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quinta-feira, 24 de março de 2011

CAMPO GRANDE

O Campo Grande é realmente um grande largo. Merece esse título. Mede 36.320 m2. Foi urbanizado somente no século XIX. Isto nos indica que, efetivamente, o crescimento de Salvador para esses lados foi muito retardado. A essa época, o lado norte já era uma grande cidade.
Também a esse tempo, o largo não passou pelo desígnio de ser uma praça de igreja como aconteceu com a maioria das praças que se construíram em Salvador à partir do século XVI até meados do século XVIII.Para compensar, contudo – quis o destino – funcionou no local até muito recentemente, o Arcebispado de Salvador, transferindo que foi da Praça da Sé.
Aqui funcionou o Arcebispado de Salvador (só a casa)। O prédio atrás é coisa dos tempos atuais


Funcionava na Praça da Sé num prédio extraordinário



As casas eram construídas distantes dos lotes vizinhos e das vias públicas. Um descampado. Uma espécie de fazenda. Talvez um sítio. Um terreiro como era chamado antigamente esses grandes espaços.

À seguir uma série de fotos de como é hoje a grande praça, o entorno do grande monumento que se constriu no local e que será comentado na próxima postagem


Grandes edificios nas ruas laterais

Estatuas em mármore

Bancos do mesmo material


Coberturas sustentadas por belas colunas


Chafarizes


Coredores monumentais



O Pau Brasil


Com direito a gradís de Caribé

domingo, 20 de março de 2011

PASSEIO PÚBLICO

Havíamos dito que a expansão da Cidade de Salvador rumo ao sul, muito provavelmente, deu-se com a formação das trilhas que as pessoas daquele tempo fizeram entre a Praça Castro Alves, onde estava a porta de Santa Luzia e a Vila Pereira na Barra e vice-versa.

Alcançavam a hoje Avenida Visconde de Mauá ao meio da Ladeira da Preguiça e seguiam até a Rua Democrata nas proximidades do Largo 2 de Julho e daí, subindo a ladeira, chegavam aos Aflitos, sempre do lado do mar!

Ao se escrever sobre um assunto que se passou a mais de 450 anos arás e torná-lo interessante de se acompanhar – até viável – se faz necessário imaginar essas trilhas nas ruas e praças que lhe sucederam nos tempos atuais, inclusive com os elementos urbanos que lhes compõem.

È o que estamos fazendo a algum tempo nas postagens que formam esse blog. Não há outra forma! Se hoje temos os recursos técnicos que permitem fazer imagens até em 3D, daquele tempo não há nem a descrição por escrito de como ocorreu este ou aquele caso. Das poucas vezes que isso ocorreu, por exemplo, nos escritos de Gabriel Soares, senhor de engenho e cronista da época , aproveitamos ao máximo suas informações, principalmente esta: “ da praça honesta saía duas ladeiras, uma em direção ao norte e outra em direção ao sul onde aportavam os navios trazendo gente “.

Mas, o raro cronista - raro mesmo - não entrou em maiores detalhes como, por exemplo, chegar aonde os navios aportavam, trazendo gente. E em faltando esse complemento, tem-se que “imaginar" formar um cenário e acrescentar coisas e mais coisas infelizmente dos tempos atuais e quando muito de um passado mais próximo daquel’outro mais atrás.

Naturalmente, o crescimento urbano da cidade deu-se pelos caminhos traçados por nossos antepassados, caminhos esses sempre práticos e lógicos. Não se perdia tempo. A segurança também era levada em conta.
Na postagem anterior já nos encontrávamos no Largo dos Aflitos, a um passo do atual Campo Grande e a caminho da Vitória.

Hoje, passa-se em frente ao Palácio da Aclamação e logo se chega ao Campo Grande, graças a um viaduto construído no local.

Naqueles tempos, o negócio era continuar bordejando o lado do mar, passando pelas alamedas do atual Passeio Público e chegando ao Campo Grande, um espaço enorme, logo ali ao lado. A direita havia a depressão da Gamboa e à esquerda a depressão onde hoje se acha o Forte São Pedro.

