quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

LAVAGEM DO BONFIM – PERCURSO – 1ª PARTE

...e ás 10 horas da manhã, o povo começa a andar. À frente do cortejo vão os políticos divididos pelo menos em três grupos: o do governador e seus secretários; o do prefeito e seus secretários e o pessoal da oposição, sempre o mais aplaudido. Logo atrás a banda de música de uma corporação militar; em seguida, o pessoal dos sindicatos e suas faixas fazendo as costumeiras exigências. Essa é a parte dispensável da Lavagem, mas não tem como evitá-la. Faz parte! Depois vêm as baianas, centenas delas vestidas de branco, muito branco, das dálias e das angélicas; é um grande momento, aliás, o primeiro grande momento, desde que, ao longo do percurso outros grandes momentos vão acontecer até aquele último já nas escadarias do templo ou um pouco antes na subida da ladeira. Após este estado de beleza o jegue eletrônico dá o ar de sua graça e de sua irreverência. Depois mais branco, o branco dos filhos de Gandhi , milhares deles e o seu perfume de alfazema impregnando as pessoas, as ruas e as praças.

Em seguida os jegues mais enfeitados do mundo, puxando suas carroças igualmente fantasiadas de papel crepom, flores plásticas e balões de látex. Conduzem “ilustres” passageiros que pagam pelo luxo de cervejas geladíssimas armazenadas em caixas térmicas; até mesmo o gelo trazido de casa para as doses de uísque 12 anos e quibes e empadas feitos em casa. A carroça tem espaço para muita coisa, da mesma forma que tinha antigamente para carregar a madeira carbonizada que vinha das ilhas para esquentar os arcaicos, mas necessários utensílios domésticos das residências do século XVIII para XIX que requeriam aquecimento, principalmente aqueles para cozimento dos alimentos.

Claro que isto merece mais esclarecimento. Um pouco antes dos períodos citados, toda a lenha que vinha das ilhas e do recôncavo, inclusive a carbonizada (carvão) chegava a Salvador em saveiros no Porto da Lenha, ali embaixo do Bonfim. Esse material subia pela Ladeira da Lenha no lombo dos escravos . Do Bonfim, a “preciosa” e utilíssima mercadoria era transportada em carroças puxadas a jegue pelo Alto do Monte Serrat, seguindo pela atuais Avenida Luiz Tarquínio e Barão de Cotegipe, Calçada e chegava na antiga Feira de Água de Meninos que ainda não existia. Ai à esquerda, subia para a Cidade Alta pela hoje Ladeira da Água Brusca, Santo Antônio, Pelourinho, até alcançar as portas de Santa Catharina ao norte da cidade. Lá dentro, e depois fora, morava a maior parte da população de Salvador.
 
É por essa razão que as carroças participam da lavagem. É um interessante simbolismo! Quem diria?
 
Também com grande simbolismo é a participação das “baianas”. Não somente pela beleza de suas vestes e o encanto e a simpatia de suas pessoas. Têm um significado religioso. No Candomblé muitos santos da religião Católica têm uma referência sincrética, de sincretismo, que significa, assim muito rapidamente, uma mistura de crenças, ou seja, uma reunião de elementos de uma religião aceitos por outra. No caso, no sincretismo do Candomblé, Senhor do Bonfim é Oxalá, o mais importante deus iorubano, representando o principio de tudo, inclusive de criar o mundo e determinar o fim da vida. É o pai da brancura, da paz e da união. É contra a violência e gosta de limpeza e pureza. Seus filhos devem vestir branco todas as sestas feiras. Daí a indumentária de todos que vão à Lavagem do Bonfim, daí as baianas que vão lavar hoje as escadarias do grande templo.


Antes, lavavam (simbolicamente) o mesmo templo. Fotografias da época. Nesse tempo, só as baianas tinham o direito de lavar a parte interna da igreja. A parte externa era lavada por devotos não caracterizados. As imagens mostram mais ou menos este detalhe


Acrescentamos ainda que Oxalá é muito ligado à água, daí a sua maior festa chamar-se “Águas de Oxalá” e já por ai se sente e se compreende as ligações com a lavagem do Senhor do Bonfim. Fortalece as ligações acima expostas.

