor do Bonfim. É como se fosse uma troca.

Com o passar dos tempos e a repercussão alcançada em todo o mundo, os turistas vieram conferir o costume e como que ampliando a fama das fitas, deram a elas poderes futuros: “Três nós e três pedidos que possam ser alcançados, tão logo as fitas se desgastem no pulso”.

Claro que é um simbolismo, ou seja, algo imaterial preso à essência e ao mistério das coisas. Todos querem que algo se concretize em suas vidas e no instante que estão em plena Colina Sagrada, diante da Igreja Milagrosa, amarram no pulso as belíssimas fitinhas com a esperança no coração. Não custa nada tentar!

Por essa e outras razões é incompreensível a atitude de certos padres de hoje contra o costume popular-religioso da venda e uso das fitinhas. Dizemos com muita propriedade, “padres de hoje” por que muitos de antigamente até benziam as fitinhas na sacristia, nos intervalos das missas.

Esses mesmos “padres de hoje” são contra toda manifestação popular que não seja estritamente religiosa. Em nosso entendimento, essa é uma posição absolutamente contrária ao crescimento da própria igreja católica. Já falamos isto quando da postagem sobre a Lavagem! Quando se fazem fitas e se promovem festas comemorativas ao santo, até mesmo quando os Trios Elétricos saem às ruas em razão de uma data comemorativa da igreja, está se divulgando a religião católica de alguma maneira e forma.
 
A conclusão que se chega é que a religião católica está precisando urgentemente de “padres marqueteiros”. Não existem padres sociólogos, pedagogos, filósofos e tantos outros, porque não também padres que entendam de marketing? Enquanto isto os “marqueteiros contrários”, sentindo a problemática, procuram denegrir esse simbolismo fortíssimo, divulgando inclusive que “as fitinhas nem na Bahia são fabricadas”. Deram ao trabalho de pesquisar o mercado e descobrir a indústria que fabrica as referidas fitinhas e seu processo de fabricação e outros detalhes. Por exemplo: são produzidas dois milhões de fitas-mês o que corresponde a 4.000 metros de tecido. A indústria chama-se “Fita Têxtil" e está localizada perto de Campinas, São Paulo.

Em verdade, não poderia ser de outra maneira. Salvador não conta mais com indústrias têxteis. As que existiam se acabaram como foram os casos da Luiz Tarquínio e Machado.

As fitas têm 10 milímetros de largura e 43 centímetros de comprimento, o equivalente exato a duas voltas do pulso de uma pessoas. Suas cores são as mais variadas possíveis e todas têm a mesma saída, isto é, não há uma cor preferencial; somente em anos de Copa o verde e o amarelo se sobressaem.

Deixa-nos ver se há mais alguma informação. Sim, tem uma de muito mau gosto: “as fitas têm um sabor paulista”.

Achamos que tudo isto que é publicado tem a intenção de materializar ao máximo o que é um simbolismo precioso e intransferível da Igreja Católica. Enfim, um patrimônio construído há centenas de anos. Precisa ser preservado! E esta igreja não dá nenhuma ajuda, muito pelo contrário, procura denegrir o uso da mesma pelos fiéis. É incompreensível!

Há ainda um detalhe. A venda das fitinhas proporciona rendimento para milhares de pessoas. Deve sustentar centenas de famílias. Então, elas também têm uma razão social. É para se pensar!
 

A ex-secretária de Estado dos Estados Unidos, Condoleezza Rice, saindo da Igreja do Bonfim com uma fita no pulso.

LAVAGEM DO BONFIM - FESTA DE ITAPAGIPE


Depois do Carnaval a Lavagem do Bonfim é a maior festa popular de Salvador. Tem seu ápice no alto da Colina do Senhor do Bonfim em Itapagipe, logo, é uma festa de Itapagipe. Aliás, as duas maiores festas de largo da Bahia, como são assim chamadas, acontecem na península. A outra é a festa da Boa Viagem. 

Colina do Bonfim

Coincidentemente, as duas têm a participação extraordinária de Nossa Senhora da Conceição da Praia, padroeira da Bahia. A lavagem sai da Conceição da Praia e o Senhor Bom Jesus dos Navegantes sai em procissão também da Conceição da Praia.

Conceição da Praia

A Lavagem do Bonfim é realizada na segunda quinta feira do mês de janeiro.