Em verde mais escuro o caminho direto dos Aflitos ao Campo Grande, passando por dentro do Passeio Público (uma parte) – Em verde mais claro, o próprio Campo Grande e em marrom as encostas da Gamboa e do Forte São Pedro.


Passeio Público – atual



Ainda o Passeio Público



Com vista para a lateral do Palácio da Aclamação



Será uma caixa d’água?



Não é que mesmo!


Detalhe


Por mais que procurássemos em livros, jornais, etc. não encontramos nenhuma citação sobre essa estranha caixa d’água em meio ao Passeio Público. Temos a impressão que ela pertencia à antiga residência ao lado, mais tarde transformada em palácio. Uma preciosidade!


Por fim o obelisco do antigo Passeio Público antes das reformas pelas quais passou. Ficava dentro do parque. No governo de J.J. Seabra (1913) foi transferido para a praça em frente ao Palácio da Aclamação.
Há de se reparar com cuidado a depressão existente à esquerda da foto. Apenas à esquerda, desde que em verdade essa estrutura ficava do lado da Gamboa, à direita. O mar é a grande referência. Ele foi inaugurado em 1815. É todo em mármore e homenageia a passagem de D. João VI em Salvador em 1808.



O mesmo obelisco instalado em frente ao Palácio da Aclamação

O belíssimo Palácio da Aclamação

sexta-feira, 18 de março de 2011

AFLITOS


"Nossa Senhora dos Aflitos é a única capaz de consolar os que nada mais esperam। Os que nem mais imaginam superar a dor e o sofrimento। Acolhei em vosso cálido coração, os aflitos que padecem desamparados! Ave Maria...Glória do Pai...Consolo dos Aflitos, rogai por eles!”. É novena desesperada. Para os deserdados desta vida. É para estes que se erigiu a Capela de Nossa Senhora dos Aflitos.”
Igreja dos Aflitos

Dada como construída entre 1748 e 1824, logo 76 anos de “aflição”. Homenageia Nosso Senhor dos Aflitos, santo de origem portuguesa.

Diz-se que a igreja foi ocupada por tropas lusas durante a Guerra da Independência, tendo servido como depósito de víveres e material bélico das tropas comandadas por Madeira de Mello. Antes já haviam se estabelecido no Convento Santa Tereza por beneplácito dos Carmelitas Descalços. Este último fato deu origem ao processo de expulsão desses padres do Brasil.

E o que dizer do Quartel dos Aflitos bem ali ao lado? Foi também tomado pelas tropas de Madeira de Melo?




Forte dos Aflitos

Não há referências sobre o assunto. À principio fica difícil aceitar que ali ao lado o general português tenha instalado uma base de apoio (víveres e MATERIAL BÉLICO), a não ser que também o mesmo tenha se apossado do grande forte.

Curioso, e bota curiosidade nisto, é que este quartel funcionava como importante base do sistema de defesa da cidade, fornecendo armas e munições para as demais fortalezas. Os materiais (principalmente pólvora) saíam do quartel de trem, daí o mesmo ser conhecido também como Casa do Trem.
Sem dúvida que este fato indica que, possivelmente, tenha sido o quartel e não a Igreja a base de apoio do Gal Madeira. Experto!

Chafariz da Cabocla, todo em mármore

Chafariz e Forte dos Aflitos




Vista aérea do forte. Comstruido em 1639. Era governador da Bahia D. Fernando de Mascarenhas, o Conde da Torre.


quinta-feira, 17 de março de 2011

AFLITOS E A BELEZA DAS RUAS E CASAS DE MUITAS JANELAS

Como vimos na postagem anterior, a Rua Democrata que já se curva em direção ao bloco maciço do Largo Dois de Julho, há um acentuado declive em direção ao mar. Antigamente, ainda ali em baixo era a Enseada da Preguiça.

Da mesma forma como aconteceu com as Ladeiras da Conceição da Praia e da Preguiça, a Ladeira dos Aflitos tornou-se um lugar conveniente e agradável para se morar. Não só tinha acesso garantido ao mar, como também era fácil chegar no Campo Grande e Corredor da Vitória.

O que sobrou nesse local, faltou na Avenida Visconde de Mauá e Rua Democrata, daí a ausência de residências nesses dois locais àquela época.


