sexta-feira, 14 de setembro de 2012

MAIS DE DUZENTAS MIL VIZUALIZAÇÕES


(usar o zoom para ver melhor)

Sempre dissemos e reafirmamos que a divulgação de números é importante. No caso, números de acessos ao nosso blog até então: 204.111.

Esse número sem dúvida indica uma boa aceitação das postagens. Todas foram feitas com muito cuidado, muita pesquisa, com amor de escrever.

Não nos aventuraríamos nesse feito se não fosse com muito apuro. O nosso público parece ser constituído na sua maior parte de estudantes, professores e pessoas outras interessadas na história de Salvador.

Nesse caso, aumenta a nossa responsabilidade!

No que diz respeito à LEITURA OPCIONAL que estamos acrescentando a cada postagem com a edição de um de nossos livros pela internet (ALAGADOS), certamente vai ajudar na junção de mais gente em torno do blog, contudo, não foi esta a intenção. O assunto que este livro trata diz respeito a duas das maiores invasões de mar que o mundo já viu – Os Alagados do Uruguai e os Alagados do Porto dos Mastros. Fazem parte da Historia de Salvador.

Claro que a forma como esses locais foram invadidos é fictícia, mas poderia ter sido mais ou menos da forma como escrevemos.

O AUTOR

LEITURA OPCIONAL
 
ALAGADOS
 
Resumo do capítulo anterior: Bel e Cal foram chamados por Firmino em Ilha de Maré. Este lhes comunicara que o aterro do Uruguai teria começo...
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Passaram-se quatro anos até que um belo dia apareceu uma carreta da Prefeitura e despejou sua carga na beirada do mar, próximo às casas de Cal e Bel. Puro lixo. Começava o aterro do Uruguai. Daí em diante, dia e noite, o aterro foi avançando e já alcançava as redes do curral.
Ligaram para o mestre Firmino.
- O que fazer agora?
- Contrate um bom advogado. Promova uma reunião na Associação dos Amigos do Bairro do Uruguai. Coloque faixas nas principais ruas convidando o povo.
- Para que isto Firmino. O senhor não nos disse que a posse do espaço era legal?
- Continua legal, mas vocês sabem como é política. As coisas podem mudar. É preciso causar impacto. Algo que chegue ao conhecimento da imprensa. Drama social, essas coisas.
- Que dizeres colocaremos nas faixas?
A PREFEITURA CONTRA O URUGUAI – ESTÃO ATERRANDO NOSSA INDÚSTRIA – ESTÃO ACABANDO COM O “ORGULHO” DO BAIRRO DO URUGUAI – COMPAREÇAM À NOSSA REUNIÃO- DIA TAL- HORA TAL., por aí...
Na hora e dia tais, Cal discursou para uma grande platéia reunida na sede da Associação. Tinha um surpreendente desembaraço para falar. Bel estava a seu lado.
- A única indústria do bairro está sendo destruída com lixo. Estão preferindo lixo a uma indústria que era o orgulho do bairro. Ela proporciona emprego para muitos dos senhores Não podemos ficar parados. Isto é um abuso de poder.
Depois foi a vez de o senhor Maneca falar. Era um bom orador. Enfatizou as doações de peixe que os moradores recebiam, tanto diretamente quanto através da Associação.
- Querem nos matar de fome! Querem nos envenenar com este lixo. Dele haverá de se desprender gás tóxico. Estão destruindo nossas moradias.
Depois discursou o vereador Demóstenes, o Demostinho, como era mais conhecido.
- Fiz tudo na Câmara para impedir esse aterro. Estão cometendo um crime contra a propriedade privada. Haveremos de defender nossos direitos até a morte.
Resolveram procurar o advogado para ver o que se faria.
-Tenham calma! Não havia necessidade das reuniões que vocês fizeram. Ao que tudo indica, a Prefeitura vai respeitar o direito de posse, tanto residencial quanto comercial. O que se precisa fazer é definir o tamanho de cada posse. De relação às casas ou palafitas, essas dimensões são bem claras e definitivas. Preocupa-me a determinação do tamanho dos currais e a área abrangente, isto é, o alcance do sistema de pesca. Faz-se necessário marcar este espaço de alguma maneira. Vocês têm uma ideia como isto poderá ser feito.
 
- Um momento, doutor, vou ligar agora para o Firmino. Ele conhece isto aqui melhor do que ninguém. Talvez ele dê uma ideia, agora mesmo.
Explicaram o que estava acontecendo e de pronto Firmino sugeriu sinalizar toda a área com placas indicativas com o nome da empresa desde as palafitas até as partes mais ao largo dos currais e até às palafitas.  
-Boa ideia, exclamou o advogado. Façam isto imediatamente. Tirem fotos e as traga aqui, se possível amanhã. Entrarei com uma petição no Departamento de Obras da Prefeitura, informando o tamanho do espaço delimitado e a quem pertence. Preciso do CPF de vocês e uma xérox de suas carteiras de identidade.
Certo dia, Cal percebeu a presença de pessoas ligadas à Prefeitura rondando a área. Parecia que estavam concentrados justamente no espaço onde foram os currais Faziam medidas. Anotavam. Usavam aparelhos de topografia e fitas métricas.
Uma semana depois, receberam uma correspondência da Prefeitura entregue na sede da Associação dos Amigos do Bairro do Uruguai que não foi atingida pelo aterro. Belarmino Alves e Calixto dos Santos estavam sendo convidados a comparecer à Prefeitura, Departamento de Obras Públicas. 
Tomaram um choque. De imediato ligaram para o advogado.
- Certamente, eles querem conversar. Saber o que vocês pretendem fazer com aquela área. Possivelmente não permitirão a instalação de indústrias, nem mesmo a de pescas como era a de vocês, algo por aí, tenho a impressão. Estou sabendo que neste espaço que vai até a Maçaranduba, eles querem a construção de casas.
 
