domingo, 13 de dezembro de 2009

LADEIRAS QUE LIGAM AS DUAS CIDADES - ALTA E BAIXA

A cidade de Salvador foi fundada sobre uma falha geográfica medindo aproximados 75 metros.
Em razão desse fator geográfico, a cidade se formou em dois níveis, chamados Cidade Alta e Cidade Baixa. Em conseqüência, foram surgindo naturalmente os caminhos que, ao longo do tempo, transformar-se-iam em ladeiras, ligando os dois planos da cidade.

Em postagem bem anterior, dissemos que a primeira ladeira assim reconhecida foi a Ladeira da Jequitaia, hoje Ladeira da Água Brusca, ligando o Santo Antônio Além do Carmo (isto é, além da Porta do Carmo) à Praia da Jequitaia.
Ladeira da Água Brusca ou Ladeira da Jequitaia

Dissemos, na oportunidade que, para garantir este acesso, foram construídos dois fortes nas proximidades. Na parte de cima, o Forte do Barbalho e na parte de baixo, o Forte Santo Alberto.

Talvez pareça inusitada a construção de duas fortalezas com este objetivo. Não é! A Cidade Alta, onde começou Salvador, precisava de abastecimento de víveres, de carvão para aquecimento e de tantas outras coisas necessárias a sua sobrevivência. E tudo isto vinha da Cidade Baixa, do Porto da Lenha e outros locais de atracação de embarcações provenientes das diversas localidades da Baia de Todos os Santos. Para os lados da Vila Pereira, a coisa nunca andou muito bem. Até o donatário daquela área foi devorado pelos índios. Por essa razão e outras, a Porta Sul foi uma das últimas a ser aberta em direção a essa região.

A segunda ladeira assim reconhecida foi, sem dúvida alguma, a Ladeira da Conceição, com referências históricas desde 1587. Gabriel Soares, cronista da época escrevia:

está no meio dessa cidade uma honesta praça em que se correm touros quando convém..., e dessa mesma banda da praça, dos cantos dela, descem dois caminhos em volta para a praia, uma da banda norte que é de serventia da fonte que se diz do Pereira e do desembarque da gente dos navios..."

Na forma de escrever de hoje seria algo mais ou menos assim: “ havia no meio dessa cidade uma praça onde se faziam corridas de touros ocasionalmente, e de um dos cantos dessa praça, desciam dois caminhos, um em direção à praia e outro em direção à Vila Pereira, onde existia uma fonte e se fazia desembarque de pessoas de navios”.

 Confluência das duas ladeiras - à direita a Lad. da Conceição da Praia e à esquerda, a Ladeira da Preguiça.

Vista aérea do local acima

 As dúvidas surgem, quando o atencioso cronista faz citação de uma “praça honesta”. Poderia ser a hoje Praça Thomé de Souza, como também poderia ser a hoje Praça Castro Alves. Por enquanto é imprecisa a definição, entretanto quando o cronista se refere que “nesta correm touros quando convém”, é lógico deduzir que não seria na praça principal, a Thomé de Souza que essas corridas seriam convenientes "quando convém". É mais ou menos crível que a praça principal fosse preservada. Os touros deveriam destruir tudo ou quase tudo.
À sua esquerda, em direção ao Carmo, muito menos, desde que era uma área onde a população fazia suas casas. Só nos resta a hoje Praça Castro Alves, onde se localizava a porta sul da cidade. A mais afastada, a menos habitada, consequentemente, a mais conveniente para corridas de touros, se é que haviam.

“...dos cantos dela descem dois caminhos em direção à praia e outro em direção à Vila Pereira”.
Não há registro de caminhos que descem da Praça Thomé de Souza. Poder-se-ia registrar a Ladeira da Praça, em direção à Baixa dos Sapateiros, Nazaré, etc. que não é o caso.

O mais viável e lógico é aventar que a tal “praça honesta” não é outra senão a atual Praça Castro Alves. Dela saem duas ladeiras. A da Conceição da Praia que vai dar no lugar onde os padres haveriam de erigir a Basílica da Conceição da Praia e a Ladeira da Preguiça que, bem ao meio, tem uma junção com a Ladeira de Santa Tereza, esta em direção à Vila Pereira.

Por outro lado, há um detalhe importante há considerar. A Ladeira da Misericordia só ia até ao meio do morro. Até hoje é assim. Vejamos uma foto da área:


Àquele tempo, ainda não existia a Ladeira da Montanha. Seus planos de construção começaram em 1873 e somente cinco anos após começaram os trabalhos de sua construção (1878).