Ladeira dos Aflitos
Ladeira dos Aflitos - Hoje

Igreja dos Aflitos

Há de reparar o tamanho das residências, algumas de alto porte. No primeiro plano percebe-se uma que faz uma verdadeira “apologia” às janelas – nada menos do que 20 delas na lateral da casa.

Outro detalhe importante que se pode destacar nessa foto é a posição da Igreja dos Aflitos no alto da ladeira, interrompendo abruptamente a sequência viária da ladeira. Esse procedimento de construção é percebido em muitas partes da cidade. Vejamos dois outros casos famosos:


Catedral Basílica da Sé – Como que interrompe a sequência da grande praça



Igreja de São Sebastião ( Igreja e Convento de São Bento)


Neste último caso, quando se fez a Avenida 7 de setembro, diz-se que parte da igreja foi demolida para dar passagem a grande via.

O porquê disso? Na época da construção desses templos, não havia veículos motorizados de um modo geral. As cidades não eram programadas para tal. Pensava-se apenas no pedestre e na beleza das coisas. Convenhamos que, no caso da Ladeira de São Bento, o cenário era magnífico.

CRESCIMENTO TÍMIDO PARA O NORTE

Enquanto para os lados do Pelourinho e Santo Antônio Além do Carmo se construiam casas belíssimas e se multiplicavam as igrejas e os conventos das diversas congregações religiosas, do lado sul, as construções eram bem mais modestas. O crescimento era tímido!
Por exemplo, no trecho entre o Convento de Santa Tereza e o Largo dos Aflitos, poucas residências poderão ser destacaas e uma delas é aquela onde morou e morreu o poeta Castro Alves. No local, hoje, funciona o Colégio Estadual Ypiranga, onde estudou o próprio Castro Alves e o escritor Jorge Amado, este em 1927 e aquele por volta de 1855.


Placa na parede do prédio


Colégio Estadual Ypiranga

É interessante observar que a burguesia da época aproveitou muito bem o alto do grande platô onde se construiu Salvador dêsde as elevações do Pelourinho até quase o bairro do Barbalho, onde termina Santo Antônio. Fez-se, praticamente, o que hoje estão fazendo as construtoras no Corredor da Vitória. A única diferênça - talvez a grande diferença - seja o fato de que a maioria dos apartamentos da Vitória tem a frente voltada para o mar ou, pelo menos, valorizam mais o mar do que a própria rua. Estamos porém na era do ar condicionado que equilibra a situação.

Naqueles tempos não havia esse conforto. Então as frentes das casas eram para o lado contrário ao poente, isto é, da rua. Os fundos voltados para o mar, mas que também era visto quando se quizesse - era só ir aos fundos da casa - tinha sempre uma janelinha.

Isso posto, era de esperar que também as residências que se construissem na Avenida Visconde de Mauá e a Rua Democrata que lhe dá sequência, aproveitassem as mesmas condições geográficas observadas em Santo Antônio, por exemplo.
Mas, que residências? A área é um deserto. Não tem quase nada. A única exceção é este edificio que vemos abaixo – construção bem recente e mais alguns outros de menor envergadura. Muito pouco! Antigamente, nada se fez.


Acima vista aérea da área। Vê-se, claramente, a Av. Visconde de Mauá, inicialmente passando atrás do convento no alto e sinalizada em amarelo; ela termina na curva da Rua Democrata em baixo (sinalização verde).Ao centro, outra sinalização verde, mostrando o único grande edifício da área.

Mapa da área que se comenta

Como era Salvador ao tempo de sua colonização. Sempre é bom rever essa foto.

segunda-feira, 14 de março de 2011

O CONVENTO QUE DEVERIA SER EM ANGOLA

O Convento de Santa Tereza era para ser erguido em Angola. Conta-se que os irmãos Carmelitas descalços vieram para o Brasil de passagem. Aqui pegariam um navio com destino a Angola. Os meses foram se passando e nada de navio. Desistiram! O convento e a igreja que fariam em terras africanas seriam feitos na Bahia, mais precisamente em Salvador.
E, foi assim que em 1686, as obras do convento foram concluídas e a Bahia ganhou um dos mais belos patrimônios religiosos de todo o Brasil.