Foram recebidos pelo diretor. – Os chamei aqui para lhes comunicar que vamos iniciar a urbanização e como os senhores são os proprietários da maior área, preciso lhes dar ciência de nossos planos. Precisamos que se construam no local muitas casas. Esta foi a finalidade do aterro. Como os senhores devem saber, sofremos forte campanha na Câmara e, consequentemente, na imprensa, contra esse aterro. Dizíamos que a idéia era a construção no local de muitas residências a fim de diminuir o débito habitacional. A oposição contra-atacava dizendo que só daqui a 50 anos esse débito seria equacionado e se o fosse, seria com barracos da pior qualidade. A Prefeitura não tem recursos para fazer coisa nenhuma. O orçamento estava estourado, essas coisas. Efetivamente, falta-nos recursos para construir as casas. Daí estarmos precisando da iniciativa privada para tanto. É o caso dos senhores que sabemos têm recursos para “topar” esta parada. Outro empresário, dono de uma indústria no Largo do Papagaio já assinou um convênio conosco. Vai construir mais de mil casas populares. No caso dos senhores, quantas pretendem construir?
- Bel e Cal entreolharam-se, mais o advogado e Bel falou: mais ou menos a mesma coisa. 
- Ótimo! Então, vocês vão precisar de mais terreno. Façam uma petição requerendo mais espaço. Serão imediatamente atendidos Outra informação, já ia me esquecendo. O Banco do Brasil e alguns bancos particulares já assinaram convênios com a Prefeitura para custear a construção, caso os senhores necessitem de mais capital.
Os dois amigos e o advogado entreolham-se surpresos. Quase não estavam acreditando no que estavam a ouvir. Tanto esquema, tanta preocupação com marcações e os homens estão dando de graça mais terreno. Era inacreditável. Ligaram para Firmino.
- Firmino não lhe conto. Somos proprietários de grande faixa do aterro que fizeram. Compreende a área onde funcionavam os currais até junto às nossas casas e ainda cederam mais outro espaço igual ou superior ao que tínhamos. Somos os donos do Uruguai.
- Isto merece uma comemoração. Vamos tomar uma cerveja no primeiro bar que encontrarmos. Era Bel, o mais eufórico, ao saírem do gabinete do diretor.



 

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

O MISTERIOSO ESTÁDIO DO E.C. BAHIA


O surgimento dos shoppings em Salvador, principalmente o Iguatemi, alterou completamente a forma ou o caminho do crescimento urbano de Salvador. Antes de 1976, Salvador estava como que limitada aos espaços então existentes. Ao norte crescia invadindo o mar ou tomando as encostas; ao sul com o surgimento dos edifícios da Vitória, Graça , Barra Avenida e Chame-Chame, a maior parte substituindo antigas casas. Não havia outra maneira!
Nesse contexto, surgiu por acaso o Shopping Iguatemi em terreno existente nas proximidades da saída da cidade para Feira de Santana, próximo à Estação Rodoviária inaugurada em 1974.
Esse terreno pertencia ao pai de Jaime Saldanha, ex-preparador do Esporte Clube Bahia. Compreendia todo o Iguatemi de hoje mais o espaço ocupado pelo ex-Super-Mercado Paes Mendonça, hoje Wall Mart.
(possivelmente, parte do Caminho das Árvores também pertencia ao referido senhor).
Por acaso? Dissemos acima. Confirmamos que foi por acaso. Vamos à história: poucos sabem que nesse terreno (Iguatemi/Wall Mart) ia ser construído o estádio de futebol do Esporte Clube Bahia – O Estádio Tricolor- seria assim chamado.
Já havia até uma placa no local com a alusão a essa construção.

Sim, foi escrito assim: “o misterioso estádio do Esporte Clube Bahia” e bota misterioso nisto.

Articulistas, como o senhor Wilson Santos, comentaram o fato na imprensa. Disseram: “ ...ninguém lembra que em 1971, às vésperas da reinauguração da Fonte Nova, o Bahia chegou oficialmente a anunciar a construção de seu estádio, numa área onde hoje estão instalados o Shopping Iguatemi até os limites do terreno do Grupo Wall Mart, que controla a rede de super-mercados Bom Preço. O estádio teria a capacidade  de 110.000 pessoas sentadas, tão grande quanto o Maracanã e o prazo de sua construção estava previsto para 23 meses, ou seja, seria inaugurado em 1973.

O grande lance nessa construção diz respeito à forma como seria feito o seu financiamento. O Bahia não gastaria um centavo. Seriam vendidas cadeiras cativas e esses acentos (dez mil) ficariam sendo propriedade da empresa construtora (Odebrecth). Seriam gastos na obra R$6 milhões.
Nesse período (1970/1972) foram presidentes os senhores Manoel Inácio Paula Filho e Alfredo Saad, mas segundo se sabe, foi o segundo o articulador do processo de construção do estádio, inclusive pensava-se que o terreno do mesmo pertencia a este senhor. Talvez! Teria comprado ao senhor Saldanha e se de fato esta versão seja verdadeira, sua oferta teria sido superior à de Odebecht.
E foi aí que, de uma hora para outra, a imprensa anunciava que no local seria construído um shopping pertencente ao grupo Nacional Iguatemi da família Rique.
Ninguém entendeu mais nada, inclusive teve muita gente que já havia comprado as tais cadeiras cativas e ficaram sentados “vendo o navio passar”, segundo tradicional ditado.
Processos? Qual nada! Estamos na Bahia.


