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segunda-feira, 6 de junho de 2011

CARNAVAL DA RUA CHILE

Digno de registro é o Carnaval da antiga Rua Chile. Sua preparação começava um mês antes com a realização da “batalha de confete das Duas Américas” realizada às quintas-feiras à noite a partir das 19 horas ou até menos. Os clientes que iam fazer compras naquele dia na parte da tarde já ficavam para a festa e o resto vinha depois. Verdade que a loja fechava a maioria das portas, mas deixava uma aberta com um balcão como limite, vendendo, confete e serpentina, peças que introduziram um mínimo de organização e sentido grupal ao carnaval.

Então, o Carnaval antes não era assim? Não era! Nem se chamava Carnaval. Era Entrudo, uma palavra tão feia e horrível quanto à própria “festa”. O confete e a serpentina tem muito a haver com a sua extinção.

Na Roma Antiga, os Lupercos, sacerdotes de Pã, saíam às ruas no dia 15 de fevereiro só com sangue de cabra sobre o corpo, perseguindo as pessoas. No Brasil, os portugueses faziam uma guerra de baldes de água e lixo que chamavam de "entrudo", sem dança ou música.



Entrudo

Esta manifestação popular era conhecida como entrudo, ” festa” violenta, na qual as pessoas batalhavam nas ruas, atirando água uma nas outras, através de bisnagas, farinha, pós de todos os tipos, cal, limões, laranjas podres e até mesmo urina. Quando toda esta selvageria tornou-se mais social, começou então a se usar água perfumada, vinagre, vinho ou groselha; mas sempre com a intenção de molhar ou sujar os adversários, ou qualquer passante desavisado. Esta brincadeira perdurou por longos anos, apesar de todos os protestos. Chegou até mesmo a alcançar o período da República. Era necessária uma providência efetiva e inteligente para por fim a essa bagunça, desde que as ameaças punitivas não surtiam o efeito. O povo continuava nos seus desmandos.

Vejamos algumas delas:

Em 1685 no Rio de Janeiro a postura das autoridades locais advertia:

"Toda a pessoa de qualquer qualidade e condição que seja, que se encontrar mascarado envolvido nas festas do entrudo incorrerá na pena de ir servir à Sua Majestade, que Deus guarde, e sendo negro ou mulato será açoitado publicamente (...).
" (Menezes, 1994, p.34)

Ou ainda, cento e cinquenta anos depois, na Bahia de 1842, registra-se o seguinte decreto do Presidente da Província:

"Ninguém poderá jogar entrudo. Os infratores serão punidos com multa de 12 mil réis ou seis dias de prisão." (Menezes, 1994, (p.36).


 
De acordo com Verger (1984, p.10), a nova forma de divertimento carnavalesco se organizou a partir da metade do século XIX após a proibição de 1853 do grosseiro jogo do entrudo, altura em que, ss manifestações de caráter barulhento e animado (...) que chocavam," (...) com o ritmo mais lento e solene das procissões católicas, vieram se refugiar no Carnaval de rua. Menezes (1994, p.39), realçando a interpenetração entre as duas formas dos festejos, considera que, "Em algum ponto perdido entre 1870 e 1890 começa a fusão do entrudo com o Carnaval. Até o início da última década do século passado, portanto, a festa poderia ser chamada Entrudaval ou Carnentrudo. Tal era a dificuldade em perceber-se onde acabava uma e começava outra."


No começo do século passado, o molha-molha foi substituído por confetes, serpentinas e lança-perfume.

Eram estes os ingredientes da “batalha” de confetes e serpentinas das festas das Duas Américas com direito a orquestra postada em cima da marquise da loja. Tem uma história sobre isto.

Diz-se que a Casa Alberto, situada numa das esquinas da Rua d'Ajuda, havia patrocinado uma “batalha de confetes” que alcançou o maior sucesso. A loja contratou uma batucada e um “regional”. Foi gente por todos os lados. Na semana seguinte as Duas Américas colocou a tal da orquestra em cima da marquise. Puro marketing!

Serpentinnes: são rodas de papel de diversas cores e que chegam ao destino que se quer dar sem grande esforço e inteira surpresa.
Confetti Parisiense: são pequeninos discos de papel de todas as cores e que substituem com graça e sem prejuízo o uso de bisnagas e laranjinhas.
Lança-perfume: é um solvente à base de cloreto de etila, éter, clorofórmio e essência perfumada, fabricado na Argentina

Após todo um mês de batalhas e batalhas, chegava o Carnaval. Enquanto isto a Prefeitura decorava toda a Rua Chile com enfeites de toda a ordem e se colocava uma iluminação feérica e sistema de som. Essa decoração se estendia pela Rua da Misericórdia e Praça da Sé.