De modo que, a hipótese de que a Ladeira da Misericórdia tivesse alguma ligação com a Cidade Baixa através da Ladeira da Montanha, cai por terra, montanha abaixo.




sábado, 12 de dezembro de 2009

PLANO INCLINADO GONÇALVES

A Cidade de Salvador possui uma topografia íngreme que marcou a história da sua ocupação territorial desde os tempos do Brasil Colônia. À princípio foram feitas as ladeiras. A primeira delas fazia a ligação entre Santo Antônio Além do Carmo e a Praia da Jequitaia, onde se localizou, por algum tempo, a Feira de Água de Meninos. Na época foram construídos os Fortes Santo Alberto e Barbalho, para garantir esse acesso.

Por ela subiam as mercadorias provindas do Porto da Lenha. Praticamente, não havia comunicação entre a Jequitaia e a área onde é hoje o Porto de Salvador.

Posteriormente, se fez a primeira ladeira nessa parte da cidade. A Ladeira da Conceição ligando a Porta Sul da Cidade à parte baixa, onde se construía a Igreja da Conceição da Praia. Não era, entretanto, o lugar ideal para o transporte de mercadorias para a Cidade Alta. Ficava um pouco distante do “centro”, localizado onde é hoje a Praça Municipal com extensão para a Rua da Misericórdia, Praça da Sé e Carmo, onde existia a porta norte com este nome.

Nesta área a cidade se estruturava com novos prédios, notadamente conventos e igrejas. No local, entretanto, não existia nenhuma ladeira. A Ladeira da Montanha foi construída muitos anos depois. Já se desenhava, entretanto, a Ladeira da Misericórdia, mas de pouco alcance. Não alcançava a parte baixa da cidade.

Mas era necessário levar materiais lá para cima. Foi ai que os padres jesuítas que começavam a construir o chamado Colégio dos Jesuítas, montaram um guindaste conhecido na época como “Guindaste dos Padres”. Decorria o Século XVII. Não era inclinado. Somente em 1889 foi transformado em plano inclinado.

Esses guindastes usavam alavancas com cabos. Depois foram eletrificados. Vejamos algumas descrições de cronistas da época:

Em 1610 um deles, chamado Pirare de Leval, descreveu esses guindastes como sendo “uma certa máquina destinada ao transporte de cargas com dois carrinhos sobre trilhos a trafegar simultaneamente”.

Poucos anos depois, outro de nome Francisco Coreal descreveu: “espécie de guindaste com uma boa talha onde havia polias e cordas subindo à medida que a outra descia”.

Isto funcionou até o ano de 1888. Neste ano, uma empresa inglesa sem experiência no setor de funiculares - sistema de transporte cuja tração é proporcionada por cabos, utilizados em locais onde há grandes diferenças de nível- recebia uma encomenda dos primeiros carros constando de uma plataforma plana destinada a transportar animais de carga. Era uma plataforma aberta. Mais tarde foi encomendada uma cabina fechada para transporte exclusivo de passageiros. Na época, chamava-se “chariot” (carro).

Nada funcionou! Dinheiro jogado fora. Teve até acidentes. Foi fechado durante muito tempo.

Ai se fez nova encomenda, desta feita a uma empresa alemã de nome Maschinenfabrik Esslingen, perto de Stuttgard. Foi fornecido um completo sistema funicular, incluindo trilhos, cremalheira, carros, propulsão a vapor e cabos. A construção das estações superior e inferior ficou a cargo da Prefeitura. O nome original da linha foi Dona Izabel, uma princesa real, mas como o Brasil a esse tempo já era uma República, o nome foi considerado impróprio e a linha recebeu o nome de um diretor da empresa, Engenheiro Manuel Francisco Gonçalves.

Esse fato gerou uma confusão de nomes que até hoje perdura. Inicialmente, a Prefeitura não fez a comunicação aos fabricantes e em determinado livro de autoria de um engenheiro alemão chamado Hefti, foi citado que o elevador chamava-se Izabel.