 
LEITURA OPCIONAL

Resumo do capitulo anterior: Cal e Bel foram chamados à Ilha de Maré. Firmino tinha algo importante para lhes falar.
ALAGADOS
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- Chamei-os aqui para lhes informar que a Prefeitura vai aterrar grande parte da Enseada dos Tainheiros, a partir da Bacia do Uruguai até Maçaranduba. São perto de três quilômetros ou mais, na paralela da Avenida dos Mares e do Caminho de Areia, até quase o Largo do Papagaio.
- Mestre quem lhe informou isto?
- Bel, gente do governo.
- Como gente do governo?
- Como vocês sabem todo fim de semana chegam a Maré lanchas de Salvador, muitas delas pertencentes a pessoas do governo. Foi uma dessas pessoas que, em conversa com o Mestre Ju, informou-o do grande aterro.  Ai este me passou a informação, sabendo como sabe que eu morei no Uruguai e tenho muitos amigos no bairro.
- Mas como é que pode?
- Pode Bel. Sempre pôde. Desde o momento que eles nomearam Itapagipe como Pólo Industrial de Salvador, o fluxo de trabalhadores vindos do recôncavo aumentou consideravelmente e toda essa gente está precisando de moradia. Antes que executem uma grande invasão do mar com palafitas, o governo se antecede, financiando ou mesmo dando de graça, casas em terra firme. É um jogo político de grande efeito para ganhar as próximas eleições.
- Mestre como conseguirão aterrar uma área tão grande? No local não tem areia nem barro. Só lama.
A areia virá de Itapoã e o barro virá tanto do Barreiro no Bonfim quanto da Fonte Nova, ali no dique do Tororó. 
- E aí, o que fazemos? Temos condições de impedir ou o senhor vai sugerir que já nos mudemos?
- Nada disso meus amigos. Mais do que nunca vocês irão ficar lá. Não é justo que vocês saiam da beira do mar. Ele é o sustento de vocês e de suas famílias. Para tanto eu tenho um plano.
- Plano?
- Sim, um plano de “vida”.
- É o seguinte. Vocês já fizeram alguma placa indicativa que ali funciona uma indústria de pesca?
- Ainda não, respondeu Cal.
- Vocês vão colocar duas ou mais placas indicando isto. Por exemplo: KALBELL – A INDÚSTRIA DO BAIRRO DO URUGUAI ou KALVBELL O ORGULHO DO BAIRRO DO URUUGUAI. Coisas assim, bem chamativas.
- Mas para que isto Firmino. É mesmo bem chamativo.
- Chamativo e necessário. Vocês precisam caracterizar que aquela área onde estão os currais é de vocês.
- Como assim e por quê?
- Também estou sabendo que a Prefeitura vai respeitar a atual propriedade das pessoas no local aterrado, seja residência ou negócio. Quando aquilo for aterrado, a área passa a pertencer a vocês.
- Mas os currais não seriam uma coisa ilegal e como tal não poderiam ser considerados uma propriedade?
- Nada de ilegal. Fora registrado no Ministério da Pesca e da Marinha. Nem as palafitas são ilegais. Elas são uma manifestação de um grande problema social que é a moradia.  Agora vamos comer o nosso cação. Vou subir para esquentá-lo e já desço.

- Mas mestre será uma pena que isto aconteça. As possibilidades de negócio são extraordinárias. O dinheiro entra praticamente à vista. Salvador não tem uma indústria de pesca. Só a nossa. Todo o peixe que é aqui comercializado vem de fora. O custo do frete encarece muito o produto.  Isso nos proporciona uma margem operacional excelente.

- Tudo bem, mas insisto que o negócio maior será o condomínio que se fará se lhe for dada a posse da propriedade. É só esperar. Tenham calma! Vão levando o barco até esse dia. Mas, espere ai. Acabei de ter uma idéia apaziguadora desse conflito. Vamos engrossar este caldo. Se realmente vocês estão gostando tanto desse negócio e já lamentam perdê-lo, posso lhes sugerir que poderão fazer outros currais em outros locais, tão bons ou melhor que o atual. A experiência já está ao lado de vocês.

- Mestre, que locais?

- Por exemplo, Saubara, Cabuçu ou Bom Jesús. Nesses localidades acontece o mesmo fenômeno que acontece no Uruguai. A maré na vazante descobre grandes faixas de areia ou lama. E ainda tem um detalhe muito importante: são zonas talvez mais piscosas do que a Bacia do Uruguai. Por outro lado, a Prefeitura de Santo Amaro a qual pertence essas localidades, deverá prestigiar com muito bom gosto essa iniciativa empresarial. Representaria renda para o município e emprego.

- Mestre, o senhor não existe. Que idéia maravilhosa! Vou marcar uma audiência com o prefeito de Santo Amaro ainda esta semana. Antes, passarei em Saubara para ver o fenômeno da maré vazante. Esta semana, ela está em baixa pela manhã. É dia de Lua Cheia.

Bel e Cali viajaram na quinta feira para Santo Amaro. A audiência foi marcada para as 15 horas. Daria tempo de dar um pulo em Saubara.  Confirmaram que, efetivamente, a maré na vazante descobria grande faixa de lama e areia, igualzinho ao que acontecia no Uruguai. Também se cientificaram junto a pescadores que o local tinha muito peixe, inclusive cação e caçonete. Almoçaram uma moqueca de siri mole. Um manjar. Só existe na Bahia e por volta das 15 hóras eram recebidos pelo prefeito de Santo Amaro. Expuseram seu plano e obtiveram do alcaide a promessa de apoio.

Nos trinta dias que se seguiram Bel e Cal só se preocuparam com a instalação do curral de Saubara. Diferentemente do que aconteceu com a instalação do curral do Uruguai, o cercado recebeu só redes novas. As varetas de apoio também foram diferentes. Eram de cedro por ser a madeira mais resistente à água salgada. Outra modificação que fizeram questão de introduzir no novo curral foi o formato dos tanques para constituir o coração do curral. Encomendou um conjunto que superpostos, tinha exatamente o formato de um coração. E em dia aprazado o curral foi inaugurado com a presença de grande público, vereadores e, naturalmente, o feliz prefeito de Santo Amaro que, na oportunidade, se lançou candidato a Deputado Federal nas próximas eleições. Também foi inaugurado um frigorífico com a capacidade de armazenagem de 50 toneladas de peixe, podendo ser ampliado para 100. As perspectivas eram excelentes. Ia atender a todo o recôncavo e até mesmo Feira de Santana.

Nessa noite, Bel, Cal e Firmino fizeram questão de dormir em Saubara para ver “in loco” o resultado da primeira vazante que aconteceria de madrugada. Maravilhoso! Quase uma tonelada de bom peixe. Muitos caçonetes, robalos e curimãs das grandes. Os dois amigos voltaram para Salvador, felizes e mais tranqüilos. Agora tanto fazia ter ou não aterro. Firmino seguiu direto para Maré. Também estava feliz.

E o tempo foi passando e nada de aterro. Já se desconfiava que não houvesse aterro nenhum. Teria sido um blefe.  Por outro lado, a próxima eleição a ser realizada ano seguinte adiaria ainda mais a sua execução.

Enquanto isto os dois amigos foram ficando cada vez mais ricos. Suas contas bancárias já chamavam a atenção dos gerentes de bancos.  Já eram tidos como clientes Vips.

