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quarta-feira, 4 de novembro de 2009

LAVAGEM DO BONFIM - FESTA DE ITAPAGIPE


Depois do Carnaval a Lavagem do Bonfim é a maior festa popular de Salvador. Tem seu ápice no alto da Colina do Senhor do Bonfim em Itapagipe, logo, é uma festa de Itapagipe. Aliás, as duas maiores festas de largo da Bahia, como são assim chamadas, acontecem na península. A outra é a festa da Boa Viagem. 

Colina do Bonfim

Coincidentemente, as duas têm a participação extraordinária de Nossa Senhora da Conceição da Praia, padroeira da Bahia. A lavagem sai da Conceição da Praia e o Senhor Bom Jesus dos Navegantes sai em procissão também da Conceição da Praia.

Conceição da Praia

A Lavagem do Bonfim é realizada na segunda quinta feira do mês de janeiro.

Antigamente, a fama não estava no dia da lavagem e sim no Sábado e Domingo do Bonfim bem como na Segunda Feira Gorda da Ribeira. A lavagem era apenas um complemento da festa maior. Estamos nos reportando às décadas de 1940 até 1960, mais ou menos. Um pequeno grupo de “baianas”, reunia-se no sopé da ladeira principal, contidas por um cordão de isolamento e alguns curiosos e às 10 horas, esse cordão era retirado e elas subiam em direção à igreja para a tradicional lavagem do templo.
Com o tempo, o número de “baianas” foi crescendo e aí também se juntou a Banda Militar dos Dendezeiros, mais alguns populares, sempre em maior número, contudo, a concentração continuava sendo ao pé da ladeira e já se tornara um espetáculo bonito de se ver. Já era como que uma onda branca alçando a colina como que surfando. Arranjos de flores e perfumes contidos em belos potes eram levados sobre a cabeça.
Nesse tempo, só as baianas tinham o direito de lavar a parte interna da igreja. A parte externa era lavada por devotos não caracterizados. As imagens mostram mais ou menos este detalhe:
Baianas no adro


Entrando na igreja

Lavando as escadarias

As baianas, enquanto realizavam a lavagem simbólica, entoavam hinos em homenagem a Oxalá que, no sincretismo religioso, representa Senhor do Bonfim.

Orixás!
 Ai veio o “toque do silêncio” que foi dado pela Arquidiocese na década de 1940. O pároco da igreja era o Padre Lourival, que foi diretor do Colégio D. Macedo Costa, propriedade do cônego Anibal Matta. O mesmo fazia parte da cúpula dirigente do clero àquela época.

Padre Lourival sempre foi um homem muito rigoroso, quase intransigente. A turma do Dom Macedo Costa que o diga. Quando assumiu a paróquia do Bonfim, já nas primeiras missas celebradas por ele, expulsou aos gritos, diversas moças que portavam um vestido mais curto ou um decote um pouquinho mais ousado. Hoje, seria processado por crime de constrangimento.

Portador de tamanha intransigência, induziu a Cúria de Salvador a proibir a lavagem do interior da Igreja e em 28 de janeiro de 1948 pelo chamado “mandamento número 3” foi decretada esta proibição. Ei-lo na íntegra:

Fica proibida qualquer espécie de lavagem nos templos eclesiásticos, mesmo que simbólicas, antecipadas de cortejos carnavalescos, às vésperas de qualquer festividade religiosa nas paróquias, igrejas, reitorias e capelas. Salvador, 28 de janeiro de 1948".

Verdade que esta não foi a única proibição que se tem notícia. Em 1890 aconteceu a primeira delas. Só durou um ano. No seguinte, o interior do templo voltou a ser lavado.

No ano de 2009 aconteceu um fato deveras interessante e controverso. Realizava-se a lavagem das escadarias. O povo concentrado no largo em frente à igreja e de repente, um padre abriu uma das cinco janelas do alto do templo e começou a acenar uma imagem miniatura do Senhor do Bonfim. Foi o bastante para certos setores de a imprensa noticiar “que após mais de 100 anos, finalmente a Igreja foi aberta ao público”.

Apenas uma impressão 
A impressão que se tem é que foi permitida a lavagem do interior do templo. Não foi isto que aconteceu! Ninguém passou dos gradis que continuaram fechados.