Outros animais participam da lavagem: são os cavalos. Eles vêm de chácaras da Grande Salvador, de Pirajá, Cabula, Mata Escura e outras localidades. Diz-se que até das ilhas vêm cavalos (nos antigos saveiros). São também uma representação e referência daqueles velhos tempos.

Na sequência, diversos blocos de percussão própria e clarinetes estridentes. A Timbalada, por exemplo, costuma aparecer.

Aparecem também torcedores do Bahia, este ano comemorando sua permanência da 1ª divisão. Os do Vitória também costumam aparecer, mas este ano não têm o que comemorar.

E lá vem o povo todo de branco. Muita gente! Em frente à Praça Cayru, percebem a 1ª placa indicativa do percurso. Achamos que é único percurso no mundo com esse detalhe.

6.500 metros até a Igreja do Bonfim. Disseram que eram 8.000 metros, mas pode ser. Muita gente costuma dar uma entrada na Feira de São Joaquim para umas e outras e até almoçar e assim completar a distância “oficiosa”.
 
Já estamos entrando na Rua Miguel Calmon, a antiga rua dos bancos, hoje a rua das faculdades e de dezenas de casas de crédito. O saber e o consumo estão em alta!
 
Ao final da Miguel Calmon temos o privilégio de ver um dos mais belos edifícios de Salvador. Nele funciona a Associação Comercial da Bahia.

Essa belíssima construção foi erguida no terreno da antiga bateria (obra fortificada com peças de artilharia) do Forte São Fernando, anteriormente chamado Cais Novo. Decorria o ano de 1811. Foi inaugurado no dia 28 de janeiro de 1817.

Quem quiser ver mais alguma coisa do Comércio, é só entrar por uma de suas ruas à direita da Miguel Calmon e vai apreciar belíssimos prédios da fase áurea dessa parte da cidade.


No largo em frente levantaram um belíssimo obelisco em homenagem à Batalha do Riacuelo;
Foi inaugurado em 23 de novembro de 1874 e sua origem é francesa. É composto por pedra calcárea, bronze e ferro. Tem 23 metros de altura e um diâmetro de 27,60m.
À título de curiosidade, em 1817 o mar chegava junto a esse obelisco. Ainda não tinha sido construída a Av. Miguel Calmon.

Ali próximo, tem inicio a Av. Jequitaia que termina no Largo da Calçada. A placa de distância nesse local indica que a Igreja do Bonfim se encontra a 5.5 km, consequentemente, a passeata só cumpriu apenas um quilômetro, mas um quilômetro de pura alegria e devoção. Não deu nem para sentir!

Esta região antigamente era muito bonita. Chamava-se Cais Dourado. Vejam uma foto:



Reparem a quantidade de saveiros aportados na área.
Praça Marechal Deodoro de hoje. Antigamente chamava-se-se Praça Cais do Ouro ou Cais Dourado.
Nas proximidades do Cais Dourado se multiplicou o número de trapiches que eram as grandes casas de comércio da época. Absorviam todas as mercadorias importadas e as vendiam. Salvador chegou a ter para mais de 400 trapiches. Com o advento do porto e a taxação das mercadorias importadas em 40% todos os trapiches fecharam as portas, encerrando um ciclo de prosperidade dos maiores de todo o mundo. Salvador era considerada a capital do Hemisfério Sul.
A esquerda da Jequitaia, numa pequena subida, acha-se uma igreja um tanto diferente das demais. Trata-se da Igreja Nossa Senhora do Pilar, também conhecida como Igreja de Santa Luzia, porque lá se encontra uma imagem da grande santa protetora dos olhos.
 

Olha como era o Forte Santo Alberto por volta de 1694.
 
Projetava-se sobre o mar em cima de uma barreira de recifes.


Hoje é assim. Mais significativo ainda é o fato de que o forte que estamos vendo acima, foi construído sobre um outro que existia no local e foi demolido. Verdade! Nesse mesmo local existia o Forte São Thiago de Água de Meninos, também conhecido como Forte Lagartixa, construído entre 1590 e 1610.