De relação aos currais, os mesmos foram ampliados. Agora eram oito. Triplicava a colheita de peixe. Por outro lado, dava uma maior amplitude à propriedade da Kalbell. Fora mais uma recomendação de Firmino.  

Tanto Bel como Cal construíram casas de praia. Bel em Maré e Cal em Itaparica. Também ambos compraram lanchas e nos fins de semana os dois e suas famílias se dirigiam para estas localidades. O curral do Uruguai já tinha um Gerente Industrial e diversos funcionários. Foram comprados mais dois veículos frigorificados. Agora a frota possuía três caminhões para o transporte em Salvador. Em Saubara onde a distribuição era mais espalhada, indo até Feira de Santana, eram cinco veículos.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

SHOPPNG BARRA –PAINEL INUSITADO


Sem dúvida que os shoppings de hoje em dia fazem parte da história da cidade, desde que eles modificaram os padrões de consumo da população, principalmente, das pessoas com níveis de renda média e alta.

 Sofisticação, qualidade, exclusividade e um ambiente acolhedor e atraente, boa decoração e segurança, tornaram-se os critérios mais importantes nesse sentido; praticamente, eles reproduzem uma cidade no seu interior. Encontramos amplos corredores, como ruas largas, bancos, como nas praças, plantas ornamentais como nos parques, placas de sinalização orientando os usuários para onde se dirigir à busca de serviços e praça de alimentação que lembra os restaurantes e lanchonetes. Existem ainda agencia e serviços como correio, chaveiro, sapataria e diversas lojas que reproduzem a antiga paisagem de consumo do centro da cidade .Desse modo, o shopping possui tudo que a cidade oferece, mas com mais segurança, comodidade, variedade.

Depois da casa, os lugares mais seguros são os shopping centers que procuram na sua artificialidade, recriar a vida exterior, simulando ruas, praças, alamedas, bulevares, implantando praças de alimentação e outros equipamentos de lazer como cinemas, discotecas, parques de diversão, circos, pistas de patinação, exibindo shows, desfiles de moda, exposições de artes, só para citar alguns.. Longe de resgatar a vida social tradicional dos antigos bairros, as relações são impessoais, garantindo o anonimato, tão afeito ao individualismo pós-moderno. (CARLOS, A.F.,1996, p.79).

Mais um lado mportante. Todos esses serviços são concentrados em espaço relativzmente pequeno em se comparando com a extenção de  um cidade com suas ruas,  praças e ladeiras, especialmente no caso de Salvador. Praticamente o shopping é uma cidade pelo que ela oferece.

Devido a essa importancia, fizemos uma postagem em maio de 2010 sobre o Shopping Barra. Seguiamos um roteiro . Na oportunidade estávamos  historiando a Barra de antigamente e a atual. Oportunamente, fariamos uma postagem sobre o Shopping Iguatemi, o primeiro a ser construido em Salvaodr. Este, então, mudou todo um panorama da área onde foi construido – Itaigara. Não tinha nada anteriormente. O shopping fez crescer o local com belas casas e extraordinários edificios. Praticamente, Salvador como cidade mudou-se para lá. O mesmo vem ocorrendo com o Shopping Salvador e outros que brotam pela Paralela e Linha Verde.
Vamos destacar uma parte dessa postagem quando nos referíamos ao formato do shopping visto do alto. Vejam o que foi escrito na oportunidade.

 Não se poderia encerrar essa postagem, sem que nos referíssemos à diversas citações encontradas principalmente na internet, sobre o formato do Shopping Barra. Acham muitos que ele tem semelhança com a cruz suástica nazista. Pode ser! Talvez uma coincidência! O que é lamentável é a conatação negativa que se pretende fazer com esta semelhança. E daí? A cruz suástica não foi uma invenção da Alemanha-Nazista. Ela é um símbolo místico encontrado em muitas civilizações, dos índios Hopi aos Astecas, dos Celtas aos Budistas e dos Gregos aos Hindus. Na China tem suástica. No Japão também e neste país ela representa templos e santuários. Na India é tida como “boa marca”. A palavra "suástica" deriva do sânscrito svastika (no script Devanagari,) significando um amuleto da sorte, e uma marca particular de pessoas ou coisas que trazem boa sorte. Viu como se pode ver uma determinada coisa que parece negativa de outra maneira? Pelo lado positivo que se escondia no desconhecimento e na ignorância.



Estamos acrescentando uma imagem  de sua lateral, inclusive da ampliação que se faz onde era o antigo estacionamento descoberto:

Nessa lateral, estão colocando enormes placas de vidro negro que que dão um aspecto monumental ao conjunto.


Moramos nas proximidades dessa obra e fotografamos o "painel" que se está instalando. Painel? Sim, estamos mostrando. Vê-se uma serie de figuras monumentais. O efeito é provocado pelo reflexo  das árvores e prédios em frente..







LEITURA OPCIONAL

Resumo dos capítulos anteriores: Dois amigos pescadores dos Tainheiros, originários da Ilha de Maré construíram duas palafitas na antiga Bacia do Uruguai...; um vizinho, morador antigo da área, maranhense de nascença sugeriu aos dois rapazes fazerem um curral de peixe, nada mais, nada menos, do que uma “armadilha” de espera dos peixes na enchente e apanha dos mesmos na vazante. Fizeram e ficaram ricos, muito ricos.