Antigamente, a fama não estava no dia da lavagem e sim no Sábado e Domingo do Bonfim bem como na Segunda Feira Gorda da Ribeira. A lavagem era apenas um complemento da festa maior. Estamos nos reportando às décadas de 1940 até 1960, mais ou menos. Um pequeno grupo de “baianas”, reunia-se no sopé da ladeira principal, contidas por um cordão de isolamento e alguns curiosos e às 10 horas, esse cordão era retirado e elas subiam em direção à igreja para a tradicional lavagem do templo.
Com o tempo, o número de “baianas” foi crescendo e aí também se juntou a Banda Militar dos Dendezeiros, mais alguns populares, sempre em maior número, contudo, a concentração continuava sendo ao pé da ladeira e já se tornara um espetáculo bonito de se ver. Já era como que uma onda branca alçando a colina como que surfando. Arranjos de flores e perfumes contidos em belos potes eram levados sobre a cabeça.
Nesse tempo, só as baianas tinham o direito de lavar a parte interna da igreja. A parte externa era lavada por devotos não caracterizados. As imagens mostram mais ou menos este detalhe:
Baianas no adro


Entrando na igreja

Lavando as escadarias

As baianas, enquanto realizavam a lavagem simbólica, entoavam hinos em homenagem a Oxalá que, no sincretismo religioso, representa Senhor do Bonfim.

Orixás!
 Ai veio o “toque do silêncio” que foi dado pela Arquidiocese na década de 1940. O pároco da igreja era o Padre Lourival, que foi diretor do Colégio D. Macedo Costa, propriedade do cônego Anibal Matta. O mesmo fazia parte da cúpula dirigente do clero àquela época.

Padre Lourival sempre foi um homem muito rigoroso, quase intransigente. A turma do Dom Macedo Costa que o diga. Quando assumiu a paróquia do Bonfim, já nas primeiras missas celebradas por ele, expulsou aos gritos, diversas moças que portavam um vestido mais curto ou um decote um pouquinho mais ousado. Hoje, seria processado por crime de constrangimento.

Portador de tamanha intransigência, induziu a Cúria de Salvador a proibir a lavagem do interior da Igreja e em 28 de janeiro de 1948 pelo chamado “mandamento número 3” foi decretada esta proibição. Ei-lo na íntegra:

Fica proibida qualquer espécie de lavagem nos templos eclesiásticos, mesmo que simbólicas, antecipadas de cortejos carnavalescos, às vésperas de qualquer festividade religiosa nas paróquias, igrejas, reitorias e capelas. Salvador, 28 de janeiro de 1948".

Verdade que esta não foi a única proibição que se tem notícia. Em 1890 aconteceu a primeira delas. Só durou um ano. No seguinte, o interior do templo voltou a ser lavado.

No ano de 2009 aconteceu um fato deveras interessante e controverso. Realizava-se a lavagem das escadarias. O povo concentrado no largo em frente à igreja e de repente, um padre abriu uma das cinco janelas do alto do templo e começou a acenar uma imagem miniatura do Senhor do Bonfim. Foi o bastante para certos setores de a imprensa noticiar “que após mais de 100 anos, finalmente a Igreja foi aberta ao público”.

Apenas uma impressão 
A impressão que se tem é que foi permitida a lavagem do interior do templo. Não foi isto que aconteceu! Ninguém passou dos gradis que continuaram fechados.

Efetivamente, a igreja não participa da organização da lavagem e não a aprova. A organização hoje pertence à Empresa Salvador Turismo, ex-Emtursa. Trata-se de uma empresa do setor do turismo sediada em Salvador. Está no mercado desde 1979.
E por que a igreja não aprova a Lavagem do Bonfim, uma festa extraordinária em homenagem ao grande Santo? É uma pergunta que se faz a todo o momento. Os turistas não compreendem e muitos baianos também não.

Alega a igreja que a festa é profana! Não se pode aprovar uma coisa profana, isto é, que não pertence à religião, que não é sagrado.

Estamos diante de uma grande contradição. A igreja católica tem nas mãos a maior manifestação religiosa de um povo e a joga fora sob o fundamento de que é precedida por cortejos carnavalescos, esquecendo-se que o próprio Carnaval faz parte do calendário católico. É bastante ver que a data da Páscoa é determinada pela data do Carnaval que é de 40 dias depois. Isto é citado em livros religiosos, à profusão.