A Ordem dos Carmelitas Descalços é um ramo da Ordem do Carmo formado em 1593 por Santa Tereza de Ávila.


Santa Tereza de Ávila

Escudo da Ordem


A grande igreja e o convento

Belíssima reprodução da igreja - Vista da Enseada da Preguiça
Mapa da área onde foi consruido - Rua do Sodré


Visão aérea da área onde foi construido o convento। A parte sinalizada mostra a concentração das residências.


E os Carmelitas descalços realmente andavam descalços? Por algum tempo, sim. Em verdade, contudo, eram assim conhecidos por observarem uma vida que tinha como símbolo a pobreza e o despojamento interior. Bem mais tarde, começaram a usar uma sandália de corda que, na época, eram calçados muito pobres.
O trecho seguinte expressa divinamente os Carmelitas descalços:

Como Moisés, quando apascentava o rebanho, também nós somos chamados por Deus no deserto. Deus chama - nos pelo nome, assim como outrora chamou a ele: "MOISÉS, MOISÉS, TIRA AS SANDÁLIAS DOS TEUS PÉS, PORQUE O LUGAR EM QUE TE ENCONTRAS É TERRA SAGRADA". Assim nós hoje, para nos aproximarmos de Deus é preciso crer, despojar-se, DESCALÇAR-SE. Então, o Deus do Horeb se nos revelará, na intimidade de nosso ser, para nos tornar uma nova criatura: UM SANTO!”


Hoje, a Ordem não mais existe na Bahia. Foi abolida em 2 de junho de 1840. Os “descalços” teriam abrigado no interior do convento soltados portugueses.(todos calçados). Houve manifestações populares contra este procedimento. Os padres e freiras foram expulsos da Bahia.


O convento ficou abandonado por muitos anos, até que em 1959 foi restaurado e se transformou em Museu de Arte Sacra, belíssimo por sinal.

O EXTRANHO CAMINHO DE SANTA TEREZA

A construção do Convento de Santa Tereza entre a Avenida Visconde de Mauá e a Rua do Sodré, deve ter sido espinhosa. Diz-se até que, após muita labuta com os materiais subindo na mão, fora construído um guindaste que ligava a Enseada da Preguiça ao alto do morro nas proximidades onde é hoje o convento. Não há vestígios desse equipamento, citado que foi por José Antônio Caldas em 1759 em sua obra “O panorama da cidade de Salvador”.

Essa dúvida aumenta quando equipamentos semelhantes foram instalados na cidade e aí está o resultado de cada um deles: o Guindades dos Padres por exemplo, transformou-se no Plano Gonçalves; está ai também o Guindaste do Pilar que deve ter servido às obras das igrejas em Santo Antônio Além do Carmo ou pelo menos, ajudou o transporte de muitas mercadorias oriundas dos trapiches dessa área, em grande número.

Pesquisando na era moderna com recursos maravilhosos tipo Google Earth, estamos levantando uma hipótese que talvez ninguém tenha ainda percebido: um caminho com facilidades técnicas de subida nas proximidades do Convento de Santa Tereza e um caminho, possivelmente para animais ou até mesmo uma carroça . Vamos vê-lo:


O estranho caminho


Claramente, ele liga o principio da Av. Visconde de Mauá e desce até a atual Contorno. Antes da construção da avenida, devia descer até à praia – Enseada da Preguiça

Estranho caminho em lilás ou roxo


A distância entre onde termina ou começa o caminho na esquina da Av. Visconde de Mauá e o convento é de 174 metros.(traço vermelho) O caminho em sí, medido com as curvas é de 110 metros.(traço amarelo). Perfeitamente viável.

(quem quiser vê-lo melhor, aconselhamos o uso do zoom do computador).

Procuramos em vão vestígios do antigo guindaste de Santa Tereza. Não encontramos nada! Por enquanto, ficamos com o extranho caminho e a imaginação que talvez tenha sido por ele que os tijolos feitos em Itaparica e que levantaram o grande convento, talvez tenham subido magicamente por ele. Eis a questão, como disse alguém.


O convento no alto do morro



O mesmo


Vista aérea do grande conjunto


Uma das portas de entrada


Sua extenção