ALAGADOS

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Um contador fora contatado imediatamente e em poucos dias fora conseguida uma linscrição provisória. Os 20 dias passaram rápidos. Cal e Bel se revezavam. Ora um estava no frigorifico e o outro na entrega dos peixes.. O motorista era o mesmo.  Foram contratados dois homens para apanha dos peixes e dois outros para o frigorífico. Enquanto isto, o espanhol já havia marcado sua viagem de volta para a sua terra.  
Vale contar como foi escolhido o nome da firma de Cal e Bel para efeito de registro definitivo. Inicialmente pensaram no nome URUGUAI DISTRIBUIDORA DE PEIXES LTDA., em homenagem ao bairro onde moravam. Sem dúvida um bom nome. Foram consultar Firmino.
- Estamos aqui tentando encontrar um nome para a firma. O senhor tem alguma sugestão?
Realmente é um bom nome, mas porque vocês não usam os nomes de vocês dois e formem outro nome.  Por exemplo, CALBEL e acrescente a sua finalidade, INDÚSTRIA DE REDE DE ESPERA. Simples!
- Bom nome seu Firmino, mas está faltando FIR de seu nome. Mesmo que o senhor não queira participar da sociedade, é justo que se inclua suas letras.
- Cal. Vou provar que ia ficar horrível. Vamos pegar a junção de seus nomes e acrescentar FIR. Iria ficar FIRCALBELL; Horrível! Agora vamos colocar o FIR no fim da junção: CALBELFIR. Pior! Como vocês veem, até no nome eu estou certo em não participar, mas, acreditem, estou muito feliz. Minha decisão foi acertada. Este mar é de vocês. Eu sou um intruso.
No dia seguinte, levaram o nome para o contador que achou interessante. As primeiras letras dos nomes dos sócios e a finalidade bem explicita do negócio.  Só faria uma pequena mudança. Mudaria o C de Cal para K de Kal. Ficaria KALBEL INDÚSTRIA DE REDE DE ESPERA LTDA.- Fica mais forte. Os nomes com K são muitos fortes.
-Então, agora me chamo Kal e não Cal. Gostei. Aprovado, não é Bel.
- Claro que sim, aprovado. Não dá para colocar mais um L no meu nome BELL. Ficaria KALBELL.
- Sensacional. Ficou ainda melhor, respondeu o contador. Parece um nome inglês. Essas pequenas coisas impressionam o público.
Enquanto isto foram construídos dois novos currais. Esses já possuíam um coração maior. Tinham três tanques cada um. Também se fez uma novidade. Foram plantadas pequenas mudas de mangue dentro do espaço cercado pelas redes, bem como foram jogados aleatoriamente, pedaços de pratos quebrados para atrair maior número de peixes. Nesta última providência se inspiraram na pesca com manzuais, também uma pesca de espera. A brancura dos pratos atraiam os peixes.
Como resultado, a produção de peixes já beirava a uma tonelada dia. A quantidade adiantou o pagamento do frigorífico e a Kalbell começou a faturar por conta própria. Foi contratado um vendedor externo para o serviço de vendas às peixarias e uma moça para o serviço interno de escritório. Cal e Bel se revezavam. Ora estavam nos currais, ora no escritório.
De relação a Firmino, este já tinha se mudado para Maré e, segundo se soube, (mestre Ju esteve em Salvador),  teria construído uma palafita na ilha. Algo inovador. Os dois amigos, todo mês, mandavam  para ele 1% do faturamento em meio a protestos por telefone.
Com seis meses de funcionamento, a Kalbell possuía uma belíssima e extraordinária conta nos bancos. Trabalhavam com três deles. Constantemente, eram visitados por seus gerentes com propostas de investimento e seguros.
Não decidiam nada antes de ouvir o contador que se tornara um amigo. Fizeram-no um convite para ser o gerente de finanças da nova empresa. Ernesto aceitou, este era o seu nome. Por sua vez ele contratou mais um funcionário. Agora era uma moça e um  rapaz, ambos moradores do Uruguai. Cal e Bel insistiam que fosse gente do bairro.  Também fora contratado um Gerente Comercial que, por sua vez, precisou de mais um vendedor. Chamava-se Otávio.  Cal e Bel se revezavam ora no escritório onde tinham uma sala bem organizada e no mar, foram contratados dois fiscais que atuavam numa lancha, comprada à vista. Esses homens também ajudavam no carrego dos peixes.
 Ficaram ricos em pouco tempo, mas em nenhum momento esqueceram-se dos velhos pescadores do Uruguai e comunidades vizinhas. Faziam generosas doações a entidades filantrópicas que a todo o momento os procuravam. Continuaram morando nas suas antigas palafitas, naturalmente agora já aumentadas e melhoradas. Já eram de alvenaria. De relação aos filhos, claro que passaram a estudar em escolas particulares. As esposas dirigiam a distribuição dos donativos junto com a paróquia local e a Associação dos Moradores do Uruguai, dirigida pelo senhor Maneca.
Certo dia, o contador alertou Cal e Bel de registrarem a indústria no Ministério da Pesca. Era uma obrigação que ainda não tinha sido cumprida. Também era necessário uma  licença da Marinha conseguida rapidamente.
Em determinado sábado, Bel recebeu uma ligação de Maré. Era de Firmino.
- Preciso falar com vocês. É coisa urgente! Venham amanhã como sem falta. Estarei preparando uma moqueca de caçonete. Vocês vão adorar. Venham sós. Não terão tempo de dar assistência aos filhos.
- Se é urgente por que não nos diz logo do que se trata?
- Só pessoalmente. Estou desligando.
- Compadre, deve ser coisa séria pra o Firmino está nos chamando assim tão de repente.
Acordaram cedo e ajeitaram as velas da grande canoa, inclusive a bujarrona.  Ela dava um charme todo especial ao conjunto de duas velas. Pegaram dois cestos e uma rede de malha miúda. A idéia era antes passar em Freguesia e pescar algum camarão e siri mole para presentear o velho mestre. Este último era o crustáceo que ele mais gostava. Por outro lado, sentiam necessidade de pescar. Estava fazendo falta. Até a cor das suas peles tinha mudado. Eram mais brancos. Tinham agora cabelos bonitos, bem penteados. Pareciam outras pessoas.
O vento leste facilitou a viagem. Viajaram apoupado quase todo o tempo. Chegaram em menos de uma hora. Como sempre, Freguesia estava uma beleza. Nas bordas da Mata Atlântica, lá estava o imponente e belo palacete Wanderley de Pinho. Parecia abandonado. É de se imaginar que ao tempo de sua construção este local era maravilhoso. Tinha um engenho de açúcar.
 
Rapidamente conseguiram pescar uns cinco quilos de camarão de bom tamanho e três dúzias de siri mole.  Amararam os cestos na popa da canoa e os afundaram. A idéia era chegar à Maré com eles ainda vivos. Levantaram os panos das velas e seguiram em direção à ilha ali próxima. O velho Firmino, acompanhando pelo mestre Ju, já os esperava na praia. Sem aliviar embicaram na areia mais da metade da canoa sobre risos dos dois amigos.


