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quarta-feira, 10 de março de 2010

OS BONDES DE GERALDO DA COSTA LEAL

Chegou ás minhas mãos um dos quatro livros de Geraldo da Costa Leal. (PERFÍS URBANOS DA BAHIA). Foi um gentil presente do amigo José Paulo de Oliveira. No primeiro livro de Geraldo, meu nome é citado, juntamente com outros grandes jogadores de tênis de mesa do passado como Edinho, Renato Amaral, Edson dos Santos, Edson O'Dwyer, Carlos Maia, Geraldo Correia e tantos outros da década de 1960/70. Fomos jogar no antigo Clube Palmares na Qintandinha do Capim, território de Geraldo.
 
Escritor Geraldo da Costa Leal
 
Geraldo tem uma escrita absolutamente coloquial. Ele como que conversa com o leitor sem maiores preocupações com determinadas regras. Vai contando tudo que sabe e conviveu ao seu tempo.

Por exemplo, no caso dos bondes de Salvador. Conta quase tudo! Deixa pouco espaço para novas considerações. Certa feita quis me referir a esse meio de transporte de massa, único em determinado tempo de nossa história. Quase desisti. O livro de Geraldo trata-o em minúcias. Mas sempre há um espaço por onde pode se imiscuir a curiosidade humana.

Começamos, pincelando nas páginas do seu livro alguma coisa relativa à Cidade Baixa, assunto específico desse blog.

Por exemplo, a numeração dos bondes que circulavam na Cidade Baixa, ou seja, cada ramal tinha um número. Por exemplo, 12 era Calçada; 18, Luiz Tarquínio; 19, Dendezeiros; 20, Caminho de Areia; 21, Roma; 22, Bonfim e 32 era Madragoa.
Explicando bem: os números respectivos correspondiam a um determinado local do bairro de notório conhecimento.

Mas Geraldo vai mais fundo. Vai às nuances de cada caminho que cada uma das linhas tomava. Vejamos o extremo detalhe:

O bonde da Calçada, 12, de ida, seguia pela Rua Thomé de Souza, Rua do Tijolo, Baixa dos Sapateiros, Largo das 7 Portas, Dois Leões, Av. Barros Reis, Largo do Retiro, Av. San Martin, Largo do Tanque da Conceição, Baixa do Fiscal, Rua do Cortume, Rua da Vala e, finalmente,Largo da Calçada.
Ai os bancos eram virados e começava a volta: Largo da Calçada, Rua da Vala, Baixa do Fiscal, Largo do Tanque, Av. San Martin, Largo do Retiro, Barros Reis, Dois Leões, Largo das 7 Portas, Baixa dos Sapateiros, Praça dos Veteranos, Ladeira da Praça, Tijolo.

Por sua vez, o bonde dos Dendezeiros – 19 – na ida ia da Praça Visconde de Cairu – Rua Portugal – Praça Conde dos Arcos – Praça Torquato Bahia – Praça Marechal Deodoro- Av. Frederico Pontos – Rua Barão de Cotegipe – Largo de Roma – Av. Dendezeiros – Rua Visconde da Pedra Branca – Largo do Papagaio – Rua Visconde de Caravelas – Largo da Madragoa – Rua Lélis Piedade – Rua Júlio David – Ribeira (fim da linha) - Retorno na ordem inversa.

Após esse incrível detalhamento, fomos buscar a origem do nome “bonde”. Não é que Geraldo tenha passado por cima. Não? Escreveu: “ Na verdade, bonde era a passagem adquirida pelos passageiros, como estava escrito pela Cia. Bond and Share, daí surgir o nome”. A Bond and Share era uma companhia inglesa que controlava a maioria dos bondes no Brasil.

Oportunamente, deve ser citado que os primeiros bondes elétricos, foram feitos na Inglaterra, mais precisamente na cidade de Blackpool.

Hoje, bondes ou bondinhos são também os teleféricos que no Corredor da Vitória está cheio. No Rio tem o “bondinho do Pão de Açúcar” e também lá designa o passador de drogas e também é o “bonde do mal”, dos terríveis arrastões. As duas últimas referências, não são do tempo de Geraldo.

A maioria dos autores concorda que a origem do nome bonde vem da palavra inglesa “Bond”, aliás, como cita indiretamente o próprio Geraldo ( Bond and Share).

