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terça-feira, 6 de setembro de 2011

AMARALINA – PESCA DO XAREU

Até a década de 1940 a cidade se estendia apenas até Amaralina. Daí em diante era apenas mata e algumas poucas fazendas. Quem quisesse ir em frente, o melhor caminho era pela praia. O autor é testemunha dessa “dificuldade”. A familia França Machado, seus parentes, possuia uma dessas fazendas na hoje Pituba. Comemorava-se o aniversário de um dos seus membros. Tomou o bonde no Barracão das Hortas, onde é hoje o viaduto da Praça da Sé; desceu a Ladeira da Praça e lá embaixo, onde se acha o quartel do Corpo de Bombeiros, virou à esquerda; estava na Av. J.J. Seabra, atual Baixa dos Sapateiros; passou em frente à Ladeira do Aquidabã e alcançou 7 Portas; na esquina do Palacete das 7 Portas que deu nome a este bairro (pertencia à Augusto Machado) dobrou à esquerda pela Rua Djalma Dutra e alcançou a Fonte Nova (ainda não existia o estádio); à sua frente a Ladeira da Fonte das Pedras que dá em Nazaré e a esquerda o Dique do Tororó; contornou- o pelo hoje sentido do tráfego(ainda não havia o acesso pela direita onde só tinha hortas) e alcançou a Av. Vasco da Gama; percorreu toda ela até alcançar o Rio Vermelho e daí até Amaralina foi um pulo. Duração da “viagem”: 2 horas. Era a chamada linha 14.

Também se podia alcançar o Rio Vermelho por cima. Era a linha 15 – Rio Vermelho de Cima. Saía de um largo onde é hoje o Colégio Antônio Vieira (Curva Grande); passava por baixo do Primeiro Arco e atingia uma via denominada Rua do Trilho, depois Rua Gomes Brandão; ai alcançava a atual Av. Garibaldi; em seguida, passava pelo Segundo Arco, nas proximidades do viaduto da TV Itapoã e se alcançava a Rua da Paciência, já no Rio Vermelho.

Diz-se que anteriormente existia um trem que fazia esse percurso, trem este à serviço de um engenho de açúcar existente em Amaralina.

O nome Amaralina advém de uma antiga fazenda pertencente ao senhor José Alves Amaral que seria neto do Visconde do Rio Vermelho, Manuel Inácio da Cunha e Meneses, militar, comerciante e politico (foi vereador, vice-presidente de provincia e senador do Império do Brasil de 1829 a 1850). Acumulou grande riqueza, inclusive as terras de Amaralina até Itapuã.

Amaralina possui um morro que não é percebido por quem passa pela avenida. À frente dele encontra-se um quartel militar, tomando-lhe a vista.

Nesse morro foi construída uma igrejinha com frente para o mar, construção esta atribuida aos pescadores daquela época em agradecimento às boas pescarias de xaréu que o local proporcionava. Vamos nos ater um pouco sobre essa atividade.








A praia de Amaralina era conhecida como “A Lagoa” e a pesca do xareu se fazia entre os meses de outubro e dezembro com muita fartura. Para se ter uma idéia da sua extensão, a pesca de xaréu era considerada uma das maiores de toda América no que diz respeito a quantidade e peso dos peixes pescados,

Além dessa importância econômica, a “puxada da rêde de xaréu” era tida.como uma manifestação folclórica das mais impressionantes, um misto de trabalho e festa, mas de uma festa onde se ouviam antigas canções para divindades africanas, especialmente Iemanjá, a Rainha do Mar,

“Dá-me licença aí
Dá-me licença aí
Alô dê Yemanja i
Alô dê Yemanja i
Dá-me licença aí
Dá-me licença a a
Dá-me licença aí
E dá-me licença a a
Por Maria Zombi areia
Sereia a-a-aa”

Transcrevemos abaixo um artigo de um cronista da época (Batisti) sobre essa pesca. Explica tudo: (Damos muita importância a descrições desse tipo; de gente que conviveu com o assunto):

“Nesta região já não mais existe a armação da Amaralina, a armação lagoa, uma das mais antigas de que se tem noticia, mas que ainda é lembrada pelos velhos pescadores que afirmam ter sido aquela armação uma das mais organizadas, onde muito se pescou o xaréu em época não muito distante. No primeiro dia os pescadores se dirigem piedosamente à Igreja de Sant'Ana do Rio Vermelho para pedir a proteção da santa. De tarde, na praia noturna, dançam sambas, bebem, conversam e cantam alegremente. Antigamente, e ainda hoje, em certos recantos do litoral, na primeira puxada, um pai ou mãe-de-santo vinha com suas filhas, para cantar e dançar sobre a praia enluarada, girando na sombra mística e fazendo sortilégios para acalmar a tempestade. Em Amaralina, limitam-se a ter candomblés para rir; ao redor de pequenos tambores sonoros, os pescadores formamuma roda e entoam, para passar o tempo, as toadas de Xangô ou dos caboclos". E prossegue Batisti "Mas essa transformação do candomblé em divertimento não impede que a fé continue viva no fundo do coração dos homens de cor; todos os quinze dias, durante a tarde, porque de manhã têm muito que fazer, as jangadas dirigem-se a alto-mar para levar a Iemanjá, a D. Janaína como a chamam, objetos de toillete, fitas de todas as cores (excetuando-se as negras e vermelhas,que são cores de Exu), humildes presentes comprados nas vendas locais, agradecimentos pela boa pesca, esperança de uma amanhã melhor. Iemanjá é uma boa pessoa, não recusa nunca, oculta
os presentes e preces recebidas em seus esconderijos. E assim passamos dias, o tempo desliza, com as visitas das mulheres, as horas de ócio nas vendas, breves estadias no Rio Vermelho, a noite roncando em cabanas de palmeiras entrelaçadas, dois ou três indivíduos em cada uma. E como no primeiro dia o período de pesca termina com uma festa”.

Hoje não tem mais xareu em Amaralina. A poluição do mar afastou os peixes. O barulho dos carros e o povoamento deram a sua contribuição. A Amaralina de hoje cheira a acarajé e a abará, não há mais xareu – nem frito. O pequeno largo se tornou um centro gastronômico. Somente isto! Podia se fazer uma coisa melhor.
 











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