Nesse local, temos mais uma placa da Prefeitura. Indica que estamos a 4 quilômetros do Bonfim. Que bom!

Depois, alcançamos a Calçada, antes conhecida como Calçada do Bonfim. O destaque hoje é a sua estação de trens. Foi construída em 1860 e reformada em 1981 com a atual fachada. Quando de sua abertura denominava-se Estação da Jequitaia e era uma estação “central e marítima da estrada”, segundo descrição de Cyro Deocleciano em 1886. Depois foi denominada Estação Bahia e finalmente Estação da Calçada.
Sua história começou em 1853, quando um senhor chamado Joaquim Francisco Alves Branco Muniz Barreto, recebeu do Governo Imperial a concessão por 20 anos para construir uma estrada de ferro saindo das proximidades do porto de Salvador até Juazeiro, às margens do Rio São Francisco. Muniz Barreto era engenheiro. Não se sabe como o referido senhor conseguiu a referida concessão, desde que ele próprio não tinha condições financeiras de construir uma ferrovia. Isto ficou comprovado dois anos após quando transferiu a difícil e milionária concessão para a Bahia and São Francisco Railway Company, uma empresa inglesa.

domingo, 8 de janeiro de 2012

LAVAGEM DO BONFIM – DESTAQUES DE SEU PERCURSO- CONCENTRAÇÃO

Grande parte da população vai andar da Conceição da Praia até a Colina do Senhor do Bonfim na próxima quinta feira. Não é “andar de carro” na baianidade de nosso falar, mas andar mesmo, á pé.

 Tem até uma tradicional camisa que retrata muito bem esse procedimento: estampa em letras garrafais o dito: “QUEM TEM FÉ VAI A PE”. Todos os anos ela se renova.

É dessa maneira que o baiano, há muitos anos, dá ao mundo um exemplo de admiração pelo seu Santo preferido, Senhor do Bonfim e o faz se vestindo de branco, cantando, sambando, tomando umas, paquerando, lavando a alma.

É uma festa maravilhosa! Tem razão determinado blog aqui visto, quando diz que “se lhe fosse dado o direito de escolher entre o Carnaval e a Lavagem como exemplo da melhor festa da Bahia, não teria dúvida de apontar a Lavagem”. E olhem que o nosso Carnaval é um dos melhores do mundo.

Efetivamente é uma festa maravilhosa, única em todo o mundo, organizada pelo povo, desde que a Igreja a qual ela está veiculada, quase a proíbe ou pelo menos, desaconselha-a, fecha as portas de suas igrejas, pinta e borda negativamente.

O turista que não está sabendo da história; fica sem entender este incrível disparate e muitos que aproveitam para conhecer a igreja nesse dia, ficam decepcionados ao encontrá-la fechada. Não se vê nem um padre.Parece que eles são proibidos de sair às ruas nesse dia.

Devia ser ao contrário. No mundo inteiro a igreja está veiculada a manifestações populares dessa ordem, haja vista, por exemplo, a manutenção de um capelão em todas as praças de touros da Espanha para abençoar os toureiros que em poucos minutos, logo após, estará na arena matando um animal indefeso sob os aplausos de uma galera enfurecida que só para de aplaudir quando o touro se abate na arena, sujando-a de sangue. Aí o toureiro se retira do local, fronte erguida, olhar dirigido para o alto, sob uma chuva de flores arremessadas por lindas espanholas.

Certa vez, um amigo sugeriu que na composição do cortejo, se fizesse uma ala só de padres e freiras e, sem dúvida, seria o conjunto mais aplaudido da passeata. Quando isto vai acontecer? “Never” o que é uma pena.

Também um amigo sugeriu que “orientasse” o povo sobre o que ele vai ver durante o percurso de 6.500 metros que separa a Conceição da Praia da Colina do Senhor do Bonfim. Mas que orientação, indagamos?

A Cidade Baixa tem um conjunto arquitetônico admirável. Muita gente não sabe disso. Desde que todos vão caminhar entre eles, não custaria nada destacá-los num espaço como este que os vem mostrando há mais de dois anos.