A versão mais comumente aceita diz que a palavra era usada para os bilhetes emitidos pelo americana Botanical Garden Rail Road Company que explorou os bondes que circulavam na zona sul do Rio de Janeiro a partir de 1868. Esses bilhetes teriam um desenho de um carro puxado por animais e, por extensão, o termo passou a designar os próprios carros em si. Uma complementação dessa versão diz que, os “bonds” eram vales usados nessa época em virtude da escassez de troco. Esses vales eram trocados por dinheiro nos escritórios da empresa. Em inglês, Bond signifiica exatamente vale, obrigação, título financeiro.

Há outra versão vinda do Pará. É totalmente diferente! Diz-se que James Bond era o nome de um industrial norte-americano e cônsul dos Estados Unidos na cidade de Belém em 1868. Este senhor foi quem organizou a primeira linha de carros com tração animal. Consequentemente, esses carros passaram a ser conhecidos pelo nome do seu criador – os bonds.

É interessante também registrar as denominações que os primeiros bondes receberam da população no Rio de Janeiro. Todos sabem como são os cariocas. "Vaca de Jeke", em alusão aos guizos dos animais empregados na tração desses veículos e "Jabuti", devido a forma abaulada do tejadilho (teto) dos carros.



Vejamos outras denominações dadas aos bondes por este Brasil afóra:

Caradura ou Taioba - Bonde de segunda classe, destinado inicialmente ao transporte de mercadorias. Vinha atrelado ao bonde principal. Custava a metade do preço.

Bonde de Ceroulas - Era um bonde de gala, forrado com brim branco para conduzir afortunados a eventos sociais.

Bonde-Salão - Entrou em operação na cidade de Salvador em 1911. Era reservado para eventos de autoridades, casamentos e batizados. São Paulo também tinha o seu, o luxuoso Ypiranga, adquirido pela Light em 1905. Abençoado pelo cardeal Arcoverde, era alugado para eventos e festas.

Bonde do Correio - Usado para o transporte de cartas. Como ele, diversos serviços públicos tinham seus meios de transporte.

Bonde de Areia - Certos afortunados não dispensavam os trilhos dos bondes, por onde andavam com seus automóveis. Poupavam seus preciosos bens dos desníveis dos paralelepípedos. A borracha dos pneus se acumulava e, de tempos em tempos, obrigava que a companhia de bondes fizesse a manutenção jogando areia nos trilhos.

Bonde Camarão - Ganhou o apelido por sua cor vermelha. Tinha capacidade para 51 passageiros sentados. Foi o último bonde a circular em São Paulo.

Bonde Centex ou Gilda - O mais luxuoso bonde que circulou em São Paulo. Apelidado de Gilda em homenagem à personagem de Rita Hayworth no clássico homônimo do cinema noir. Dispunha até de calefação automática. Teve similares. Em Olinda, havia o Zeppelin. Em Vitória, o Tobias, que, revestido de espelhos, não permitia a viagem de homens sem gravata.

Bonde dos Mortos - Servia aos cortejos fúnebres. No carro principal iam os parentes. No reboque, o morto.



É conhecido de todos as diversas citações populares com o uso da palavra bonde. Relembremos algumas delas:

Andar na linha (do bonde)- Ser correto e sincero nos negócios.
Comprar um bonde - Cair no conto do vigário. Fazer mal negócio.
Pegar o bonde andando - Entrar no meio de uma situação ou conversa em andamento.
Perder o bonde da história - Perder-se no contexto de algo.
Tocar o bonde - Levar algo adiante.
Tomar o bonde errado - Ver frustrados os intentos.
Trombada - Nos anos 1920, um elefante fugiu do circo e derrubou um bonde com a tromba. A palavra virou sinônimo de colisão.

Precisamos encerrar e vamos fazê-lo primeiro, com um escrito de Machado de Assis relativo aos bondes, mais precisamente, ao comportamento de uma pessoa num bonde:

"Art. I - Dos Encatarrhoados - Os encatarrhoados podem entrar nos bonds, com a condição de não tossirem mais de trez vezes dentro de uma hora, e no caso de pigarro, quatro. Quando a tosse for tão teimosa que não permita esta limitação, os encatarrhoados têem dous alvitres: ou irem a pé, que é bom exercicio, ou metterem-se na cama. Também podem ir tossir para o diabo que os carregue. Os encatarrhoados que estiverem nas extremidades dos bancos devem escarrar para o lado da rua, em vez de o fazerem no proprio bond, salvo caso de aposta, preceito religioso ou maçonico, vocação etc., etc"

Segundo, que tal mostrarmos um bonde todo iluminado na Itália. Também em Blackpool existe alguns, ainda hoje:



Geraldo gostaria de ter visto um deles. Diria: "vi passar um bonde todo iluminado na Quitandinha do Capim, bem em frente ao antigo Clube dos Palmares - Morei alí perto!"

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