- Os vi de longe. Como corre esta canoa! E como é bela!
- Grande Firmino. Acho que a ilha o remoçou, falava Bel com a aprovação gestual de Cal. Abraçaram Juvenal que era todo risos, uma simpatia.
- Vocês é que estão bem. Eu já caminho para o fim da vida, mas estou feliz. Realmente, a ilha me fez muito bem. Também só como peixe.
- Mestre, o senhor está com que idade?
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- Sinceramente, não parece. Quem não lhe conhece bem vai lhe dá 50 anos.
- Bondade de vocês. Como sempre, muita bondade.
- Trouxemos uns camarões e siris moles para o senhor.
- Vocês não têm jeito. Vamos para a nossa casa de mar.
- Casa de mar?
- Sim. Os ricos não têm suas casas de praia porque juntas a elas? Da minha parte, tenho minha casa de mar, porque junto a ele.

C:hegaram à casa de Firmino. De fato era uma casa de mar. Lembrava mais um quiosque do que a uma palafita; aliás, estava muito longe de ser uma palafita. Fora feito um acesso de madeira ligando a terra ao quiosque




 Todos os lados menos o de acesso tinha o mar como contorno. Desceram a escada em direção ao que o mestre chamava de “meu píer”. Tinha sido providenciada uma mesa e três cadeiras;
- Antes do caçonete, vocês vão comer meus carapicus fritos. Eu mesmo os pesquei aqui do píer. Aliás, além dos carapicus, pesco siris e agulhas. Essas eu pesco de noite. É só acender um fifó e as bichinhas são atraídas pela luminosidade. Com um jereré de cabo comprido é só abafá-las. Também comprei umas cervejas
- Mestre isso mais parece uma festa, manifestou Bel, surpreso. Afinal de contas o porquê do seu chamamento mais do que urgente?
- Primeiro, vamos tomar a nossa cerveja e comer nossos peixinhos. Depois lhes falo do que se trata.
- Já que é assim, vou cozinhar uns camarões. Era a vez de Cal ajudar na preparação do “evento”.



 

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

MANOEL IGNÁCIO- O DESCOBRIDOR DO PETRÉLEO BRASILEIRO


EM 10/10/2010 tivemos ocasião de fazer uma postagem onde escrevíamos sobre a descoberta do petróleo no Brasil, justamente na Bahia, Lobato, subúrbio ferroviário de Salvador. Passamos a transcrevê-la:

Foi no Lobato que se descobriu o primeiro poço de petróleo do Brasil. Em 1930, o engenheiro agrônomo Manoel Ignácio de Bastos, com base no relato de populares de que usavam uma lama preta como combustível de suas lamparinas e fifós, coletou uma amostra e constatou que se tratava de petróleo. Conseguiu uma audiência com o Presidente Getúlio Vargas a quem entregou um laudo técnico de seu achado. Ficou esperando o resultado. Não tendo sucesso, procurou o então Presidente da Bolsa de Valores da Bahia, Oscar Cordeiro, a fim de que fosse dado uma força. (1933). A força foi demasiada! Ele próprio assumiu a descoberta do petróleo e ganhou todas as homenagens pelo feito. Em 1940, por exemplo, quando Getúlio Vargas esteve na Bahia, de hidroavião, dirigiu-se de lancha até o Lobato. Ao seu lado estava o senhor Oscar Cordeiro. Diz-se que, na época, o verdadeiro descobridor agonizava num leito de um hospital. 

Mas a Petrobrás agiu de maneira decente e digna. 15 anos após, a empresa reconheceu a verdadeira autoria da descoberta, após analisar extensa análise documental apresentada pela viúva de Bastos.


É impressionante a entrevista da referida senhora que se chamava Diva concedida ao Jornal da Bahia na década de 1950. Num determinado trecho ela em carta dirigida à filha diz: “ Minha filha, eu agora tomei um choque. Passei no Lobato e vi lá uma placa – “Mina de Petróleo de Oscar Cordeiro”. E eu retruquei. Não disse a você, Maneca, que não convidasse ninguém e esperasse ajuda do governo? E Maneca, sempre incisivo nas respostas: “mas minha filha, Cordeiro como presidente da Bolsa de Mercadorias, pode levar avante a parte comercial da sociedade”.
Maneca- apelido de Manoel Ignácio Bastos.




Poucos anos depois, o Poço Manoel Ignácio Bastos foi fechado pela Petrobrás. Para que tal ocorresse, aconteceu uma verdadeira operação de guerra. Todos os moradores da região foram avisados de que não poderiam acender fogão durante uma semana. A Petrobrás garantiria o fornecimento de marmitas durante esse período. Foi o que aconteceu. D. Maria, moradora do local sendo entrevistada revelou: “Foi uma semana de mordomia. Nunca passamos tão bem”.


Pois bem! Estamos voltando ao assunto pela seguinte razão: recebemos de Jorge Luiz Deiró Menezes,  parente do engenheiro Manoel Ignácio Bastos, um trabalho da senhora Petronilha Pimentel, jornalista do Rio de Janeiro, sobre a referida descoberta.

Muitos esclarecimentos são feitos nesse trabalho, aos quais não poderíamos deixar de reproduzir para nossos leitores. É uma complementação importante que esclarece de vez a polêmica sobre a verdadeira autoria do descobrimento de nosso petróleo.
Como se sabe, ensina-se nas escolas e divulga-se por toda a parte, que o descobridor do petróleo brasileiro teria sido o senhor Oscar Cordeiro, então Presidente da Bolsa de Mercadorias da Bahia à época (1933).

Na pesquisa da jornalista carioca, fica claro que o verdadeiro descobridor foi o engenheiro agrônomo e civil, Manoel Ignácio Bastos, nascido em Salvador em 20 de março de 1891 e falecido em 1940, aos 40 anos de idade.

E como o senhor Oscar Cordeiro entrou na história?  Simplesmente à convite do próprio Manoel Ignácio. O engenheiro já havia descoberto o petróleo do Lobato e não foi por acaso a descoberta como se julga e até nós relatamos que o engenheiro teria escutado  o relato de populares (moradores do Lobato) de que usavam uma lama preta como combustível de suas lamparinas e fifós, coletou uma amostra e constatou que se tratava de petróleo.
Simples, não é verdade? Mas por trás dessa simplicidade, diríamos mesmo sorte, há uma base que precisa ser divulgada. Nosso “amigo” engenheiro já era um pesquisador ferrenho de garimpos de ouro e diamantes, pois lhe interessava tudo quanto cheirasse a matéria mineral, como afloramentos, amostragens e dados os mais diversos que iluminassem o roteiro para os tesouros enceleirados na terra” (...) au. Pedro Moura.