Mas isto seria misturar as coisas? O povo vai estar na lavagem para se divertir, beber, comer, dançar, cantar e que importa “conjunto arquitetônico”?

Talvez importe, desde que não custa muito o passeador de vez em quando, dirigir para o alto o seu olhar, como faz o toureiro nas arenas da vida e colher senão flores, pelo menos sementes de saber da sua cidade. Qual o nome dessa rua? Que edifício é este? Tal monumento homenageia quem? Coisas simples que não irá prejudicar seu divertimento. Claro que este tem prioridade!

Assim posto, faremos como que um “tour” antecipado do que poderá ser visto e admirado. Terá que ser feito em pelo menos três postagens: concentração, percurso e chegada.

Já nas primeiras horas da manhã o povo vai chegando à Conceição da Praia e se espalhando ao redor da igreja, do mercado, da praça em frente ao Elevador Lacerda. Parece que é realizada uma missa bem cedo e logo a igreja é fechada.

No local onde hoje está a grande igreja foi erguida em 1549 uma ermida em homenagem à Nossa Senhora da Conceição. Foi uma determinação expressa de nosso primeiro governador.  (Ele próprio teria ajudado na construção).

A ordem era construir uma ermida junto à Enseada da Preguiça que, possivelmente, já era usada pelos primeiros colonizadores, talvez por Diogo Álvares Correia, o Carumurú.

A grandiosidade de sua fachada tem características neoclássicas e é realçada com as torres em diagonal. Em 1946 foi elevada à Basílica (Sacrossanta Basílica). O papa Paulo VI declarou Nossa Senhora da Conceição padroeira “única e secular do Estado da Bahia”. Muitos pensam que o padroeiro da Bahia é Senhor do Bonfim. Não é! É já em 1623, ganha nova dimensão e em 1765 é iniciada a construção do seu atual aspecto, obra concluída em 1849.

A Conceição da Praia se caracteriza também pelo seu casario. Quase todos da mesma altura, hoje bem degradados:


Ao lado da igreja desce \ sobe a Ladeira da Conceição da Praia, possivelmente uma das primeiras ladeiras construídas para ligação da Cidade Baixa com a Alta:


Antes não era assim. Era apenas uma torre de 58 metros de altura inaugurada em 8 de dezembro de 1872. Chamava-se Elevador da Conceição, também conhecido como Elevador do Parafuso.

Em 1930 ou um pouco menos, começou a construção da segunda torre medindo 75 metros. A foto adiante  mostra a construção da mesma.
Muitos acreditam que essa torre tenha sido projetada e construída por Antônio Lacerda, do qual o elevador tem o nome. Em verdade, não foi! O senhor Lacerda foi o idealizador e construtor da primeira torre, aquela incrustada na Ladeira da Montanha. A segunda torre foi construída pela empresa dinamarquesa Cristian-Nielsen, pioneira no mundo na construção de grandes estruturas em concreto armado. O projeto é do também dinamarquês Fleming Thiesen.
Quando o projeto ficou pronto, deram nome de Elevador Lacerda em homenagem ao idealizador e construtor da primeira torre. Super merecido!


Lado contrário à igreja, foi construído um monumento que já deu muito o que falar pelo inusitado de sua forma. Já foram chamados “os apitos de Armando Marques” (famoso juiz de futebol da época). Pior foi a referência com o então governador Antônio Carlos Magalhães. Chamaram-no de “os testículos de ACM”. Outros que eram as “bundas” das baianas. Teve gente que achou que as peças vieram montadas de Brasilia, em razão de certas semelhanças arquitetônicas. Hoje ele esguincha água por todos os poros.
Em verdade contudo o monumento é uma homenagem à Abertura dos Portos e é de autoria do escultor Mário Cravo.
No local onde foi construído o referido monumento, antes era ocupado pelo antigo Mercado Modelo, incendiado em 1960.
 