Em Portugal uma emissora da igreja promove e patrocina as touradas daquele País e mais ainda, a maioria das praças de touros, pertence à Casa da Misericórdia, que é uma instituição eminentemente católica. Mas não precisamos ir muito longe. Em nossa capital, a Rádio Excelsior, fundada em 1934, uma emissora eminentemente católica, com direção católica ou, pelo menos, orientação católica, há alguns anos atrás, patrocinava a abertura do Carnaval baiano às quintas-feiras, com a passeata do Rei Momo, sua rainha e princesas, inclusive custeando suas vestimentas, a do rei bem pesada, mas a das meninas quase sem nenhum peso, desde que sumárias e nunca soubemos de nenhum mandamento contrário a essa “brilhante” iniciativa. Isto foi no tempo do saudoso Gerson Macedo, antigo morador de Itapagipe. Sabíamos até o nome da costureira que fazia as roupas do Rei Momo e de seu séquito de beldades: Dona Cabocla que morava perto da antiga sede dessa rádio, ao lado do antigo Liceu de Artes e Ofícios, ou nas próprias dependências dessa instituição. Depois essa rádio mudou-se para a Praça da Sé em prédio construído no local, fora dos padrões coloniais dos demais existentes na área. Não se compreende como a Prefeitura tenha aprovado a construção desse imóvel que só faz destoar o conjunto arquitetônico da grande praça.
E o que dizer das touradas? Profanas e cruéis! Muitas são patrocinadas por órgãos da própria igreja católica como as Casas de Misericórdia da Espanha, reconhecidamente uma instituição com enorme vínculo com a igreja católica. Ela é proprietária da maioria das praças de touros na península ibérica. A Rádio Renascença em Portugal apóia e organiza touradas naquele país. Qualquer praça de touro em Portugal tem sua capela e até um capelão.

Praça de touro

As autoridades eclesiásticas estão redondamente equivocadas no enfoque que estão fazendo dessas manifestações populares. O posicionamento deveria ser totalmente diferente. Deveriam reconhecer que essas manifestações do povo é um dos pilares da expansão das religiões. Sem o povo, sem gente, nada cresce. Não se formariam mais padres, as igrejas ficariam vazias como já estão e poderão ficar desertas, um dia. Não estão sabendo aproveitar a massa que se congrega ao redor das igrejas em dias de festa e crescer com ela.

Analisando a qualidade das comemorações dos dias de hoje, conclue-se que estão bem melhores, desde que mais civilizadas. Na antiguidade, certos povos comemoravam nas arenas os combates entre homens em lutas mortais e às vezes entre homens e animais, ainda mais mortais.


Era a cultura da época! E o que dizer das touradas? Muitas dessas comemorações eram precedidas de cerimônias religiosas ou, pelo menos, manifestações religiosas. Nas arquibancadas os padres vibravam junto com os reis ou fingiam que vibravam, senão eles próprios teriam que descer às arenas e combater. Aí os reis davam grandes gargalhadas! O que tinha de rei sádico, não é brincadeira!

Outro ponto controverso foi a proibição da participação dos Trios Elétricos na Lavagem, fato ocorrido em 1998. Sem dúvida que os Trios são uma grande atração e uma atração eminentemente baiana. Foi aqui inventado. Osmar Macedo foi o seu criador. Também não há nenhuma dúvida que os Trios Elétricos tocam músicas que podem ser consideradas inapropriadas para uma festa como a Lavagem do Bonfim, de cunho religioso. Mas, ninguém pensou em aproveitar a força popular dos Trios Elétricos para homenagear a grande festa e o Grande Santo. Era só instituir um concurso de “a melhor música cujo foco fosse obrigatoriamente a lavagem em si e o Senhor do Bonfim” ou se poderia premiar o trio com melhor decoração relativo ao evento. Só poderiam ser tocadas essas músicas. Seriam produzidas maravilhas! Também poderia ser limitado o número de trios. A escolha seria feita por sorteio seis meses antes, a fim de se prepararem e compor as músicas.

A lavagem chegando ao Bonfim. Um milhão de pessoas




Lindo de se ver!


Noutro ângulo

Mas a lavagem continuou no espaço que lhe era possível fazer, o adro. Não foi previsto no mandamento essa possibilidade, senão seria feita. Mas há de se reparar uma grande lacuna no decreto de proibição da igreja: “às vésperas de qualquer festividade...” Em sendo assim, no dia da festividade haveria de poder! Seria no domingo, dia da festividade!

Em seguida, não sabemos se através de novo mandamento, a proibição se estendeu ainda mais e se fechou também o adro. Ninguém podia ultrapassar os gradis. Mas, segundo consta, teve gente que pulou a divisão de ferro e fez a sua lavagem particular Agora, só falta novo mandamento fechando as ladeiras que dão acesso à colina, mas ainda assim, o povo haverá de alcançá-la pela relva da encosta.

Não adianta! Está na alma dessa gente e aí estando, não se impede com mandamentos.