Isso ocasionou citações históricas que teriam existido dois elevadores inclinados: o Izabel e o Gonçalves, o que não coaduna com a verdade

Outra confusão refere-se ao próprio nome Gonçalves. Certa feita, alguém chamou o elevador de Gonçalves Dias. Ora! Gonçalves Dias foi um grande poeta maranhense, autor desses versos maravilhosos:

"Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida
Nossa vida mais amores"

Nada haver, entretanto com o elevador. Fica o registro, esperamos que definitivo.

Em 1931 mais uma reforma foi feita com novos carros do tipo plataforma da empresa Brill na Filadelfia/EUA, usando pólos de trole com linha elétrica. No mesmo tempo a inclinação da linha foi alterada para adaptar as plataformas nos estações aos novos carros, as escadarias das plataformas das estações foram cobertas e plataformas planas foram introduzidas. Novos trilhos do gabarito estandarte - 1435 mm - foram instalados, e a cremalheira foi removida.

Ao longo dos anos, passou por períodos de fechamento até que foi revitalizado em 1998.
 
  Plano Inclinado Gonçalves
Tem outro nome, mas o povo só chama de Rua do Plano


sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

ELEVADOR LACERDA - 4

Existem pelo mundo alguns elevadores que impressionam pela beleza arquitetônica, mas nenhum deles, ao que estamos sabendo, tem uma passarela sobre uma rua, como é o caso do Elevador Lacerda. Em baixo, passa a Ladeira da Montanha. É um detalhe absolutamente sugestivo e atraente.
Pena que esta via esteja absolutamente degradada, quase impossível de ser transitada, a não ser de carro. Autêntico perigo!
Felizmente, ao que se sabe, os governos Estadual e Municipal, estão anunciando um plano de recuperação dessa ladeira juntamente com a Rua Chile. Esta vai passar por uma recuperação das fachadas de seus prédios e terá alargadas as suas calçadas. Já a Ladeira da Montanha, terá a transformação dos imóveis em pousadas e restaurantes, além da criação de belvederes para contemplação da vista da Baía de Todos os Santos. Poderá se transformar num centro de boemia, mas não como antigamente. Seria uma área de lazer moderna e confortável que a sociedade possa freqüentá-la sem susto ou desconforto de qualquer natureza.

Passarela do Elevador Lacerda sobre a Ladeira da Montanha




Elevador no Canadá


Elevador na Suiça



Em Portugal


Na China

Ao longo de sua história, o Elevador Lacerda passou por quatro grandes reformas e revisões: em julho de 1906 para a sua eletrificação; em 1930 para adicionamento de mais dois elevadores e uma nova torre; no inicio da década de 1980 para uma revisão na estrutura de concreto.

Na reforma de 1930 conferiu-lhe a atual arquetetura em estilo Art Déco. As duas cabines originais foram ampliadas para quatro, cada uma com a capacidade de transportar até 27 passageiros. Foi inaugurado em 1º de janeiro de 1930.
 
Uma curiosidade: Na estrutura inicial os passageiros tinham de ser pesados individualmente, e o peso total dos passageiros a serem transportados era calculado, somando-os até atingir o limite máximo de segurança. Veja delicioso registro feito pelo Barão de Jeremoabo (Cícero Dantas) sobre o elevador. Estava acompanhado de alguns amigos.

“Em 16 de março de 1889 pesamo-nos no elevador, dando o seguinte resultado: Pinho, 54 quilos; Cícero 61 quilos; Guimarães, 65 quilos; Artur Rios 73 quilos e Vaz Ferreira, 115 quilos”.
 
Havia tempo para tudo!



ELEVADOR LACERDA - 3

A utilidade do Elevador Lacerda é extraordinária. Chega a transportar quase um milhão de pessoas por mês, uma média de 33 mil pessoas por dia. Atualmente, o passageiro paga R$0.50 num percurso de 30 segundos de duração. Ou seja, 0.50 por 75 metros percorridos. Barato, não? Caro! Se a distância fosse de 1.649 km que é a distância existente entre Salvador e Rio de Janeiro, esta passagem custaria simplesmente R$1.145.13. Apesar disto, há quem afirme que um elevador como o Lacerda dá prejuízo! Que não paga nem a energia! Sinceramente, não dá para acreditar. 33 mil/dia pessoas pagando 0,50 centavos correspondem precisos R$16.500.00/dia. Será que os elevadores do Lacerda consomem tanta energia assim?

Para a população é uma grande economia monetária e, principalmente, de tempo. Encurta os espaços e agiliza as coisas. Salvador é uma cidade privilegiada!