No bairro do Comércio existiam, no século passado, dois pequenos mercados municipais: Santa Bárbara e São João, situados respectivamente, nos terrenos onde hoje se localiza o Edifício Centenário, pertencente à Aliança da Bahia, e a Rede Ferroviária Federal, na Rua Portugal.
 Desde 1878, pretendeu-se construir um novo centro de abastecimento na cidade baixa. Em 12 de agosto de 1906, o governo aprovou os estudos definitivos das obras do porto, com exceção das modificações relativas à Doca do mercado, que poderia ser transferida para a área do ex – arsenal da marinha.
A construção do Mercado Modelo foi concluída no final de 1912. Tratava-se de um edifício retangular, envolvidos por marquises, estrutura metálica importada, com cobertura constituída por três detalhes superpostos, de modo a permitir boa ventilação e iluminação natural.
 
Com a destruição do antigo Mercado Modelo, o novo Mercado Modelo passou a funcionar no edifício da antiga 3ª Alfândega de Salvador, uma construção de 1861 em estilo neoclássico.
 
Vejam o que escrevemos alguns anos atrás nesse mesmo blog:
 
“O novo Mercado Modelo passou a funcionar no edifício da antiga 3ª Alfândega de Salvador, uma construção de 1861 em estilo neoclássico. Como a transferência se deu às pressas, naturalmente as instalações eram precárias, inclusive elétricas. Não deu outra. Também esse mercado sofreu um grande incêndio em 1983. Da mesma forma que o outro ficou tudo oco, apenas as paredes ficaram em pé. Contudo, diferentemente do primeiro, reconstituíram seu interior, oportunidade em que se construíram dois andares de lojas.

Esperava-se que o novo Mercado Modelo tivesse as mesmas funções do anterior, isto é, um centro de abastecimento com a reativação do transporte de mercadorias pelos saveiros, a comercialização dos peixes, tudo enfim que caracterizava o antigo mercado.

Tal não aconteceu! A Marinha já havia interditado o ancoradouro dos saveiros. Havia proibido o comércio de peixes na área. Tinha que ser feito algo diferente. Surgiu, então, a idéia de um centro de artesanato. É o que é hoje. Para turista ver! Poucos baianos compram no local.

Se, por um lado, esta inclinação foi boa para o turismo de nossa terra, por outro, decretou o esvaziamento definitivo de toda a área do Comércio. Foi um sucedâneo de coisas ruins. Na ocasião do aterro do porto, o Cais do Ouro desapareceu. Os saveiros ficaram sem uma referência. Restou a Rampa do Antigo Mercado Modelo e ele próprio. Veio o incêndio de 1969. Fim da nova referência.
A esperança era que o prédio da antiga Alfândega substituisse em tudo por tudo as atividades do anterior. Primeiramente, estava ali junto, na mesma praça. O ancoradouro seria o mesmo. Pouca coisa iria mudar. Tal não aconteceu. Decidiram fazer um centro de artesanato. Os saveiros pouco tinham a haver com este segmento. Somente as cerâmicas de Maragogipe se enquadravam ao novo sistema. As frutas, as farinhas, as carnes secas, os charutos, os grãos, etc, ficaram sem comercialização. Cada cidade fornecedora que se virasse por si própria, com seu incipiente "mercado interno". Por demais precário. Parou tudo. Atrasos de anos. Decadência total. Também o bairro do Comércio decaiu. Os poucos trapiches que restaram após a construção do Porto, fecharam de vez as suas portas. Todo o comércio sentiu. Começou a grande decadência que se radiou em outras decadências, num sucedânio natural das coisas.”

Sugerimos aos que não conhecem visitar o subtérreo do mercado. Serão vistas as antigas masmorras dos escravos.
Também se aconselha  conhecer os restaurantes do 1º andar do Mercado, Maria de São Pedro e Camafeu de Oxossi.

Sobre esta senhora há uma deliciosa história:

O restaurante de Maria de São Pedro era o mais famoso. Nascida em Santo Amaro da Purificação, a famosa quituteira começou seu negócio na antiga Feira do 7, isto é, uma feira que existia em frente ao 7º Armazém das Docas.

Tinha uma única mesa e seus fregueses eram os chamados estivadores. Seu tempero era maravilhoso. Foi criando fama. Mudou-se para o antigo Mercado Popular onde é hoje o Mercado do Peixe, ao final da Ladeira da Água Brusca. A Feira de Água de Meninos ficava em frente.