Continua esse autor: “Toda a história do óleo do Lobato oscila entre um “buraquinho ridículo de aratu (espécie de caranguejo) de onde, depois de escarunfunchar, o curioso Manoel Ignácio Bastos em 1930, viu verter um líquido, oleoso, escuro, com aparência de petróleo, e o poço número 163 que o DNPM perfurou no local em 1938/1939 para extirpar um tumor (....).

Logo em seguida, outro escritor, Ilmar Penna Marinho Jr. Endossando as afirmações de Pedro Moura sobre Ignácio Bastos, disse:

O engenheiro Paulo de Moura, com sua incontestável autoridade, tomando a defesa de Manoel Ignácio Bastos, um auto-ditada em Geologia, e que mantinha correspondência com técnicos no exterior, presta seu depoimento no sentido de considerar Bastos como quem primeiro começou a pesquisar petróleo na região de Lobato, quando tomou conhecimento de que moradores usavam “uma pasta oleosa” para acender suas lamparinas, seus fifós (como são denominados na Bahia). Até que um dia conseguiu o comparecimento do presidente da Bolsa de Mercadorias (Oscar Cordeiro) no local.
Como se vê, o senhor Oscar Cordeiro fora convidado para ver “in-loco” o pequeno buraco de aratu e deu no que deu. De imediato o homem foi no cartório e tacou o registro do invento nos seguintes termos (oficiais):
Certifico que às fls. 174 do livro 4 foi inscrito hoje, sob o número 225 em nome de Oscar Cordeiro e Manoel Ignácio Bastos, residentes nesta Capital, a Mina de Petróleo descoberta pelos mesmos senhores, cita no lugar denominado Lobato, na feeguesia de Pirajá, em terreno pertencente à Marinha, à União,parte afora à Société de Construction Du Port da Bahia e parte à Companhia Progresso Industrial, cuja transição teve lugar em virtude de despacho do Exmo. Sr. Dr. Juiz da Vara Cível, em petição de 22 de maio dse 1933, e nos termos do artigo número 173 do Decreto número 18.542 de 24 de Dezembro de 1928 (assinado) Franklin Roigues Pompa – Segundo Oficial de Justiça.”
Reparem que o nome do senhor Oscar Cordeiro vem em primeiro; secundariamente, vem o nome do engenheiro. Não está certo. É nossa opinião.
Certo dia, a viuva de Manoel Inagcio foi até o Lobato vê o pôco de seu marido. Tomou um susto! Deparou-se com uma placa dizendo: " POÇO DE PETROLEO OSCAR CORDEIRO -O PRIMEIRO POÇO BRASILEIRO"- Tomou um susto, mas correu atrás. Procurou a Petrobrás. Mostrou as provas e a grande empresa brasileira, DIGNAMENTE, lhe concedeu uma pensão vitalícia. Por uma dessas ironias da vida Manoel Inagcio morrera pobre, aliás, bastante pobre.

LEITURA OPCIONAL

ALAGADOS
3
Às 6 horas da manhã, já os três amigos estavam viajando na canoa “Ilha de Maré” com bujarrona e tudo. Iam apopados com ventos de leste para oeste. Chegariam a menos de uma hora. Bicaram na praia. Era uma proeza que Cal gostava sempre de fazer. Buscava colocar toda a canoa na areia. Os amigos que já tinham visto a proeza outras vezes, sempre torciam pelo sucesso da manobra. O recorde era de 8 metros. A canoa tinha 10 metros. Daquela feita, tinham igualado a melhor marca. Estava bom.
Foi recebê-los o Mestre Ju- Juvenal Aparecido de Jesus com todas as letras e mais uma dúzia de velhos pescadores.
- Já vi que trouxe um amigo para conhecer Maré, apontando Firmino.
- Amigo e vizinho lá no Uruguai.
Abraçaram-se.
- O senhor vai gostar de nossa ilha. Temos a melhor moqueca de caçonete da Bahia. Vou mandar preparar uma para hoje ou vocês preferem peguari?








sábado, 8 de setembro de 2012

RUA DAS PRINCEZAS – HOJE RUA PORTUGAL


Certa feita fizemos uma postagem sobre o bairro do Comércio na Cidade Baixa. Titulamo-na  “O COMERCIO SEMPRE NOS SURPREENDE”. Em verdade, buscávamos traços de como fora este bairro no século XIX e principio do século XX. Infelizmente só encontramos pedaços do extraordinário conjunto. Renovo esses pedaços nas fotos abaixo:



Extraordinário conjunto? Sem dúvida que era. Diz-se que “se Salvador tivesse mantido  o que tinha antes, mas o que tem hoje, seria uma das maiores cidades do mundo”.
Hoje e agora, podemos tirar a prova dessa afirmação com a publicação de fotos da antiga Rua das Princezas (com z) – que não é outra senão a nossa conhecida Rua Portugal dos tempos atuais:
Rua das Princezas- Bela e Aristocrática – Reparem que muitas bandeiras estão hasteadas. Só não tinha árvores como é hoje, mas para que? Não se veria os belos prédios na sua magnífica composição urbana; também esconderiam as bandeiras.