Analisando com mais profundidade a questão, concluímos que gente muito intransigente e sem raízes populares, sem nunca ter visto uma lavagem sequer, a fim de lhes proporcionar uma idéia mais exata do que ela seja e representa, toma uma medida extremamente impopular e depois o próprio Papa, em sua recente visita ao Brasil, comenta e estranha o crescimento das outras religiões em nosso país. São essas e outras as causas. Como já dissemos, a igreja católica tem nas mãos a maior manifestação religiosa de um povo e a joga fora sob o fundamento de que é precedida por cortejos carnavalescos!

Restaram as escadarias e é nelas que atualmente se realiza a famosa lavagem em um ato apenas simbólico, quanto insistente. As baianas junto com o povo fazem de contas que lavam os 10 degraus em dois lances, que dão acesso ao templo.


A igreja e sua escadaria
Quando se referem as "escadarias do Bonfim" julga-se que se tratam de "monumentais escadarias". Não é! São apenas 10 degraus em dois lances de 5. É mais folclórico do que grandioso. 

Dizíamos linhas atrás que a lavagem tinha começo no pé da ladeira principal e foi crescendo. Um dia os organizadores resolveram fazer a concentração no Largo de Roma. Noutro ano passaram para o Largo dos Mares até que chegou à praça em frente à Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia. Um aumento de distância considerável, tudo em proporção direta ao crescimento da participação popular. De pouco mais de 100 metros que é o comprimento da Ladeira do Bonfim para 6.878 metros em linha reta da Conceição da Praia até a Igreja do Bonfim. Quando saía do Largo dos Mares até o Bonfim eram 1.833 metros e do Largo de Roma até a Igreja eram 1.203 metros, medidas estas tomadas via satélite.

Sobre o começo da lavagem do Bonfim há muito controvérsia. Tem autores que registram presença de personalidades no século XVIII em plena Conceição da Praia ao inicio da lavagem. Citam comentários, etc. etc. Talvez fosse a própria festa da Conceição de 8 de dezembro. Contra essas impressões, registre-se que nesta época nem existia ainda a Av Jequitaia ligando o que era a cidade antigamente à península. Não havia como "passear" nesse trecho. 

Voltando às sinuosidades do trajeto, a real distância que os fiéis têm que percorrer da Conceição ao Bonfim chegaria aos milagrosos 8.000 metros. Haja coração e muita fé! "Quem tem fé vai ao Bonfim a pé", já dizia o povo. É uma verdade!

Mas tem gente que não agüenta por razões de idade, claro! Tem autoridade que faz questão de participar do cortejo. Inicia-o normalmente na Conceição da Praia, caminha pela Miguel Calmon sob uma chuva de papel picado e consegue alcançar a Associação Comercial. Daí, em carro oficial, é conduzida até o sopé da colina, toma uma cervejinha que ninguém é de ferro, acompanhada de um suculento acarajé que a Baiana faz questão de oferecer, e quando o cortejo alcança esse ponto, assume a frente do mesmo e, triunfalmente, sobe a ladeira junto com as baianas.

“Isto é que é homem de fé” comenta o povo admirado e tome-lhe votos nas próximas eleições.

Contudo, a maioria do povo cumpre o percurso por inteiro, verdade que parando aqui e ali, nos bares, restaurantes e afins do longo percurso.



Igreja de Nossa Senhora da Conceição


Concentração
Aqui comeaça atualmente a lavagem - Em frente à Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia - Padroeira da Bahia.

Hoje a Lavagem começa na Conceição da Praia. Não tem hora para chegar. Antigamente, a lavagem começava às 10 horas, quando as baianas iniciavam a subida da ladeira e ao meio dia a praça já estava vazia. Hoje não! As comemorações se estendem até altas horas da madrugada com muito samba nas barracas, muita paquera e “Viva o Senhor do Bonfim”, grito unânime de todos. É um espetáculo muito bonito de se ver. A maioria do povo se veste de branco em homenagem a Oxalá que é, no sincretismo religioso, o próprio Senhor do Bonfim.

Mas Oxalá não é uma divindade do Candomblé? É mais ou menos por aí! É o mais importante deus iorubano. Representa o princípio de tudo, inclusive de criar o mundo e determinar o fim da vida. É o pai da brancura, da paz e da união. É contra a violência e gosta de limpeza e pureza. Seus filhos devem vestir branco todas as sestas feiras. Daí a indumentária de todos que vão à Lavagem do Bonfim. Se surgir alguém vestindo alguma coisa além do branco, é de se acreditar que deva ser um turista norueguês, completamente pasmo pelo que está assistindo, mas gostando.