Já nessa época grandes boêmios e intelectuais de Salvador começaram a freqüentar o pequeno restaurante da grande quituteira, com destaque para pessoas como o jornalista Odorico Tavares do antigo Diário de Noticias e o escritor Jorge Amado, sempre à procura de novidades para seus maravilhosos livros.

Na década de 1940, Maria de São Pedro, mudou-se para o antigo Mercado Modelo. Em seu restaurante recebeu figuras badaladas de todo o mundo. O ator Orson Welles, o poeta Pablo Neruda, o filósofo Jean Paul Sartre. Jorge Amado continuava freguês, agora se fazendo acompanhar por Calazans Neto e Caribé, seus grandes amigos.

Também marcou presença o Conde Matarazzo e sua esposa, Dona Yolanda. Convidaram-na para preparar o banquete da festa dos 400 anos de fundação da capital paulista. Maria de São Pedro viajou de avião. Levou ajudantes e uma tonelada de dendê, camarão, pimenta, gengibre, coco, castanha, panelas de barros e colheres de pau.

Conta-se que já no palácio, ao tempo em que começava a preparar as comidas, um “chef” tentou dar palpite. Maria não se fez de rogada. Chamou dona Yolanda e disse: “ou este gringo ou eu”. Dona Yolanda não pestanejou. Botou o gringo para fora. Isso nos conta Odorico Tavares.

Por fim e o fizemos de propósito, vamos focalizar a nossa Praça Cairu. Sem mais palavras, vejam como era antes:
Agora, vejam como ela é hoje। Uma mixórdia. É inacreditável o retrocesso.



É brincadeira! Destruíram uma das mais belas praças de Salvador. Fizeram à esquerda um estacionamento e o resto da praça foi ocupado por barracas de produtos artesanais. Uma mixórdia.
A direita ainda está em pé um prédio dos mais antigos da Cidade Baixa. Dizem que vão construir um hotel no seu espaço, mantendo-se a frente do imóvel que é toda coberta de azulejos portugueses importados.

Escrevemos sobre o mesmo:

A Praça Visconde de Cayru é pródiga de atrações. Vimos há pouco o Mercado Modelo, o novo. Fica na praça, aos fundos. O antigo também ficava na praça, à esquerda do Elevador Lacerda, que também é da praça. À direita um dos prédios mais tradicionais de Salvador, construído em estilo pombalino, fachada toda revestida de azulejos importados e suas 60 janelas de frente. Tem mais algumas nas laterais. Recentemente foi comprado pela rede dos Hotéis Hilton que fará uma unidade no local, desde que mantenha a fachada atual. Quis derrubá-la. Foi uma luta na Justiça, mas a fachada permanecerá. O hotel perdeu nesse quesito, mas sem querer ganhou nos quesitos arquitetônico e tradição, isto é, ganhou uma coisa que não mais se fará. Foi construído nos fins do século XIX a princípio do século XX. Será uma referência internacional! Será que isso foi avaliado?

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

LAVAGEM DO BONFIM – UMA FESTA DAS BOAS

A Bahia se prepara para mais uma Lavagem do Bonfim. Aliás, não só a Bahia, mas todo o Brasil e, possivelmente, boa parte do mundo, desde que aqui aportam milhares de turistas vindos de diversos países. Como se costuma dizer, sua fama ultrapassa as nossas fronteiras. É um velho adágio, mas é a verdade.
Por outro lado, é uma festa de todas as idades, principalmente dos mais velhos. Costuma-se ver na Lavagem grupo de senhores e senhoras, vestidos de branco, caminhando pelas ruas da velha Cidade Baixa rumo à Colina. Antes já tomaram algumas providências etílicas e gastronômicas no Mercado Modelo. É tradicional a feijoada que é servida nas primeiras horas da manhã, não só no grande templo de compras artesanais, mas também ao seu redor, mais precisamente, do lado que dá para a Escola de Aprendizes de Marinheiro. Ali, famosas quituteiras da Bahia com suas panelas brilhando ao sol, oferecem o famoso prato brasileiro que se iniciou ao tempo dos escravos. Já vêm pronto de casa, e se mantêm aquecidas as panelas com toalhas de linho da Ilha de Maré. Mesas? Para que mesas? Improvisam-se assentos de tábua com dois paralepípedos nas extremidades; juntam-se as duas pernas e se forma o apoio necessário para comer. A cerveja fica ao lado em copos de plástico. Bem artesanal! Bem Bahia!