Efetivamente, a igreja não participa da organização da lavagem e não a aprova. A organização hoje pertence à Empresa Salvador Turismo, ex-Emtursa. Trata-se de uma empresa do setor do turismo sediada em Salvador. Está no mercado desde 1979.
E por que a igreja não aprova a Lavagem do Bonfim, uma festa extraordinária em homenagem ao grande Santo? É uma pergunta que se faz a todo o momento. Os turistas não compreendem e muitos baianos também não.

Alega a igreja que a festa é profana! Não se pode aprovar uma coisa profana, isto é, que não pertence à religião, que não é sagrado.

Estamos diante de uma grande contradição. A igreja católica tem nas mãos a maior manifestação religiosa de um povo e a joga fora sob o fundamento de que é precedida por cortejos carnavalescos, esquecendo-se que o próprio Carnaval faz parte do calendário católico. É bastante ver que a data da Páscoa é determinada pela data do Carnaval que é de 40 dias depois. Isto é citado em livros religiosos, à profusão.

Em Portugal uma emissora da igreja promove e patrocina as touradas daquele País e mais ainda, a maioria das praças de touros, pertence à Casa da Misericórdia, que é uma instituição eminentemente católica. Mas não precisamos ir muito longe. Em nossa capital, a Rádio Excelsior, fundada em 1934, uma emissora eminentemente católica, com direção católica ou, pelo menos, orientação católica, há alguns anos atrás, patrocinava a abertura do Carnaval baiano às quintas-feiras, com a passeata do Rei Momo, sua rainha e princesas, inclusive custeando suas vestimentas, a do rei bem pesada, mas a das meninas quase sem nenhum peso, desde que sumárias e nunca soubemos de nenhum mandamento contrário a essa “brilhante” iniciativa. Isto foi no tempo do saudoso Gerson Macedo, antigo morador de Itapagipe. Sabíamos até o nome da costureira que fazia as roupas do Rei Momo e de seu séquito de beldades: Dona Cabocla que morava perto da antiga sede dessa rádio, ao lado do antigo Liceu de Artes e Ofícios, ou nas próprias dependências dessa instituição. Depois essa rádio mudou-se para a Praça da Sé em prédio construído no local, fora dos padrões coloniais dos demais existentes na área. Não se compreende como a Prefeitura tenha aprovado a construção desse imóvel que só faz destoar o conjunto arquitetônico da grande praça.
E o que dizer das touradas? Profanas e cruéis! Muitas são patrocinadas por órgãos da própria igreja católica como as Casas de Misericórdia da Espanha, reconhecidamente uma instituição com enorme vínculo com a igreja católica. Ela é proprietária da maioria das praças de touros na península ibérica. A Rádio Renascença em Portugal apóia e organiza touradas naquele país. Qualquer praça de touro em Portugal tem sua capela e até um capelão.

Praça de touro

As autoridades eclesiásticas estão redondamente equivocadas no enfoque que estão fazendo dessas manifestações populares. O posicionamento deveria ser totalmente diferente. Deveriam reconhecer que essas manifestações do povo é um dos pilares da expansão das religiões. Sem o povo, sem gente, nada cresce. Não se formariam mais padres, as igrejas ficariam vazias como já estão e poderão ficar desertas, um dia. Não estão sabendo aproveitar a massa que se congrega ao redor das igrejas em dias de festa e crescer com ela.

Analisando a qualidade das comemorações dos dias de hoje, conclue-se que estão bem melhores, desde que mais civilizadas. Na antiguidade, certos povos comemoravam nas arenas os combates entre homens em lutas mortais e às vezes entre homens e animais, ainda mais mortais.


Era a cultura da época! E o que dizer das touradas? Muitas dessas comemorações eram precedidas de cerimônias religiosas ou, pelo menos, manifestações religiosas. Nas arquibancadas os padres vibravam junto com os reis ou fingiam que vibravam, senão eles próprios teriam que descer às arenas e combater. Aí os reis davam grandes gargalhadas! O que tinha de rei sádico, não é brincadeira!