Entrada e Saída da parte de baixa - Antigamente


Entrada e Saída da parte alta - Antigamente


Hoje em cima

Hoje em baixo

Da parte alta do Elevador Lacerda se descortina uma vista maravilhosa. Vejamos algumas delas.


Escola de Aprendizes de Marinheiro – Monumento à Cidade – Cais Sul do Porto - Ancoradouro


Praça Visconde de Cayru – Mercado Modelo – Estação da Navegação Baiana-Forte São Marcelo


Forte São Marcelo


Prédios do Comércio – Ao longe, Península de Itapagipe








quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

ELEVADOR LACERDA - 2

Preciosa foto da obra
 
A foto acima mostra a construção da segunda torre, medindo 75.0 metros. Decorria o ano de 1930. Muitos acreditam que essa torre tenha sido projetada e construída por Antônio Lacerda, do qual o elevador tem o nome. Em verdade, não foi! O senhor Lacerda foi o idealizador e construtor da primeira torre, aquela incrustada na Ladeira da Montanha. A segunda torre foi construída pela empresa dinamarquesa Cristian-Nielsen, pioneira no mundo na construção de grandes estruturas em concreto armado. O projeto é do também dinamarquês Fleming Thiesen.
 
Sofreu adaptações no Brasil pelo escritório de arquitetura Prentice & Floderer do Rio de Janeiro.
 
O mais impressionante no projeto é a ponte de acesso ligando as duas torres e passando por cima da Ladeira da Montanha. Talvez única no mundo!


Elevador Lacerda

De forma mais do que merecida ficou com o nome do iniciador dessa grande idéia: Engenheiro Augusto Frederico de Lacerda, sócio do irmão, o comerciante Antônio Francisco de Lacerda. O Elevador Lacerda (1896) tem esse nome em homenagem ao engenheiro.

ELEVADOR LACERDA - 1

Elevador Lacerda
Ele nem sempre foi assim. Inicialmente era um plano inclinado. Pouca gente sabe disso! A primeira referência, talvez a única, que se tem desse fato é uma gravura holandesa existente em Haia. Sua função era transportar mercadorias do porto. Chamava-se Guindaste da Fazenda. Na época havia outros guindastes. Os jesuítas construíram alguns para facilitar a construção ou ampliação de seus conventos. Por exemplo, o Guindaste dos Padres, depois transformado no Plano Gonçalves. A Santa Casa da Misericórdia também teve seu guindaste entre 1630 e 1690. O Convento de São Bento também teve o seu por volta de 1813. Em Santa Tereza existia um guindaste com o nome do convento. Existia também o Guindaste do Pilar. Isso durou até 1860, quando os guindastes foram desativados.
 
Em 8 de dezembro de 1872, dia de Nossa Senhora da Conceição da Praia, foi entregue à população o primeiro ascensor da cidade. Era uma torre de 58 metros de altura. Foi feita uma perfuração na rocha na base da Ladeira da Montanha e surgiu o então Elevador da Conceição, também conhecido como Elevador do Parafuso.
 
Elevador do Parafuso
 
Há de se reparar à direita da torre a encosta da Ladeira da Montanha. Sua base foi perfurada, a fim de alcançar a parte baixa da cidade. Também deve ser notada uma passarela no alto, dando acesso à Praça Municipal. Em 1920 o Elevador da Conceição tinha o seguinte aspecto em foto magistral:

Elevador da Conceição

Na sua fachada, a Fratelli Vita anunciava: "CAZOSAS? SÓ DE FRATELLI VITA”. Com “Z” mesmo. Pura verdade da época! Gramatical? Talvez. Gosto da época? Com certeza! Hoje, não se escreve gasosa com "z" e os sabores são outros. Alguns até duvidosos!

MONUMENTO Á VISCONDE DE CAYRU

O monumento à Visconde de Cayru fica bem ao centro da praça que leva seu nome. Tratamos dela na postagem anterior. Foi inaugurado em 1932 e representa a pessoa de José da Silva Lisboa, economista, advogado e político. Escreveu o célebre Tratado de Direito Mercantil e Princípio de Economia Política. Era um homem de saber.
Em meio as barracas, ainda pode ser visto

Com mais visão

Noutro ângulo
De autoria do escultor Pasquale de Chirico, foi inaugurada em 2 de julho de 1923. Foi feito de bronze e pedra calcária. Mede 7.50 de altura. Sua base tem 4.35x 4.45m.