Diz-se em todas as esferas da literatura sobre gastronomia brasileira, que a feijoada, a mais típica iguaria das mesas brasileiras, nos foi legada pelos escravos. Segundo muitos, o grande prato brasileiro teria surgido do repúdio dos portugueses pelas partes menos nobres dos porcos, como orelhas, rabos e pés, e em sendo rejeitados, eram então cedidos aos moradores das senzalas, seus escravos. De posse de todos esses ingredientes, teriam os escravos resolvido cozinhar tudo ao mesmo tempo com feijão, água, sal e condimentos, surgindo dessa mistura a nossa tradicional feijoada.
Enquanto isto, os patrocinadores da festa, gente da Prefeitura, vai compondo o cortejo ao longo do “largo” em frente à Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia,dispondo os diversos grupos à medida que eles vão chegando: as baianas aqui, as carroças ali, afoxé tal acolá, as autoridades, a banda de música quando aparece, os cavalos, os torcedores do Bahia e do Vitória com suas bandeiras, o jegue elétrico, os sindicatos de muitas categorias com suas faixas reivindicativas de aumento salarial e o povo. Este ninguém organiza. Vai se integrando conforme se lhe dá vontade e se encorpa durante todo o percurso em pontos convergentes. O primeiro deles é em Água de Meninos onde desceu pela Ladeira da Água Brusca os moradores do Barbalho, Santo Antônio, Macaubas e Quintas. Depois na Calçada com o pessoal do subúrbio ferroviário que chegou de trem vindo de Paripe, Plataforma, Lobato e outras tantas localidades do lado ferroviário de nossa cidade. Ainda nas proximidades, tem a gente do Uruguai, Retiro, Pau da Lima, Cajazeira, Castelo Branco e São Caetano. É uma massa humana gigantesca de mais de um milhão de pessoas. Como organizar tanta gente assim? Ela própria magicamente se forma e quando alça a colina do Senhor do Bonfim, entoa o hino do grande Santo de uma forma uníssona e maravilhosa, só comparável ao coro das grandes orquestras mundiais ou das grandes igrejas, ou seja, dos maiores espetáculos da terra. Ninguém esquece a sua letra e a sua harmonia. É o resultado do treino diário da vida. É a própria vida!






 

Hino do Senhor do Bonfim
Glória a ti neste dia de glória
glória a ti redentor que há cem anos
nossos pais conduziste à vitória
pelos mares e campos baianos
desta sagrada colina
mansão da misericórdia
dai-nos a graça divina
da justiça e da concórdia
glória a ti nessa altura sagrada
és o eterno farol, és o guia
és, senhor, sentinela avançada
és a guardo imortal da bahia.
dessa sagrada colina
mansão da misericórdia
dai-nos a graça divina
da justiça e da concórdia
aos teus pés que nos deste o direito
aos teus pés que nos deste a verdade
trata e exulta num férvido preito
a alma em festa da nossa cidade
desta sagrada colina
mansão da misericórdia
dai-nos a graça divina
da justiça e da concórdia

Arthur de Salles e João Antônio Wanderley






Indescretível! A visão de cada um.


No momento que as baianas sobem a ladeira, é como se fosse um lençol do melhor linho estendido na vertical da ladeira. Nesse momento, não há como não pensar no divino e já ficamos pensando coisas. Por exemplo, vemos na feliz fotografia acima, a nuvem formando a figura caprichada de um anjo com asas, como que admirando o espetáculo. É impressionante o detalhe.

LAVAGEM DO BONFIM

No próximo dia 12 a Bahia faz mais uma lavagem do Bonfim, a grande festa de caráter religioso, apesar de a Igreja Católica não reconhecer como tal. Acham os seus dirigentes tratar-se de uma manifestação pagã que não se coaduna com os princípios eclesiásticos, no rigor da palavra, principalmente em razão do envolvimento de adeptos do candomblé no evento.