Águas de Oxalá

Oxalá é muito ligado à água, daí a sua maior festa chamar-se “Águas de Oxalá” e por ai já se sente e se compreende as ligações com a lavagem do Senhor do Bonfim. É uma das hipóteses de suas origens. A outra é que teria começado com a promessa de um determinado cidadão português, combatente na Guerra do Paraguai que fizera o voto de, caso permanecesse vivo em meio àquele fogo cruzado, lavaria o adro da Igreja do Bonfim e o fez segundo alguns. O homem sobreviveu! Isso nos faz pensar que sendo português o referido militar, tinha conhecimento que em sua terra a lavagem das igrejas já era uma tradição. Vou fazer como fazem em minha terra, teria pensado ele! É forte essa vertente!

Outros descartam a origem da lavagem como sendo africana. Teria havido apenas uma adesão. O Candomblé é muito sincrético e num certo momento, as baianas aderiram à lavagem que já tinha alguma semelhança com a grande cerimônia das “Águas de Oxalá”.

Mas não param aí as dúvidas da origem da lavagem. Não devemos e nem podemos esquecer os romeiros, àquelas pessoas que vinham do recôncavo baiano para agradecer as graças alcançadas em todo o ano. Muitos deles eram parentes dos saveiristas que traziam lenha para o consumo da capital e aportavam no Porto da Lenha e aquel’outros que traziam frutas, farinha e legumes e por sua vez chegavam ao Porto do Bonfim, ambos ao pé da Colina. Tudo gente simples e que passava o dia no alto do Bonfim, entre o largo e a igreja. Os mais abastados alugavam as chamadas “casas dos romeiros”. Rezavam, pagavam as promessas, mas também se alimentavam. Não jejuavam que é coisa de oriental. Assim as refeições ou eram feitas no largo ou nas escadarias do templo. Naturalmente que no afã, sujavam o espaço. E ai essas escadarias eram lavadas e daí para o templo foi uma questão de vontade de deixar tudo um primor. Para tal usava-se uma solução que se fazia de ervas aromáticas, principalmente manjericão e macaçá. O preparo era colocado em potes e enterrado durante três meses.

Outra vertente acha que a lavagem teria começado com os escravos que eram ordenados a lavar o templo dias antes da grande festa. Não se sustenta! Claro que a igreja devia ser lavada e esse trabalho era feito pelos escravos sem as conotações que hoje se fazem.

Ainda outros creditam o começo da lavagem aos festejos à São Gonçalo que eram realizados na Colina. Havia muita música e dizem que muitos dos seus componentes entravam na igreja para fazer samba de roda e um simulacro de lavagem. 

Falta-nos fazer uma descrição da Lavagem, seu formato. É muito difícil esta tarefa! São oito quilômetros de acontecimentos ou quase isto.

O povo vai chegando por volta das 8 horas. Os mais fervorosos vão à igreja da Conceição da Praia se ela ainda estiver aberta e os de menos fé se dirigem ao Mercado Modelo. O grande shopping de artesanato já se acha repleto de turistas e os dois grandes restaurantes do 2º piso, Maria de São Pedro e Camafeu de Oxossi, começam a servir a tradicional “feijoada da Lavagem”.

É assim mesmo, cedinho. Antes de iniciar à caminhada rumo à Colina, muita gente da terra costuma “forrar” o estômago com esse forte prato brasileiro, em meio ao espanto dos turistas que não entendem como esta gente, que vai andar oito quilômetros em baixo de um sol de quase 50º, pode comer “aquela coisa gordurosa”. 

Uma bela feijoada
Realmente é incrível, mas cada um tem sua técnica de fazer a caminhada aí pela sombra, parando aqui e acolá. Não há pressa de chegar; o dia está só começando. Mas não são somente os dois restaurantes citados que oferecem a “feijoada da lavagem”. Também famosas cozinheiras autônomas postam-se do lado de fora do mercado e improvisam algo similar e às vezes melhor. A feijoada já vem pronta de casa em brilhantes panelas de alumínio, envolvidas em toalha de prato a fim de não esfriar. Não há onde esquentar.
Ainda no mercado, no térreo, proliferam na parte do fundo, diversas casas de “batidas”. Elas são servidas acompanhadas de lambretas como tira-gosto. Tem gente que não perde! Há até um ritual: tomam as batidas primeiro e sobem para comer a feijoada. É uma confraria!

Enquanto isto, os organizadores da lavagem, gente da Salvador Turismo, procura ordenar a saída do cortejo segundo ficou determinado em reunião: “Primeiro os batedores da Policia Militar, ciclistas, ala das autoridades, banda de música, baianas que lavarão as escadarias da igreja, carroças, bandas de sopro e entidades carnavalescas”. É o que foi originalmente combinado, mas pouco ou nada disso acontece. Após as baianas, vêm diversas alas de políticos da oposição, sindicalistas com suas proposições salariais escritas em enormes faixas, diversas “ongs”, grevistas, professores em greve, torcedores do Bahia e do Vitória contra a permanência desses clubes na terceira divisão, etc. etc. Esqueceram dos Filhos de Gandhi que sempre participam do evento com suas vestimentas brancas da Lavagem. Fundado em 1949 este afoxé tem fama internacional.


