A lavagem chegando ao Bonfim. Um milhão de pessoas
Lindo de se ver!
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Noutro ângulo
Mas a lavagem continuou no espaço que lhe era possível fazer, o adro. Não foi previsto no mandamento essa possibilidade, senão seria feita. Mas há de se reparar uma grande lacuna no decreto de proibição da igreja: “às vésperas de qualquer festividade...” Em sendo assim, no dia da festividade haveria de poder! Seria no domingo, dia da festividade!
Em seguida, não sabemos se através de novo mandamento, a proibição se estendeu ainda mais e se fechou também o adro. Ninguém podia ultrapassar os gradis. Mas, segundo consta, teve gente que pulou a divisão de ferro e fez a sua lavagem particular Agora, só falta novo mandamento fechando as ladeiras que dão acesso à colina, mas ainda assim, o povo haverá de alcançá-la pela relva da encosta.
Não adianta! Está na alma dessa gente e aí estando, não se impede com mandamentos.
Analisando com mais profundidade a questão, concluímos que gente muito intransigente e sem raízes populares, sem nunca ter visto uma lavagem sequer, a fim de lhes proporcionar uma idéia mais exata do que ela seja e representa, toma uma medida extremamente impopular e depois o próprio Papa, em sua recente visita ao Brasil, comenta e estranha o crescimento das outras religiões em nosso país. São essas e outras as causas. Como já dissemos, a igreja católica tem nas mãos a maior manifestação religiosa de um povo e a joga fora sob o fundamento de que é precedida por cortejos carnavalescos!
Restaram as escadarias e é nelas que atualmente se realiza a famosa lavagem em um ato apenas simbólico, quanto insistente. As baianas junto com o povo fazem de contas que lavam os 10 degraus em dois lances, que dão acesso ao templo.
A igreja e sua escadaria
Quando se referem as "escadarias do Bonfim" julga-se que se tratam de "monumentais escadarias". Não é! São apenas 10 degraus em dois lances de 5. É mais folclórico do que grandioso.
Dizíamos linhas atrás que a lavagem tinha começo no pé da ladeira principal e foi crescendo. Um dia os organizadores resolveram fazer a concentração no Largo de Roma. Noutro ano passaram para o Largo dos Mares até que chegou à praça em frente à Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia. Um aumento de distância considerável, tudo em proporção direta ao crescimento da participação popular. De pouco mais de 100 metros que é o comprimento da Ladeira do Bonfim para 6.878 metros em linha reta da Conceição da Praia até a Igreja do Bonfim. Quando saía do Largo dos Mares até o Bonfim eram 1.833 metros e do Largo de Roma até a Igreja eram 1.203 metros, medidas estas tomadas via satélite.
Sobre o começo da lavagem do Bonfim há muito controvérsia. Tem autores que registram presença de personalidades no século XVIII em plena Conceição da Praia ao inicio da lavagem. Citam comentários, etc. etc. Talvez fosse a própria festa da Conceição de 8 de dezembro. Contra essas impressões, registre-se que nesta época nem existia ainda a Av Jequitaia ligando o que era a cidade antigamente à península. Não havia como "passear" nesse trecho.
Voltando às sinuosidades do trajeto, a real distância que os fiéis têm que percorrer da Conceição ao Bonfim chegaria aos milagrosos 8.000 metros. Haja coração e muita fé! "Quem tem fé vai ao Bonfim a pé", já dizia o povo. É uma verdade!
Mas tem gente que não agüenta por razões de idade, claro! Tem autoridade que faz questão de participar do cortejo. Inicia-o normalmente na Conceição da Praia, caminha pela Miguel Calmon sob uma chuva de papel picado e consegue alcançar a Associação Comercial. Daí, em carro oficial, é conduzida até o sopé da colina, toma uma cervejinha que ninguém é de ferro, acompanhada de um suculento acarajé que a Baiana faz questão de oferecer, e quando o cortejo alcança esse ponto, assume a frente do mesmo e, triunfalmente, sobe a ladeira junto com as baianas.
“Isto é que é homem de fé” comenta o povo admirado e tome-lhe votos nas próximas eleições.