Em razão dessa interpretação, a Igreja do Bonfim, principal razão da grande festa, permanece fechada durante todo o tempo da lavagem. A situação pode ser comparada com o convite para uma festa onde os convidados se preparam devidamente, vestem suas melhores roupas, compram presentes e ao chegar ao local do evento, encontram-no fechado.

Muitos haverão de argüir que a Lavagem do Senhor do Bonfim é diferente. O povo já sabe que a igreja estará fechada quando alçar a colina. Tudo bem. O povo baiano sabe disso há várias décadas, mas, o turista que nos visita pela primeira vez – são milhares – desconhece o fato. Muitos deles, inclusive, devem reservar esse dia para conhecer a igreja, chegar perto do Santo, fazer sua oferenda na Sala dos Milagres, essas coisas próprias de quem vai ao Senhor do Bonfim. O que dizer aos nossos visitantes?~

Nada ou simplesmente dizer, a festa é assim mesmo, lavam-se os dez degraus do templo, prende-se uma fitinha no seu gradeado, toma-se um banho de cheiro e uma chuva de pipoca, come-se um acarajé, bebe-se uma cerveja e retorne a sua terra certo que o Senhor do Bonfim estará lhe protegendo. Como ele é? Simplesmente compre um postal colorido numa das lojas do arco e haverá de saber.

E viva a tradição! Aliás, até que houve algum progresso de relação ao “mandamento número 3” da Cúria de Salvador, datado de 28 de janeiro de 1948: “Fica proibida qualquer espécie de lavagem nos templos eclesiásticos, mesmo que simbólicas, antecipadas de cortejos carnavalescos, às vésperas de qualquer festividade religiosa nas paróquias, igrejas, reitorias e capelas. Salvador, 28 de janeiro de 1948".
Caso fosse respeitado na íntegra, até mesmo o simbolismo da lavagem dos degraus não poderia acontecer.


domingo, 1 de janeiro de 2012

ÁRVORES DE SALVADOR – ANTES E DEPOIS

Em qualquer cidade as árvores são o seu principal adorno, além de servir para sombreamento das vias e jardins e oxigenação desses locais. Além disto, as árvores atraem aves, diminui a poluição sonora e o impacto das chuvas, bem como contribui na valorização econômica das propriedades em torno, desde que são determinantes na valorização da qualidade de vida das comunidades.

Por mais incrível que possa parecer, Salvador já foi bem mais arborizada do que é hoje. Há quem alegue o crescimento desordenado da cidade acima de qualquer expectativa, contudo, em verdade, a principal razão foi a falta de um planejamento onde esse crescimento fosse previsto. O fato já tinha ocorrido em outros estados, o que poderia servir de referencia para uma ação específica.

Se repararmos bem, o que hoje temos de vias e praças arborizadas são legados do passado. São os casos, por exemplo, do Corredor da Vitória, do Campo Grande e da Graça.

Mas recorramos a uma prova irrefutável: a Praça Visconde de CaIru no Comércio, por onde passam milhares de pessoas todos os dias, gente da terra e turistas.

Vejamos como ela é nos dias de hoje em diversos ângulos:






Agora vejamos como era essa mesma praça antigamente, ainda ao tempo do antigo Mercado Modelo inaugurado em 1912 e incendiado em 1969.
É quase inacreditável. Fileiras paralelas de árvores nas laterais e no centro um grande gramado. Ao meio, a grandiosidade do belo monumento em homenagem ao Visconde de Cairu.



Já a foto acima, também preciosa, mostra à esquerda a Praça Cairu arborizada no conjunto de toda essa parte da Cidade Bahia na década de 40 do século passado. (Sinalização amarela).


José da Silva Lisboa, primeiro barão e visconde de Cairu (Salvador, 16 de julho de 1756 — Rio de Janeiro, 20 de agosto de 1835), foi um economista, historiador, jurista, publicista e político brasileiro, ativo na época da Independência do Brasil.