Outro ponto controverso foi a proibição da participação dos Trios Elétricos na Lavagem, fato ocorrido em 1998. Sem dúvida que os Trios são uma grande atração e uma atração eminentemente baiana. Foi aqui inventado. Osmar Macedo foi o seu criador. Também não há nenhuma dúvida que os Trios Elétricos tocam músicas que podem ser consideradas inapropriadas para uma festa como a Lavagem do Bonfim, de cunho religioso. Mas, ninguém pensou em aproveitar a força popular dos Trios Elétricos para homenagear a grande festa e o Grande Santo. Era só instituir um concurso de “a melhor música cujo foco fosse obrigatoriamente a lavagem em si e o Senhor do Bonfim” ou se poderia premiar o trio com melhor decoração relativo ao evento. Só poderiam ser tocadas essas músicas. Seriam produzidas maravilhas! Também poderia ser limitado o número de trios. A escolha seria feita por sorteio seis meses antes, a fim de se prepararem e compor as músicas.

A lavagem chegando ao Bonfim. Um milhão de pessoas




Lindo de se ver!


Noutro ângulo

Mas a lavagem continuou no espaço que lhe era possível fazer, o adro. Não foi previsto no mandamento essa possibilidade, senão seria feita. Mas há de se reparar uma grande lacuna no decreto de proibição da igreja: “às vésperas de qualquer festividade...” Em sendo assim, no dia da festividade haveria de poder! Seria no domingo, dia da festividade!

Em seguida, não sabemos se através de novo mandamento, a proibição se estendeu ainda mais e se fechou também o adro. Ninguém podia ultrapassar os gradis. Mas, segundo consta, teve gente que pulou a divisão de ferro e fez a sua lavagem particular Agora, só falta novo mandamento fechando as ladeiras que dão acesso à colina, mas ainda assim, o povo haverá de alcançá-la pela relva da encosta.

Não adianta! Está na alma dessa gente e aí estando, não se impede com mandamentos.

Analisando com mais profundidade a questão, concluímos que gente muito intransigente e sem raízes populares, sem nunca ter visto uma lavagem sequer, a fim de lhes proporcionar uma idéia mais exata do que ela seja e representa, toma uma medida extremamente impopular e depois o próprio Papa, em sua recente visita ao Brasil, comenta e estranha o crescimento das outras religiões em nosso país. São essas e outras as causas. Como já dissemos, a igreja católica tem nas mãos a maior manifestação religiosa de um povo e a joga fora sob o fundamento de que é precedida por cortejos carnavalescos!

Restaram as escadarias e é nelas que atualmente se realiza a famosa lavagem em um ato apenas simbólico, quanto insistente. As baianas junto com o povo fazem de contas que lavam os 10 degraus em dois lances, que dão acesso ao templo.


A igreja e sua escadaria
Quando se referem as "escadarias do Bonfim" julga-se que se tratam de "monumentais escadarias". Não é! São apenas 10 degraus em dois lances de 5. É mais folclórico do que grandioso. 

Dizíamos linhas atrás que a lavagem tinha começo no pé da ladeira principal e foi crescendo. Um dia os organizadores resolveram fazer a concentração no Largo de Roma. Noutro ano passaram para o Largo dos Mares até que chegou à praça em frente à Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia. Um aumento de distância considerável, tudo em proporção direta ao crescimento da participação popular. De pouco mais de 100 metros que é o comprimento da Ladeira do Bonfim para 6.878 metros em linha reta da Conceição da Praia até a Igreja do Bonfim. Quando saía do Largo dos Mares até o Bonfim eram 1.833 metros e do Largo de Roma até a Igreja eram 1.203 metros, medidas estas tomadas via satélite.

Sobre o começo da lavagem do Bonfim há muito controvérsia. Tem autores que registram presença de personalidades no século XVIII em plena Conceição da Praia ao inicio da lavagem. Citam comentários, etc. etc. Talvez fosse a própria festa da Conceição de 8 de dezembro. Contra essas impressões, registre-se que nesta época nem existia ainda a Av Jequitaia ligando o que era a cidade antigamente à península. Não havia como "passear" nesse trecho. 

Voltando às sinuosidades do trajeto, a real distância que os fiéis têm que percorrer da Conceição ao Bonfim chegaria aos milagrosos 8.000 metros. Haja coração e muita fé! "Quem tem fé vai ao Bonfim a pé", já dizia o povo. É uma verdade!