LEITURA OPCIONAL


ALAGADOS
2
A moqueca estava uma delícia. Cal e Bel levaram umas cervejas e o jantar se estendeu  até quase 9 horas. Em seguida, os três homens desceram até uma espécie de píer que a  palafita do senhor Firmino possuía.
- Interessante esse píer, senhor Firmino.
É senhor Cal, ajuda a mudar de ambiente. Em vez de ficar socado todo o tempo no barraco, desço até aqui e me espreguiço numa cadeira de lona. Às vezes, durmo e só acordo de manhã, principalmente em dias muito quentes. Vamos conversar um pouco. Ainda é muito cedo. Por favor, pegue duas cadeiras lá em cima. Em me recosto na minha de lona.
- Senhor Firmino, como o senhor veio parar aqui, perguntou Cal?
- É uma longa história. Nasci no Maranhão, Aos 25 anos fui para São Paulo onde fiquei por 15 anos. Trabalhei em diversas indústrias Em 1940 soube que estava sendo implantado um polo industrial em Salvador, dos mais promissores, principalmente no setor de chocolate. Bahia era a terra do cacau. Fui admitido na Chadler aqui no Uruguai. Aluguei um quarto nas proximidades, mas soube que estavam invadindo o mar com a construção de palafitas. Resolvi também fazer a minha. Estaria livre do aluguel. Já havia uma meia dúzia construída. Aos poucos fui melhorando o seu aspecto, até que resolvi fazer esse píer.  Aposentei-me antes que a Chadler fechasse suas portas, mudando-se para os Estados Unidos. Quando a Chadler fechou, com o dinheiro da indenização comprei esta canoa. Comecei a pescar. Praticamente sem despesas, sem pagar luz nem água e o peixe e o siri como alimentos, consegui fazer até uma poupança. Penso em sair daqui e passar meus últimos dias numa dessas ilhas da Baía. 
- E o senhor nunca se casou?
- Não Bel. Conheci muitas mulheres em São Paulo, mas não me casei. Sempre fui sozinho. Já era difícil me sustentar sozinho, quanto mais com mulher.
E vocês, parecem que são casados. Vejo crianças tomando banho de mar em frente às suas palafitas.
- Somos. Minha mulher chama-se Ana Maria e tenho três filhos, Alex, Mauro e Maria, dizia Bel. Já Cal tem um casal. Carlos e Milena. Sua mulher chama-se Angélica. Nossas casas foram feitas na mesma época. Morávamos em Maré e víamos pescar aqui na Enseada. Um dia, vimos um grupo de pessoas levantando palafitas que nem o senhor. Aproximamo-nos e perguntamos como se fazia para obter a licença para construir ali.
- Não precisa de licença. É só possuir umas tábuas e uns troncos por aí e em pouco tempo você tem a sua palafita levantada.
Naquela mesma semana, trouxemos tábuas e troncos de Maré e levantamos as nossas palafitas. Na outra semana trouxemos as mobílias e as famílias vieram de barco até aqui. Em Maré morávamos em casas melhores que as palafitas daqui, mas os filhos estavam crescendo e precisavam estudar.
- Nossas palafitas são conjugadas. Somos vizinhos de tábua. O que se fala numa casa, ouve-se na outra. Além do som, passa a luz, não é Bel?
- Por essa razão nenhum fala mal do outro e vice-versa. Nossas mulheres se entendem muito bem. Ajudamo-nos mutuamente. (Risos);.
- O que mais o senhor quer saber?
- Nada. Perguntei por perguntar. É normal no principio de um relacionamento. Mas, mudando de assunto, vocês estão satisfeitos com o que pescam?
- Satisfeitíssimos. Dá para todo mundo comer e ainda damos peixes aos pescadores mais idosos aqui do Uruguai que não têm mais condição de pescar. Também ajudamos à Associação dos Moradores do Uruguai, uma entidade presidida pelo senhor Maneca. Por sua vez, ele redistribui o peixe que lhe damos.
-Mesmo assim, acho que vocês ostariam de pescar uma maior quantidade, não é verdade?
- Claro! Quanto mais melhor até certo ponto. Não temos como guardar o peixe. Não possuímos geladeira. Aliás, ninguém aqui do Uruguai possui uma.
- Pois bem. Tenho uma forma de aumentar a pescaria de vocês, forma esta que pensei colocar em prática, mas já não tenho mais idade e seria uma pena que a ideia se perdesse quando eu morrer. Querem saber como?
- Como aumentar a pescaria! Somos considerados os tainheiros mais bem sucedidos dessa região. Temos uma boa canoa e boas tarrafas. Também temos redes para pescar camarão.
- Não quero subestimar a capacidade de vocês. Mas a forma de pescaria que eu pensava fazer aqui, não tem igual. A maioria dos pescadores de minha terra pesca assim. Aliás, até os índios usam esse sistema.
Cal e Bel se olharam um tanto quanto descrentes, mas Bel  resolveu falar: - pode-nos mostrar sua fórmula mágica?
- Vou subir e já trago um desenho que eu fiz. Na volta colocou uma folha de papel em cima da pequena mesinha entre as três cadeiras. Está aí.
- Vou lhes explicar. Chama-se “curral”. É uma rede de espera. Os pontos sinalizam o seu formato. Há uma abertura na parte superior esquerda para entrada dos peixes numa maré cheia; em seguida um labirinto para que eles não possam retornar. Aliás, eles não sabem como retornar. No centro, em vermelho são quatro tanques de água de amianto, enterrados na lama até a boca. São chamados de coração do pesqueiro.  Quando a maré esvazia, os peixes não têm ou não sabem como sair. Alguns pulam, mas a maioria se dirige aos tanques que se mantêm com água, afim de não morrerem.  Aí é só catá-los. Simples! Vocês poderão  fazer diversas armações desta ao longo da enseada. É um mar de peixe. Vocês vão ver.
- Mas lá em sua terra pode funcionar e aqui não.
- Vejo aqui as mesmas características de mar que nem na Barra do Maranhão. O mar se descobre centenas de metros. Vira tudo lama, como aqui. Igualzinho!
É, podemos tentar, mas de cara vejo um problema, aliás, um problemão. Não temos dinheiro para comprar redes, paus e tanques. O senhor parece que também não tem.
- Cal e Bel. Não vai ser necessário dinheiro algum. Só trabalho de procurar por ai os elementos dessa armadilha.  As redes, por exemplo, o que é o mais caro poderá ser encontradas aí pelas ilhas. Redes usadas, imprestáveis, jogadas na areia. Já não servem para pescaria de grandes peixes. As malhas já não aguentam, mas para nós elas funcionarão. Os paus, temos o mangue à nossa disposição. É só cortá-los e os tanques, possivelmente, podemos achá-los velhos, jogados fora por moradores ou abandonados nas velhas casas. 
A convicção daquele homem impressionava os dois rapazes. O projeto tinha alguma lógica. Resolveram aceitar. Começaremos amanhã. Vamos todos à Ilha de Maré, é um bom começo, eu, Bel e o senhor. Se nada encontrarmos, pelo menos comeremos uma boa moqueca de caçonete ou peguari.