Filhos de Ghandi

A cada ano essa festa tem uma composição. Devemos ter visto umas quarenta delas e em nenhuma acontece a mesma coisa. De repente surge o “jegue-trio”, um cidadão montado num animal, próximo às autoridades, enaltecendo uma delas que o patrocinou, através um serviço de som montado no quadrúpede. Falando em jegue, esqueceram também dos cavaleiros e suas montarias. De onde vieram? Das cercanias de Salvador, do Cabula, do Pirajá, de Itapoã e até de cidades vizinhas à capital.

De repente ouve-se uma “chuva” de foguetes anunciando o começo da caminhada. Sobem acima do Elevador Lacerda. Em seguida, pipocam harmonicamente, primeiro alguns tiros fracos e um mais forte dando um merecido acabamento sonoro e caem. São flechas impulsionadas por uma mini-espada de cerca de um palmo que, após terminar sua trajetória, retornam a terra na cabeça de alguém ou passa perto. Ninguém se arrisca e acompanha o trajeto do objeto voador com muita atenção. A coisa se complica quando cinco ou seis sobem ao mesmo tempo em diversas direções.

Em meio a tudo isto o povo começa a caminhar. De princípio é aquela gente que estava concentrada no Largo da Conceição ou em frente ao Mercado Modelo. Os biriteiros e o pessoal da feijoada, ainda não. Depois ela vai engrossando à medida que passa pelas saídas da cidade. Uma substancial quantidade de gente é acrescentada quando chega nas proximidades da Ladeira da Água Brusca onde se concentram os moradores do Santo Antônio, Barbalho, Macaúbas, Soledade, Baixa de Quintas, Caixa D’Água, Lapinha e Liberdade. Depois novo acréscimo na Calçada com os moradores de todo a várzea que vieram de trem. Em Roma, estão os moradores do Uruguai, Bairro Machado, Jardim Cruzeiro e Maçaranduba que também se juntam ao cortejo. Ele já está entrando na Avenida dos Dendezeiros. Hoje é prestada uma homenagem à Irmã Dulce em frente ao seu memorial. As autoridades entram e se benzem. Antes do memorial, a lavagem passava célere. Já o pessoal que reside na península vai direto para a Baixa do Bonfim ou já está no alto da colina, aguardando o melhor do espetáculo.

Com esta seqüência, não há ninguém que possa dizer que viu toda a lavagem. Ela tem uma dimensão gradativa. As baianas alcançam o sopé da manhã por volta das 12 horas e em 20 minutos começa a lavagem das escadarias do templo. O resto vem depois e nada vê. As carroças então, ainda estão aí pelos Mares na maior curtição dos seus irreverentes “passageiros”. Do colorido ao espalhafato que essas carroças fazem e alcançam, originou o famoso dito popular “mais enfeitado que jegue na Lavagem do Bonfim”. E haja enfeite!

Indescretível! Cada um que tenha a sua visão

No momento que as baianas sobem a ladeira, é como se fosse um lençol do melhor linho estendido na vertical da ladeira. Nesse momento, não há como não pensar no divino e já ficamos pensando coisas. Por exemplo, vemos na feliz fotografia acima, a nuvem formando a figura caprichada de um anjo com asas, como que admirando o espetáculo. É impressionante o detalhe.

Mas as nossas baianas já estão chegando ao alto da colina e começam a entoar o hino ao Senhor do Bonfim, acompanhadas pela multidão. Não há como não sentir uma emoção muito forte e um sentimento de fé extraordinário. Baianos de todas as idades; turistas de todas as partes do mundo, gente de todos os lados glorificam o Santo Protetor. Não importa que as portas da igreja estejam fechadas; esta onda de sentimento transpassa todas elas e chega até Ele e Nele posa e Ele aceita o abraço do mundo católico.

Glória a ti neste dia de Glória
Glória a ti redentor que há cem anos
Nossos pais conduziste à vitória
Pelos Mares e campos baianos.
Dessa sagrada colina

Glória a ti neste dia de Glória
Glória a ti redentor que há cem anos
Nossos pais conduziste à vitória
Pelos Mares e campos baianos.

Dessa sagrada colina
Mansão da Misericórdia
Daí-nos a Graça Divina
Da Justiça e da Concórdia.