Mas tem gente que não agüenta por razões de idade, claro! Tem autoridade que faz questão de participar do cortejo. Inicia-o normalmente na Conceição da Praia, caminha pela Miguel Calmon sob uma chuva de papel picado e consegue alcançar a Associação Comercial. Daí, em carro oficial, é conduzida até o sopé da colina, toma uma cervejinha que ninguém é de ferro, acompanhada de um suculento acarajé que a Baiana faz questão de oferecer, e quando o cortejo alcança esse ponto, assume a frente do mesmo e, triunfalmente, sobe a ladeira junto com as baianas.

“Isto é que é homem de fé” comenta o povo admirado e tome-lhe votos nas próximas eleições.

Contudo, a maioria do povo cumpre o percurso por inteiro, verdade que parando aqui e ali, nos bares, restaurantes e afins do longo percurso.



Igreja de Nossa Senhora da Conceição


Concentração
Aqui comeaça atualmente a lavagem - Em frente à Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia - Padroeira da Bahia.

Hoje a Lavagem começa na Conceição da Praia. Não tem hora para chegar. Antigamente, a lavagem começava às 10 horas, quando as baianas iniciavam a subida da ladeira e ao meio dia a praça já estava vazia. Hoje não! As comemorações se estendem até altas horas da madrugada com muito samba nas barracas, muita paquera e “Viva o Senhor do Bonfim”, grito unânime de todos. É um espetáculo muito bonito de se ver. A maioria do povo se veste de branco em homenagem a Oxalá que é, no sincretismo religioso, o próprio Senhor do Bonfim.

Mas Oxalá não é uma divindade do Candomblé? É mais ou menos por aí! É o mais importante deus iorubano. Representa o princípio de tudo, inclusive de criar o mundo e determinar o fim da vida. É o pai da brancura, da paz e da união. É contra a violência e gosta de limpeza e pureza. Seus filhos devem vestir branco todas as sestas feiras. Daí a indumentária de todos que vão à Lavagem do Bonfim. Se surgir alguém vestindo alguma coisa além do branco, é de se acreditar que deva ser um turista norueguês, completamente pasmo pelo que está assistindo, mas gostando.

Águas de Oxalá

Oxalá é muito ligado à água, daí a sua maior festa chamar-se “Águas de Oxalá” e por ai já se sente e se compreende as ligações com a lavagem do Senhor do Bonfim. É uma das hipóteses de suas origens. A outra é que teria começado com a promessa de um determinado cidadão português, combatente na Guerra do Paraguai que fizera o voto de, caso permanecesse vivo em meio àquele fogo cruzado, lavaria o adro da Igreja do Bonfim e o fez segundo alguns. O homem sobreviveu! Isso nos faz pensar que sendo português o referido militar, tinha conhecimento que em sua terra a lavagem das igrejas já era uma tradição. Vou fazer como fazem em minha terra, teria pensado ele! É forte essa vertente!

Outros descartam a origem da lavagem como sendo africana. Teria havido apenas uma adesão. O Candomblé é muito sincrético e num certo momento, as baianas aderiram à lavagem que já tinha alguma semelhança com a grande cerimônia das “Águas de Oxalá”.

Mas não param aí as dúvidas da origem da lavagem. Não devemos e nem podemos esquecer os romeiros, àquelas pessoas que vinham do recôncavo baiano para agradecer as graças alcançadas em todo o ano. Muitos deles eram parentes dos saveiristas que traziam lenha para o consumo da capital e aportavam no Porto da Lenha e aquel’outros que traziam frutas, farinha e legumes e por sua vez chegavam ao Porto do Bonfim, ambos ao pé da Colina. Tudo gente simples e que passava o dia no alto do Bonfim, entre o largo e a igreja. Os mais abastados alugavam as chamadas “casas dos romeiros”. Rezavam, pagavam as promessas, mas também se alimentavam. Não jejuavam que é coisa de oriental. Assim as refeições ou eram feitas no largo ou nas escadarias do templo. Naturalmente que no afã, sujavam o espaço. E ai essas escadarias eram lavadas e daí para o templo foi uma questão de vontade de deixar tudo um primor. Para tal usava-se uma solução que se fazia de ervas aromáticas, principalmente manjericão e macaçá. O preparo era colocado em potes e enterrado durante três meses.

Outra vertente acha que a lavagem teria começado com os escravos que eram ordenados a lavar o templo dias antes da grande festa. Não se sustenta! Claro que a igreja devia ser lavada e esse trabalho era feito pelos escravos sem as conotações que hoje se fazem.

