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domingo, 2 de junho de 2013

A VIDA ENTRE 1940 E 2013 - DEPOIMENTO

 O tempo passou. O menino chegava aos 12 anos. Já possuía maior percepção das coisas, inclusive das coisas da casa onde morava. Era uma casa modesta. Não tinha forro, ou seja, de qualquer canto se via a formação do telhado. Grossas tiras de madeira cruzavam nas alturas, sustentando as telhas. Tinha um pequeno quintal. Criavam-se galinhas que dava ovos para o consumo da casa. Quando iam ficando velhas e havia diminuição de produção do grande alimento eram substituídas por outras mais novas, após o que eram comidas de preferência ao molho pardo.
 As partes mais nobres eram dos pais; para os filhos o pescoço, as asas, às vezes um pedaço de uma cocha. Feijão simples, arroz e farinha completavam a refeição. De manhã e a noite café com leite e uma banda de pão com a manteiga já passada. Mesmo assim, ninguém passava fome. O corpo fora acostumado dessa maneira. Ninguém era gordo. Além do mais, caminhava-se muito nas idas para a escola e nas brincadeiras na praia de área fofa, bem como o nadar boas distâncias. Por exemplo, ia-se até os barcos dos pescadores fundeados a 100 metros da praia; subia-se neles e se dava sucessivas caídas. Nos fins de semana se ia comprar farinha na feira do Bonfim. Andava-se um bom pedaço. A farinha era de Nazaré das Farinhas e era conhecida como de copioba. Vinha dos grandes saveiros que aportavam ali mesmo no Porto do Bonfim.
O mar batia no cais do grande largo. Nas marés de vazante quando o mar recuava centenas de metros, procurava-se chegar antes do fenômeno. Por outro lado, esse mesmo fenômeno ajudava a catar papa-fumo ali mesmo. Não era necessário ir até a Ponta da Penha onde tinha em profusão. Lá pescavam as marisqueiras. Não viam com bons olhos os meninos que se aproximavam.  Quando chegavam em casa eram cozidos em grandes latas de banha. Sim! Banha! Fritava-se na banha. Ainda não tinham sido inventados os óleos de milho e de soja de hoje. Também nessas latas era cozidos os siris que se pescavam em grande quantidade ali mesmo em frente a casa. Se a maré estivesse cheia, pescava-se de cima do cais com o arremesso de grandes jererés com uma isca ao centro.
 A melhor delas era pele de galinha. Se a maré estivesse vazia, pescava-se o gostoso marisco com iscas amarradas a um cordão e uma pedra para fundear. Do lado contrário, um pedaço de carvão para visualização das armadilhas, dispostas de cinco em cinco metros ao longo da horizontal da praia.  Carvão? Era fácil achar carvão? Sim, todas  as casas tinham carvão. Eram comprados na porta. Os carvoeiros vinham todas as semanas. Ficavam armazenadas no quintal onde se fazia uma pequena cobertura. Ainda não se conhecia fogão a gás e muito menos elétrico. Isso só aconteceu muitos anos depois e no principio teve muita dona de casa que não aderiu à novidade com medo de uma explosão.
 Mantiveram seus velhos fogões a lenha. Também se comprava na porta, peixe, carne e verduras. Todos os dias em pequenas quantidades. Não existiam ainda as geladeiras para a conservação dos alimentos. Consequentemente, a água gelada era difícil. Somente quando passava o homem do gelo, poder-se-ia tomá-la assim. Na porta também era colocado o leite de todos os dias. Os leiteiros passavam de madrugada. Colocavam em cada porta um litro de leite engarrafado. Cobravam no fim de semana, mas mesmo quem não pudesse pagar não ficava prejudicado na semana seguinte. Ele continuava fornecendo, desde que sabia que a maioria das casas tinha crianças. Os espanhóis dos armazéns e padarias agiam da mesma forma. Àquele tempo comprava-se fiado e as despesas eram anotadas numa caderneta individual com o nome do morador. No fim de cada mês eram feitos os pagamentos. A maioria das pessoas era assalariada. Tinha pouca gente rica. Nunca se soube de algum calote e se houve e deve ter havido, ninguém soube quem deu. Os espanhóis absorviam o prejuízo. Eta gente boa. Trabalhavam de tamanco e dormiam no fundo de seus armazéns. Quando juntavam dinheiro suficiente voltavam para a sua terra. Casavam-se lá. A escolha das esposas era feita pelas famílias de comum acordo. Conta-se que houve uma dissidência. Foi o filho de um espanhol dono de uma casa de materiais de construção nas proximidades do Porto da Lenha.  Começou a namorar a filha de um professor da Faculdade de Engenharia da Bahia. Gente importante! Já se sentava na porta da casa da eleita. Sabem no que deu? Um dia drogaram o rapaz e o colocaram num navio espanhol com explicações e recomendações ao comandante.  Quando ele acordou estava a milhas de distância da costa brasileira.

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