Pouca coisa se fazia na Avenida 7 de setembro: apenas umas gambiarras com lâmpadas comuns. Algumas máscaras nos postes.

E já as 9 horas da manhã a Rua Chile fervia de foliões, 95% mascarados e de todos os tipos, desde o"sujo" até aquele de pijama de seda e sapato "clark".

Formavam um só bloco, compacto, a dançar e a cantar por toda a via. Davam a volta na esquina da Rua d”Ajuda e se dirigiam até a Praça da Sé. Curvavam na esquina da Casa Primavera e pegavam a Misericórdia. Este vai e vem permanecia até as 14 horas. Depois todo mundo ia almoçar em casa. A Rua Chile esvaziava-se completamente. A folia continuava nos bondes. Alguns mascarados já levantavam as máscaras suadas; a maioria permanecia incógnita, principalmente as moças.

E na parte da tarde era a mesma coisa? Não era!Os grandes blocos saiam às ruas à partir das 12 horas: Cavalheiros de Bagdá, Filhos do Mar, Filhos do Fogo, entre outros. Armavam na Praça da Sé e alçavam à Rua Chile. Seguiam direto subindo a Ladeira de São Bento e iam até o Campo Grande. As famílias postavam cadeiras na Avenida 7 de setembro e assistiam "de camarote" a passagem das grandes entidades.Todos a pé comandados por grandes orquestras e excepcionais baterias. Foram os precursores dos grandes de hoje. Já às 5 horas voltavam aqueles foliões mascarados da manhã, agora vestidos com suas melhores camisas, lança perfume na mão. Começava o “footing” das meninas. De mãos ou braços dados, caminhavam no meio na rua entre fileiras de rapazes que lhe jogavam lança-perfume. Quando havia correspondência com alguma delas, a moça virava-se e retribuía o jato da "rodoro” metalizada ou da “colombina” em vidro. Na volta,o cara arriscava uma pergunta: em que clube você vai brincar? Fantoches, era a resposta da garota. Depois ela sumia. Não se expunha muito! Possivelmente já estaria pegando o bonde em direção à sua residência.

Às 7 horas outro público lotava a Rua Chile. Era formado de senhores e senhoras. Viam assistir a passagem dos carros alegóricos dos grandes clubes: Fantoches da Euterpe, Cruz Vermelha e Inocentes em Progresso. Era a vez dos arautos e das rainhas brilharem. Até cavalos eram usados em algumas vezes. Brilho total! Três ou quatro carros alegóricos desfilavam maravilhosos. Eram bem confecionados. O desfile ia até às 23 Horas quando se recolhiam aos seus clubes. A concentração se fazia no Campo Grande e desciam pela Avenida 7, São Bento, Castro Alves, Rua Chile, Misericórdia e na Praça da Sé retornavam, fazendo o sentido inverso. A meia-noite, a Rua Chile estava deserta.


Carro Alegórico
 


Rainha e princesas do Fantoches da Euterpe
 


Rainha e Princesas do Cruz Vermelha

Nesse horário já passavam os rapazes e moças em direção ao Fantoches, principalmente. Todos fantasiados, rapazes e moças. Pegavam célere a Rua Carlos Gomes e viravam na Rua do Cabeça em direção ao Fantoches, na rua Democrata. A fila alcançava esta praça. Havia muito rigor na entrada. Só os sócios em dia. As moças tinham entrada livre, fossem quantas fossem se acompanhadas. A osquestra já dava os seus primeiros toques. O baile estava começando. Encerrava-se às 4 hóras da manhã de segunda feira. Nesse dia se repetia a dose. No último, terça-feira, a orquestra saía do clube e dava uma volta pelo Largo 2 de julho com os foliões atrás. Era o grande epilogo.

No seu dia a dia o Fantoches não tinha restaurante, mas no Carnaval servia um peru com farofa e arroz dos mais saborosos. Perus vivos que eram preparados por cozinheiras devidamente contratadas para a ocasião. Tinha uma sala que os animais ficavam esperando o abate. Era a sala dos perus. Eram mais de 100

Quem não gostava de peru, ao final da festa ia comer no antigo Mercado Modelo, principalmente os que moravam na cidade baixa. Fato, sarapatel ,mocotó, mininico de carneiro, rabada, galinha de molho pardo, eram os preferidos. Coisa braba, mas gostosa! O restaurante de Maria de São Pedro era um dos mais procuradodos. Às 6 horas chegava o primeiro bonde. A maioria viajava cochilando. Alguns passavam do ponto de saltar. Quando o motoneiro era legal permitia o pequeno retorno sem pagar; se não, o careta voltava andando.

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