Contudo, a maioria do povo cumpre o percurso por inteiro, verdade que parando aqui e ali, nos bares, restaurantes e afins do longo percurso.
Igreja de Nossa Senhora da Conceição
Concentração
Aqui comeaça atualmente a lavagem - Em frente à Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia - Padroeira da Bahia.
Hoje a Lavagem começa na Conceição da Praia. Não tem hora para chegar. Antigamente, a lavagem começava às 10 horas, quando as baianas iniciavam a subida da ladeira e ao meio dia a praça já estava vazia. Hoje não! As comemorações se estendem até altas horas da madrugada com muito samba nas barracas, muita paquera e “Viva o Senhor do Bonfim”, grito unânime de todos. É um espetáculo muito bonito de se ver. A maioria do povo se veste de branco em homenagem a Oxalá que é, no sincretismo religioso, o próprio Senhor do Bonfim.
Mas Oxalá não é uma divindade do Candomblé? É mais ou menos por aí! É o mais importante deus iorubano. Representa o princípio de tudo, inclusive de criar o mundo e determinar o fim da vida. É o pai da brancura, da paz e da união. É contra a violência e gosta de limpeza e pureza. Seus filhos devem vestir branco todas as sestas feiras. Daí a indumentária de todos que vão à Lavagem do Bonfim. Se surgir alguém vestindo alguma coisa além do branco, é de se acreditar que deva ser um turista norueguês, completamente pasmo pelo que está assistindo, mas gostando.
Águas de Oxalá
Oxalá é muito ligado à água, daí a sua maior festa chamar-se “Águas de Oxalá” e por ai já se sente e se compreende as ligações com a lavagem do Senhor do Bonfim. É uma das hipóteses de suas origens. A outra é que teria começado com a promessa de um determinado cidadão português, combatente na Guerra do Paraguai que fizera o voto de, caso permanecesse vivo em meio àquele fogo cruzado, lavaria o adro da Igreja do Bonfim e o fez segundo alguns. O homem sobreviveu! Isso nos faz pensar que sendo português o referido militar, tinha conhecimento que em sua terra a lavagem das igrejas já era uma tradição. Vou fazer como fazem em minha terra, teria pensado ele! É forte essa vertente!
Outros descartam a origem da lavagem como sendo africana. Teria havido apenas uma adesão. O Candomblé é muito sincrético e num certo momento, as baianas aderiram à lavagem que já tinha alguma semelhança com a grande cerimônia das “Águas de Oxalá”.
Mas não param aí as dúvidas da origem da lavagem. Não devemos e nem podemos esquecer os romeiros, àquelas pessoas que vinham do recôncavo baiano para agradecer as graças alcançadas em todo o ano. Muitos deles eram parentes dos saveiristas que traziam lenha para o consumo da capital e aportavam no Porto da Lenha e aquel’outros que traziam frutas, farinha e legumes e por sua vez chegavam ao Porto do Bonfim, ambos ao pé da Colina. Tudo gente simples e que passava o dia no alto do Bonfim, entre o largo e a igreja. Os mais abastados alugavam as chamadas “casas dos romeiros”. Rezavam, pagavam as promessas, mas também se alimentavam. Não jejuavam que é coisa de oriental. Assim as refeições ou eram feitas no largo ou nas escadarias do templo. Naturalmente que no afã, sujavam o espaço. E ai essas escadarias eram lavadas e daí para o templo foi uma questão de vontade de deixar tudo um primor. Para tal usava-se uma solução que se fazia de ervas aromáticas, principalmente manjericão e macaçá. O preparo era colocado em potes e enterrado durante três meses.
Outra vertente acha que a lavagem teria começado com os escravos que eram ordenados a lavar o templo dias antes da grande festa. Não se sustenta! Claro que a igreja devia ser lavada e esse trabalho era feito pelos escravos sem as conotações que hoje se fazem.
Ainda outros creditam o começo da lavagem aos festejos à São Gonçalo que eram realizados na Colina. Havia muita música e dizem que muitos dos seus componentes entravam na igreja para fazer samba de roda e um simulacro de lavagem.
Falta-nos fazer uma descrição da Lavagem, seu formato. É muito difícil esta tarefa! São oito quilômetros de acontecimentos ou quase isto.