Glória a ti nessa altura sagrada
É o eterno farol, és o guia
É, Senhor, sentinela avançada
É a guarda imortal da Bahaia.

Dessa sagrada colina
Mansão da Misericórdia
Daí-nos a Graça Divina
Da Justiça e da Concórdia.

Aos teus pés que nos deste o Direito
Aos teus pés que nos deste a Verdade
(Hino ao Senhor do Bonfim. Composto em 1923 pelos senhores Arthur de Sales e João Antônio Wanderley )

É um espetáculo mais do que sublime e lírico. Não há como não provocar uma emoção muito forte, mesmo naqueles que não professam as duas religiões irmanadas nesse sábio sincretismo. A cada ano ela se sucede cada vez mais impressionante, apesar das restrições que se levantam.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

CASAS DE ITAPAGIPE

Casas de Itapagipe? Que importância tem? No caso tem! A grande maioria delas foi construída entre as décadas de 1910 a 1940 quando Itapagipe era considerado o grande balneário de Salvador, belíssima estação de veraneio da capital baiana. Competia com Mar Grande e Itaparica, estas com a dificuldade de sempre, qual seja, a travessia da Baia de Todos os Santos, àquele tempo muito mais difícil do que hoje, desde que ainda não existiam os ferries-boats e nem havia a ligação da ilha com o continente pela Ponte do Funil, ao sul da ilha.

Tudo era transportado em saveiros. A construção de uma boa residência na ilha era um transtorno. Tinham que ser usados os recursos existentes nela própria e estes eram escassos.O resto era levado de saveiro. Quem quisesse ter uma segunda residência, só pensava em Itapagipe para construí-la. Então, os mesmos desejos que hoje movem as pessoas em construir uma casa de praia na Linha Verde, moviam as pessoas daquela época por Itapagipe. E quem eram estas pessoas? Gente da classe média alta que residia na Graça, Barra, Vitória ou no Canela, que já foi um bairro classe A.

Por outro lado, havia o exemplo de governadores e outras autoridades, inclusive eclesiásticas que, no verão, passavam  dias em Itapagipe em casas alugadas ou cedidas por seus moradores. Por exemplo, o Solar Marback, era residência de verão dos governadores daquela época. Os arcebispos daquele tempo iam desfrutar das benesses de Itapagipe no Convento da Penha ou no da Boa Viagem. Até Padre Anchieta, muito antes disso, ia descansar na Ponta do Humaitá. Consequentemente, em peso, grande número de pessoas, construiu verdadeiros palacetes em Itapagipe. Mas, palacetes mesmo, na acepção da palavra, inclusive, na maior parte com material importado desde que, àquela época, Salvador não possuía nada. Aqui só tinha o que se pode chamar de básico: pedra, areia, barro, tijolo, cal e cimento, este quando tinha. Quebrava-se o galho com óleo de baleia. O resto vinha de fora. Um simples espelho vinha do estrangeiro. Os azulejos viam de Portugal. Ainda estão por aí. Um móvel, uma simples mesa, também vinha de fora. Lustres, nem é bom falar!De relação a esta falta generalizada, pouca gente sabe que, ao tempo do Império, foi baixado um decreto, proibindo a fabricação de qualquer coisa no Brasil. Tudo tinha que ser importado de Portugal e países amigos. Essa decisão mais do que imperial, exclusivista, em todos os sentidos, prejudicou por séculos a iniciativa privada brasileira. Atrasou-a, sobremaneira! Então, não custou pouco a construção dessas residências que iremos mostrar adiante. Claro! Só algumas delas, desde que a maioria já foi ou demolida ou reformada para pior.

Abrigo D. Pedro II

Um abrigo não é uma residência! Mas este foi. Era a residência do industrial baiano João Batista Machado. Em julho de 1887 o atual abrigo foi comprado pelo presidente da província da Bahia para acolhimento de pessoas necessitadas. Reformado e adaptado foi inaugurado em 29 de julho de 1888. No princípio, era chamada de Abrigo de Mendicidade Santa Izabel em homenagem à Princesa Izabel, que esteve no local. Somente em 1943 adotou o atual nome de Abrigo D. Pedro II e é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico Nacional. Hoje pertence à Prefeitura que o mantêm.



Área desapropriada

Por sinal, hoje este abrigo está causando a maior polêmica em razão da desapropriação feita pela Prefeitura de toda a área que vai da Calçada ( Rua Barão de Cotegipe) até proximidades do Forte de Monte Serrat. O abrigo encontra-se na área da desapropriação. E daí? Não poderá ser mantido? Pode! E é o que deverá acontecer. Por exemplo, uma futura grande avenida que deverá passar no local, certamente o contornará. O resto são interesses em jogo. A desapropriação foi acertada. Quem a sugeriu deve conhecer Itapagipe. Hoje é pura degradação.
 