Ainda outros creditam o começo da lavagem aos festejos à São Gonçalo que eram realizados na Colina. Havia muita música e dizem que muitos dos seus componentes entravam na igreja para fazer samba de roda e um simulacro de lavagem. 

Falta-nos fazer uma descrição da Lavagem, seu formato. É muito difícil esta tarefa! São oito quilômetros de acontecimentos ou quase isto.

O povo vai chegando por volta das 8 horas. Os mais fervorosos vão à igreja da Conceição da Praia se ela ainda estiver aberta e os de menos fé se dirigem ao Mercado Modelo. O grande shopping de artesanato já se acha repleto de turistas e os dois grandes restaurantes do 2º piso, Maria de São Pedro e Camafeu de Oxossi, começam a servir a tradicional “feijoada da Lavagem”.

É assim mesmo, cedinho. Antes de iniciar à caminhada rumo à Colina, muita gente da terra costuma “forrar” o estômago com esse forte prato brasileiro, em meio ao espanto dos turistas que não entendem como esta gente, que vai andar oito quilômetros em baixo de um sol de quase 50º, pode comer “aquela coisa gordurosa”. 

Uma bela feijoada
Realmente é incrível, mas cada um tem sua técnica de fazer a caminhada aí pela sombra, parando aqui e acolá. Não há pressa de chegar; o dia está só começando. Mas não são somente os dois restaurantes citados que oferecem a “feijoada da lavagem”. Também famosas cozinheiras autônomas postam-se do lado de fora do mercado e improvisam algo similar e às vezes melhor. A feijoada já vem pronta de casa em brilhantes panelas de alumínio, envolvidas em toalha de prato a fim de não esfriar. Não há onde esquentar.
Ainda no mercado, no térreo, proliferam na parte do fundo, diversas casas de “batidas”. Elas são servidas acompanhadas de lambretas como tira-gosto. Tem gente que não perde! Há até um ritual: tomam as batidas primeiro e sobem para comer a feijoada. É uma confraria!

Enquanto isto, os organizadores da lavagem, gente da Salvador Turismo, procura ordenar a saída do cortejo segundo ficou determinado em reunião: “Primeiro os batedores da Policia Militar, ciclistas, ala das autoridades, banda de música, baianas que lavarão as escadarias da igreja, carroças, bandas de sopro e entidades carnavalescas”. É o que foi originalmente combinado, mas pouco ou nada disso acontece. Após as baianas, vêm diversas alas de políticos da oposição, sindicalistas com suas proposições salariais escritas em enormes faixas, diversas “ongs”, grevistas, professores em greve, torcedores do Bahia e do Vitória contra a permanência desses clubes na terceira divisão, etc. etc. Esqueceram dos Filhos de Gandhi que sempre participam do evento com suas vestimentas brancas da Lavagem. Fundado em 1949 este afoxé tem fama internacional.


Filhos de Ghandi

A cada ano essa festa tem uma composição. Devemos ter visto umas quarenta delas e em nenhuma acontece a mesma coisa. De repente surge o “jegue-trio”, um cidadão montado num animal, próximo às autoridades, enaltecendo uma delas que o patrocinou, através um serviço de som montado no quadrúpede. Falando em jegue, esqueceram também dos cavaleiros e suas montarias. De onde vieram? Das cercanias de Salvador, do Cabula, do Pirajá, de Itapoã e até de cidades vizinhas à capital.

De repente ouve-se uma “chuva” de foguetes anunciando o começo da caminhada. Sobem acima do Elevador Lacerda. Em seguida, pipocam harmonicamente, primeiro alguns tiros fracos e um mais forte dando um merecido acabamento sonoro e caem. São flechas impulsionadas por uma mini-espada de cerca de um palmo que, após terminar sua trajetória, retornam a terra na cabeça de alguém ou passa perto. Ninguém se arrisca e acompanha o trajeto do objeto voador com muita atenção. A coisa se complica quando cinco ou seis sobem ao mesmo tempo em diversas direções.