O povo vai chegando por volta das 8 horas. Os mais fervorosos vão à igreja da Conceição da Praia se ela ainda estiver aberta e os de menos fé se dirigem ao Mercado Modelo. O grande shopping de artesanato já se acha repleto de turistas e os dois grandes restaurantes do 2º piso, Maria de São Pedro e Camafeu de Oxossi, começam a servir a tradicional “feijoada da Lavagem”.
É assim mesmo, cedinho. Antes de iniciar à caminhada rumo à Colina, muita gente da terra costuma “forrar” o estômago com esse forte prato brasileiro, em meio ao espanto dos turistas que não entendem como esta gente, que vai andar oito quilômetros em baixo de um sol de quase 50º, pode comer “aquela coisa gordurosa”.
Uma bela feijoada
Realmente é incrível, mas cada um tem sua técnica de fazer a caminhada aí pela sombra, parando aqui e acolá. Não há pressa de chegar; o dia está só começando. Mas não são somente os dois restaurantes citados que oferecem a “feijoada da lavagem”. Também famosas cozinheiras autônomas postam-se do lado de fora do mercado e improvisam algo similar e às vezes melhor. A feijoada já vem pronta de casa em brilhantes panelas de alumínio, envolvidas em toalha de prato a fim de não esfriar. Não há onde esquentar.
Ainda no mercado, no térreo, proliferam na parte do fundo, diversas casas de “batidas”. Elas são servidas acompanhadas de lambretas como tira-gosto. Tem gente que não perde! Há até um ritual: tomam as batidas primeiro e sobem para comer a feijoada. É uma confraria!
Enquanto isto, os organizadores da lavagem, gente da Salvador Turismo, procura ordenar a saída do cortejo segundo ficou determinado em reunião: “Primeiro os batedores da Policia Militar, ciclistas, ala das autoridades, banda de música, baianas que lavarão as escadarias da igreja, carroças, bandas de sopro e entidades carnavalescas”. É o que foi originalmente combinado, mas pouco ou nada disso acontece. Após as baianas, vêm diversas alas de políticos da oposição, sindicalistas com suas proposições salariais escritas em enormes faixas, diversas “ongs”, grevistas, professores em greve, torcedores do Bahia e do Vitória contra a permanência desses clubes na terceira divisão, etc. etc. Esqueceram dos Filhos de Gandhi que sempre participam do evento com suas vestimentas brancas da Lavagem. Fundado em 1949 este afoxé tem fama internacional.
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Filhos de Ghandi
A cada ano essa festa tem uma composição. Devemos ter visto umas quarenta delas e em nenhuma acontece a mesma coisa. De repente surge o “jegue-trio”, um cidadão montado num animal, próximo às autoridades, enaltecendo uma delas que o patrocinou, através um serviço de som montado no quadrúpede. Falando em jegue, esqueceram também dos cavaleiros e suas montarias. De onde vieram? Das cercanias de Salvador, do Cabula, do Pirajá, de Itapoã e até de cidades vizinhas à capital.
De repente ouve-se uma “chuva” de foguetes anunciando o começo da caminhada. Sobem acima do Elevador Lacerda. Em seguida, pipocam harmonicamente, primeiro alguns tiros fracos e um mais forte dando um merecido acabamento sonoro e caem. São flechas impulsionadas por uma mini-espada de cerca de um palmo que, após terminar sua trajetória, retornam a terra na cabeça de alguém ou passa perto. Ninguém se arrisca e acompanha o trajeto do objeto voador com muita atenção. A coisa se complica quando cinco ou seis sobem ao mesmo tempo em diversas direções.
No momento que as baianas sobem a ladeira, é como se fosse um lençol do melhor linho estendido na vertical da ladeira. Nesse momento, não há como não pensar no divino e já ficamos pensando coisas. Por exemplo, vemos na feliz fotografia acima, a nuvem formando a figura caprichada de um anjo com asas, como que admirando o espetáculo. É impressionante o detalhe.
(Hino ao Senhor do Bonfim. Composto em 1923 pelos senhores Arthur de Sales e João Antônio Wanderley )