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sábado, 16 de abril de 2011

VILA PEREIRA

VILA PEREIRA

Praticamente, estamos em Vila Pereira. Caminhamos pelas margens do Rio dos Seixos. Suas águas correm na direção sul onde deve estar o mar. Vila Pereira está ali. Aliás, esse rio é um dos limites da sede das terras de Francisco Pereira Coutinho.

Rio dos Seixos
 
Vai desde a desembocadura do rio nas proximidades do Morro do Cristo até a Gamboa, esta inclusa। Grande parte da Praia do Farol, Ponta do Padrão, Praia do Porto, o de mais fino, está nessas terras. Todas as naus que chegam à Bahia param aqui no chamado Porto da Vila Velha. Vem se abastecer de água e víveres. Muitas estão a caminho das índias. Claro que trazem muita mercadoria do exterior. As trilhas e os caminhos percorridos até então pelo nosso amigo andarilho têm haver com este fato. Através deles, essas mercadorias irão chegar até a Cidade Nova; por estão razão, ele evitou escalar os morros que surgiram à sua frente. Mesmo para animais, seria quase impossível. Mas quem foi esse donatário que recebeu de presente terras tão belas? Chamava-se Francisco Pereira Coutinho. Dizem ter sido comido pelos índios! Por que seria? Contam-se muitas histórias, uma delas dizia que era muito cruel e arrogante no trato com os índios, o que gerou diversas revoltas dos selvícolas. Era filho de Afonso Pereira, caçador-mor de D. Afonso V. e de sua segunda mulher, D. Catarina Coutinho, filha dos segundos condes de Marialva. Foi capitão de Goa e do Conselho de D. João III entre 1521 a 1531. Como prêmio pelos seu serviços à nação portuguesa recebeu de presente a capitania da Baía de Todos os Santos. Dizem que, quando chegou ao Brasil já tinha bastante idade. Quando morreu, seu filho quis ocupar o seu lugar mas a Coroa Portuguesa não concordou. Isto gerou um grande conflito de herança por fim resolvido quando o”morgadio” foi entregue a D. Ana Felícia Coutinho Pereira de Sousa Tavares da Horta Amado e Cerqueira.

Francisco Pereira Coutinho

Costuma-se pensar a até a se dizer que as terras cedidas à Francisco Pereira Coutinho se restringiam apenas à Vila Pereira.Em absoluto! A concessão ia da Foz do Rio São Francisco (AL-SE) à Itaparica, alcançando toda a Baía de Todos os Santos e Salvador. A Vila Pereira era como que a séde da Capitania da Baía de Todos os Santos. A história das Capitanias Hereditárias ( tem este nome porque estes territórios seriam transmitidos de forma hereditária de pai para filho, daí o conflito gerado na sucessão – citação acima). Após o descobrimento, o Brasil era assediado por corsários e piratas ingleses, franceses e holandeses que viam até aqui em busca de riquezas que a terra possuía. Portugal concluiu ser necessário colonizar o Brasil e administrá-lo de forma eficiente. Em 1534 D. João III dividiu as terras brasileiras em faixas que partiam do litoral até a linha imaginária do Tratado de Tordesilhas, as chamadas Capitanias Hereditárias. Essas faixas de terra foram doadas para nobres e pessoas outras de confiança do rei. Caberia a eles administrar, colonizar, proteger e desenvolver a região, mas o rei foi muito pródigo ou faltou gente de mais confiança. As capitanias eram enormes, o que gerou grandes dificuldades na administração das mesmas. Praticamente quase todas fracassaram a exceção das de Pernambuco e São Vicente. Por esta razão, em 1549 o rei de Portugal criou um novo sistema administrativo chamado Governo-Geral. Caberia a um governador, chamado Governador-Geral as funções antes atribuídas aos donatários.
 