Em meio a tudo isto o povo começa a caminhar. De princípio é aquela gente que estava concentrada no Largo da Conceição ou em frente ao Mercado Modelo. Os biriteiros e o pessoal da feijoada, ainda não. Depois ela vai engrossando à medida que passa pelas saídas da cidade. Uma substancial quantidade de gente é acrescentada quando chega nas proximidades da Ladeira da Água Brusca onde se concentram os moradores do Santo Antônio, Barbalho, Macaúbas, Soledade, Baixa de Quintas, Caixa D’Água, Lapinha e Liberdade. Depois novo acréscimo na Calçada com os moradores de todo a várzea que vieram de trem. Em Roma, estão os moradores do Uruguai, Bairro Machado, Jardim Cruzeiro e Maçaranduba que também se juntam ao cortejo. Ele já está entrando na Avenida dos Dendezeiros. Hoje é prestada uma homenagem à Irmã Dulce em frente ao seu memorial. As autoridades entram e se benzem. Antes do memorial, a lavagem passava célere. Já o pessoal que reside na península vai direto para a Baixa do Bonfim ou já está no alto da colina, aguardando o melhor do espetáculo.

Com esta seqüência, não há ninguém que possa dizer que viu toda a lavagem. Ela tem uma dimensão gradativa. As baianas alcançam o sopé da manhã por volta das 12 horas e em 20 minutos começa a lavagem das escadarias do templo. O resto vem depois e nada vê. As carroças então, ainda estão aí pelos Mares na maior curtição dos seus irreverentes “passageiros”. Do colorido ao espalhafato que essas carroças fazem e alcançam, originou o famoso dito popular “mais enfeitado que jegue na Lavagem do Bonfim”. E haja enfeite!

Indescretível! Cada um que tenha a sua visão

No momento que as baianas sobem a ladeira, é como se fosse um lençol do melhor linho estendido na vertical da ladeira. Nesse momento, não há como não pensar no divino e já ficamos pensando coisas. Por exemplo, vemos na feliz fotografia acima, a nuvem formando a figura caprichada de um anjo com asas, como que admirando o espetáculo. É impressionante o detalhe.

Mas as nossas baianas já estão chegando ao alto da colina e começam a entoar o hino ao Senhor do Bonfim, acompanhadas pela multidão. Não há como não sentir uma emoção muito forte e um sentimento de fé extraordinário. Baianos de todas as idades; turistas de todas as partes do mundo, gente de todos os lados glorificam o Santo Protetor. Não importa que as portas da igreja estejam fechadas; esta onda de sentimento transpassa todas elas e chega até Ele e Nele posa e Ele aceita o abraço do mundo católico.

Glória a ti neste dia de Glória
Glória a ti redentor que há cem anos
Nossos pais conduziste à vitória
Pelos Mares e campos baianos.
Dessa sagrada colina

Glória a ti neste dia de Glória
Glória a ti redentor que há cem anos
Nossos pais conduziste à vitória
Pelos Mares e campos baianos.

Dessa sagrada colina
Mansão da Misericórdia
Daí-nos a Graça Divina
Da Justiça e da Concórdia.

Glória a ti nessa altura sagrada
É o eterno farol, és o guia
É, Senhor, sentinela avançada
É a guarda imortal da Bahaia.

Dessa sagrada colina
Mansão da Misericórdia
Daí-nos a Graça Divina
Da Justiça e da Concórdia.

Aos teus pés que nos deste o Direito
Aos teus pés que nos deste a Verdade
(Hino ao Senhor do Bonfim. Composto em 1923 pelos senhores Arthur de Sales e João Antônio Wanderley )

É um espetáculo mais do que sublime e lírico. Não há como não provocar uma emoção muito forte, mesmo naqueles que não professam as duas religiões irmanadas nesse sábio sincretismo. A cada ano ela se sucede cada vez mais impressionante, apesar das restrições que se levantam.

2 comentários:

  1. lindo esse documentário, estão de parabéns a quem o fez,sem palavras....eu sou SILVIA brasileira,meus avós maternos eram baianos com muito orgulho, eu tenho prazer de ter o sangue dos baianos em minhas veias.hoje estou na Suíça,mas brasileira sempre....

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  2. Prezada conterrânea: (filho de peixe, peixinho é)

    Infelizmente vc. não postou seu e-mail. Se o fizesse entraria em contáto direto.

    Mutíssimo obrigado pelo seu comentário. Imagino a emoção que vc. sentiu.

    O autor

    eduardogantois1@gmail.com

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