Palacete Álvaro Martins Catharino - Casa Branca

Dado curioso é o que segue. O palacete Martins Catharino também foi mandado construir pelo senhor João Batista Machado, que também morou nele. Tem o atual nome - Martins Catharino - em razão de um casamento entre filhos das duas famílias. O nome MC prevaleceu.


Solar Marback

O solar Marback foi construído na primeira metade do século 19. Tem 1700m2 de área construída e possui 19 cômodos. O imóvel pertenceu à família Marback por mais de 100 anos. Recentemente foi vendido. O primeiro Marback que aportou em Salvador chamava-se Henrique Samuel Marback e era inglês. Ele comprou o solar nas mãos do Barão de Alagoinhas, o que vale dizer que, este imóvel tem mais de 100 anos. O Barão de Alagoinhas chamava-se Francisco Pereira Sodré e teria nascido em Cachoeira em 26 de abril de 1818 e o título de barão lhe foi outorgado em 26 de abril de 1879. O nome Barão de Alagoinhas adveio de uma fazenda que o dito cujo possuía no município de Alagoinhas e que também foi vendida, mais ou menos ao mesmo tempo em que vendeu o solar. Diz-se que o homem precisava fazer réis, as nossas famigeradas e desvalorizadas patacas. Por algum tempo, o Solar Marback serviu como residência de verão do governador da Bahia.

Tres grandes e belas casas ainda no Bonfim
 
E ai veio a mão do homem...

Na frente tudo bem, mas a lateral é uma miscelânia...
 

Solar Amado Bahia
 

Construído em 1901 pelo português Francisco Mendonça, o solar tem dois pavimentos. É uma casa totalmente envolvida de varandas de ferro fundido, importado da Inglaterra. Tem uma escada na lateral direita também de ferro e piso de mármore de Carrara. Seu salão principal é todo revestido de espelhos franceses. Aliás, todo o material de acabamento é importado, como sejam as pastilhas coloridas das varandas; o assoalho de pinho-de-riga; os vidros gravados da França e as peças de louça da Inglaterra. Como se vê, uma autêntica riqueza patrimonial e artística quase abandonada, apesar de já tombada pela União. Mesmo assim, em 1990 o Movimento dos Sem Teto de Salvador (MST),invadiu o referido prédio, que correu o risco de ter sido total ou parcialmente depredado. Achamos que os caras não enxergaram a riqueza que lhes envolviam! Coisa velha, de somenos importância, sem nenhum valor, teriam pensado.




Frontispício do Solar Amado Bahia



Solar Bahia Ramos


Olha o tamanho desta casa!

Bela casa!

Outra!

Muito Bonita! Está bem conservada.

Solar dos Cruz (Já foi demolido após essa foto)

Poucos dias após esta foto, o solar foi posto à baixo. O que será que vão construir no lugar? O Largo da Madragoa seria um espaço tombado? Precisamos ver isto.


Solar da Madragoa



Reformaram. Parabens! Aqui teria morado o senhor Oscar Cordeiro


Uma casa toda varandada na Ponta da Penha. Mais adiante, outra com as varandas de hoje.





Casa na Praia do Pôço


Dizem pertencer a uma fazendeiro que só a ocupa uma vez por mês. Conserva-a caprichosamente. Achamos que não quer perder à vista à sua frente.Questão de valorização? Não acreditamos! Muito pelo contrário. A área está cada vez mais degradada. Só tem bar e restaurante. Atrás vem as consequências!Ela é uma ilha em meio ao burburinho de muitas coisas ruins.


O Pôço - A vista que não pode ser perdida!



Fileira de casas no Largo da Ribeira

Enquanto uns conservam outros degradam e desagradam! Reparem a diversidade de estilos. Prevalece uma tendência que se nota atualmente em Itapagipe: a construção de um "pombal" em cima da casa. Uns dizem que é para melhorar a vista. Outros acham que é para enxugar a roupa molhada.


A polêmica Fábrica da Crush - Antes nesses galpões fabricava-se manteiga de cacau.



Fábrica Luiz Tarquínio
Começamos lá em cima com o belíssimo Abrigo D. Pedro II que foi residência do senhor Machado e que todos acham que vai ser demolido na ação de desapropriação da área. Não vai! Quem vai ser demolido é o prédio acima, que também está na área. Aliás, é vizinho do abrigo.Perdeu sua função que já foi extraordinária em um determinado tempo.