Mapa das Capitanias Hereditárias
 
Com mais outros detalhes
 
Essa postagem ficaria incompleta se não transcrevessemos os deliciosos escritos de Gabriel Soares, cronista da época ou mais próximo dela (1587) sobre Francisco Pereira Coutinho। A maioria dos historiadores se baseia em seus escritos para falar sobre a Bahia। “Quem quiser saber quem foi Francisco Pereira Coutinho, leia os livros da Índia, e sabe-lo-á; e verão seu grande valor e heróicos feitos, dignos de diferente descanso do que teve na conquista do Brasil, onde lhe coube por sorte a capitania da Bahia de Todos os Santos, de que lhe foz mercê el-rei D. João III, de gloriosa memória, pela primeira vez, da terra que há da ponta do Padrão até o rio de São Francisco, ao longo do mar; e, para o sertão, de toda a terra que couber na demarcação deste Estado, e lhe fez mercê da terra da Bahia com seus recôncavos. E como este esforçado capitão tinha ânimo incansável, não receou de ir povoar a sua capitania em pessoa, e fez-se prestes com muitos moradores casados e outros solteiros, que embarcou em uma armada, que fez à sua custa, com a qual partiu do porto de Lisboa. E com bom vento fez a sua viagem até entrar na Bahia e desembarcou na ponta do Padrão dela para dentro, e fortificou-se, onde agora chamam a Vila Velha, no qual sítio fez uma povoação e fortaleza sobre o mar, onde esteve de paz com o gentio os primeiros anos, no qual tempo os moradores fizeram suas roças e lavouras. Desta povoação para dentro fizeram uns homens poderosos, que com ele foram, dois engenhos de açúcar, que depois foram queimados pelo gentio, que se alevantou, e destruiu todas as roças e fazendas, pelas quais mataram muitos homens, e nos engenhos, quando deram neles. Pôs este alevantamento a Francisco Pereira em grande aperto; porque lhe cercaram a vila e fortaleza, tomando-lhe a água e mais mantimentos, os quais neste tempo lhe vinham por mar da capitania dos Ilhéus, os quais iam buscar da vila as embarcações, com grande risco dos cercados, que estiveram nestes trabalhos, ora cercados, ora com tréguas, sete ou oito anos, nos quais passaram grandes fomes, doenças e mil infortúnios, a quem este gentio tupinambá matava gente cada dia, com o que se ia apouquentando muito; onde mataram um seu filho bastardo e alguns parentes e outros homens de nome, com o que a gente, que estava com Francisco Pereira, desesperadas de poder resistir tantos anos a tamanha e tão apertada guerra, se determinou com ele apertando-o que ordenasse de os pôr em salvo, antes que se acabasse de consumir em poder de inimigos tão cruéis, que ainda não acabavam de matar um homem, quando o espedaçavam e comiam. E vendo este capitão sua gente, que já era mui pouca, tão determinada, ordenou de a pôr em salvo e passou-se por mar com ela nuns caravelões que tinha, para a capitania dos Ilhéus; do que se espantou o gentio muito, e arrependido da ruim vizinhança que lhe tinha feito, movido também de seu interesse, vendo que como se foram os portugueses, lhe ia faltando os resgates que êles lhes davam a troco de mantimentos, ordenaram de mandar chamar Francisco Pereira, mandando-lhes prometer toda a paz e boa amizade, o qual recado foi dele festejado, e embarcou-se logo com alguma gente em um caravelão que tinha, e outro em que vinha Diogo Álvares, de alcunha “o Caramuru”, grande língua do gentio, e partiu-se para a Bahia, e querendo entrar pela barra adentro, lhe sobreveio muito vento e tormentoso, que o lançou sobre os baixos da ilha de Taparica, onde deu à costa; salvou-se a gente tôda deste naufrágio, mas não das mãos dos tupinambás, que viviam nesta ilha, os quais se ajuntaram, e à traição mataram a Francisco Pereira e à gente do seu caravelão, do que escapou Diogo Álvares com os seus com boa linguagem. Desta maneira acabou às mãos dos tupinambás o esforçado cavaleiro Francisco Pereira Coutinho, cujo esforço não puderam render os rumes e malabares da Índia, e foi rendido destes bárbaros, o qual não somente gastou a vida nesta pretensão, mas quanto em muitos anos ganhou na índia com tantas lançadas e espingardadas, e o que tinha em Portugal, com o que deixou sua mulher e filhos postos no hospital".





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